Na semana em que se comemora os 50 anos de Fiat no Brasil, lançada em 7 de julho de 1976, este colunista não poderia deixar de homenagear esta marca que hoje domina o mercado brasileiro e traz inovações constantes.
Como em todo o mercado competitivo, existem marcas que chegam a um país para unicamente vender carros. E há marcas que, com o tempo, passam a fazer parte da paisagem, do vocabulário e até das pequenas contradições nacionais. Não há dúvida que a Fiat faz parte deste segundo grupo. Em seus 50 anos de Brasil não conta apenas a história de uma fabricante instalada em Betim, MG, mas conta também parte relevante da formação de um mercado brasileiro moderno de automóveis e comerciais leves.
O gráfico, título desta matéria, é frio, mas se observado com mais atenção indica uma trajetória eloquente. Em 1976, apareceu irrelevante, mas na década de 1980 já ficava facilmente com seus 11% de participação de mercado, atingindo o pico de 14,8% em 1987, não sendo, portanto, uma entrada no mercado brasileiro tímida. Foi planejado, construído com produto pequeno, racional, moderno para o seu tempo e, principalmente, adequado a um país que sempre necessitava de um veículo mais inteligente do que exuberante.
O Fiat 147 talvez seja hoje lembrado apenas com certa tolerância por quem olha o veículo com os olhos do presente. Ele foi um veículo pequeno, sim, mas trazia inovações como um motor transversal, moderna suspensão independente nas quatro rodas, melhor aproveitamento de espaço e uma lógica de projeto que colocava o Brasil em contato com uma escola europeia mais racional. Não era o automóvel do excesso, mas claramente possuía suas limitações, principalmente num mercado mais conservador.
E a Fiat foi resiliente no mercado pois a marca enfrentou grande preconceito, dúvidas sobre robustez, piadas sobre acabamento e aquela resistência típica do consumidor brasileiro diante de qualquer mudança ou grande novidade. Mas o mercado pune apenas aqueles que não querem aprender, e a Fiat aprendeu. Aprendeu com o clima, com a gasolina de baixa octanagem, com o álcool, com a estrada esburacada, com o cliente de frota, com o mecânico independente e com o consumidor que queria comprar o primeiro carro sem transformar o orçamento familiar em uma aventura financeira no país da instabilidade econômica.
O pioneirismo do 147 a álcool é só um desses capítulos que merecem mais respeito do que normalmente recebem. No longínquo 1979, apostar em um carro movido a álcool não era apenas uma decisão técnica; era uma ruptura ao sistema, uma resposta industrial a um país pressionado por energia, custo e dependência externa. Antes de conhecermos o termo sustentabilidade, a Fiat já o aplicava colocando na rua um produto conectado a realidade brasileira.
A grande virada como marca aparece nos anos 1990 quando no começo da década lança o Uno Mille, modelo popular não de nome, mas de fato, que o consumidor finalmente conseguia transformar desejo em compra. Quando o governo Itamar Franco criou em 1993 o programa do carro popular, o preço dos carros da categoria foi dolarizado, 7.200 dólares, possível pela redução do IPI de 20% para simbólico 0,1%. Só a Fiat tinha o “carro popular” no seu portfólio por esse preço, o Uno Mille. Em 1994, a Fiat atingiu 29,3% do mercado de automóveis e comerciais leves. É a maior participação de toda a série da marca (excluindo as coligadas) no país. O Uno Mille, um sucesso desde seu lançamento, teve grande influência nessa expressiva participação de mercado.
A Fiat entendeu esse momento como oportunidade como poucas outras marcas viram. Naquele momento a Fiat passou a olhar o consumidor de entrada enquanto o mercado ainda o observava com certo desdém sem perceber que ali estava o centro do mercado brasileiro.
Sem dúvida, o Uno merece uma menção especial, pois poucos carros foram tão honestos em sua proposta. Era simples, espaçoso para o tamanho, econômico, resistente, tinha excelente desempenho e era fácil e barato de manter. E o Mille foi além, foi uma política pública sobre rodas, ainda que executada por uma empresa privada, pois representou a porta de entrada ao primeiro carro para muitas pessoas, bem como fez parte de empresas, frotas, autoescolas, famílias, sítios, cidades pequenas e grandes centros. Era um carro para resolver a vida e não para impressionar o vizinho.
Já com o Palio a Fiat foi mais ambiciosa, pois se tratou de um projeto de um país emergente, pensado para mercados com características semelhantes às nossas. Tinha a lógica do carro mundial sem perder a noção de uso severo e por aqui passou por hatch, sedã, camioneta e picape servindo aos mais diversos públicos. Em minha opinião, esta capacidade de derivar produtos a partir de uma base comum, com diversas peças intercambiáveis entre os modelos, de fácil acesso, com custo competitivo e grande capilaridade em função da ampla rede de concessionários, é uma das razões pelas quais a Fiat se manter forte por tanto tempo.n
Entre 1991 a 2015 a Fiat se manteve sempre acima dos 20% de participação, mesmo num mercado altamente competitivo e com diversas novidades de marcas francesas, coreanas, japonesas entre outras aportando por aqui. São números representativos indicando uma Fiat madura e cada vez mais integrada ao mercado brasileiro.
No ciclo seguinte, entre 2015 e 2019, num evidente envelhecimento de portifólio, falta de produtos em segmentos relevantes, críticas em relação aos câmbios robotizados, aos acabamentos mais simples e o aumento da concorrência, a Fiat perdeu representatividade.
E a recuperação mais recente seja um dos capítulos mais interessantes com a Fiat retornando aos patamares acima de 20%. Com um novo portifólio a Fiat passou a ser mais pragmática, mais comercial e mais apoiada em picapes, suves compactos e nas vendas diretas, mais uma vez lendo corretamente o mercado.
A Strada passou de ferramenta de trabalho a um veículo de trabalho e familiar, urbano, empresarial e aspiracional. A Toro ocupou um espaço entre as picapes compactas e as médias tradicionais e deu certo.
Aos 50 anos, a Fiat brasileira é uma marca com virtudes próprias. Ela não construiu sua história pela busca permanente do prestígio. Construiu pela proximidade do consumidor. Foi a marca do primeiro carro, do carro de firma, do carro de locadora, do carro do representante comercial, do jovem, do aposentado, do pequeno produtor, da família que precisava de porta-malas e do autônomo que precisava de caçamba. Essa é a verdadeira virtude que a Fiat construiu nestes 50 anos por aqui.
O mais interessante é que a Fiat errou, corrigiu, insistiu, simplificou, ousou e, acima de tudo, permaneceu inovando. Em um país no qual tanta coisa parece provisória, completar 50 anos fabricando, vendendo e influenciando o mercado não é comum. A Fiat aqui não foi coadjuvante, foi protagonista.
E talvez esta seja a melhor homenagem possível. Não uma homenagem somente nos acertos da marca, ignorando seus defeitos e nem menos tocando nas críticas de alguns poucos dentre os mais de 17 milhões de consumidores Fiat no Brasil.
Após 50 anos, a Fiat continua fazendo o que sempre fez melhor: olhar para o brasileiro real e não para o consumidor idealizado, sendo este, talvez, o seu maior mérito.
Parabéns Fiat do Brasil!
MKN
A coluna “Visão estratégica” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.
