Há automóveis que passam por uma família durante alguns anos e depois seguem seu caminho. Outros permanecem tempo suficiente para acumular boas lembranças antes de serem substituídos por um modelo mais novo. Mas existem casos raríssimos em que um carro deixa de ser apenas um meio de transporte para se tornar testemunha silenciosa da própria história de uma família.
É exatamente este o caso da VW Variant que, há mais de meio século, acompanha a família Thomaz. Ao longo de todos esses anos ela já desempenhou muitos papéis: foi presente de um marido para a esposa, carro de uso cotidiano do pai, automóvel em que o filho aprendeu a dirigir, protagonista da primeira batida da vida dele, companheira de uma longa viagem ao Nordeste, ferramenta de trabalho da empresa da família e, mais tarde, peça de coleção cuidadosamente preservada.
Se isso já não bastasse, foi justamente a decisão, tomada muitos anos antes, de vender um Fusca e manter a Variant na garagem que acabaria garantindo sua sobrevivência. O destino, porém, gosta de pregar peças. Décadas depois, aquele mesmo Fusca retornaria à família após uma impressionante história de reencontro e restauração. Hoje, os dois dividem novamente a mesma garagem, como se o tempo tivesse resolvido fechar um círculo iniciado muitos anos antes; como podemos ver na foto de abertura.
Esta é a história dessa Variant. Ou talvez seja mais correto dizer que esta é a história de uma família contada através de um único automóvel.
Presente do pai para a mãe
A história da Variant branca da família Thomaz começou em dezembro de 1975. Naquele mês, o pai de Alexandre comprou uma VW Variant zero-quilômetro, já modelo 1976, para presentear a esposa. O carro trazia algumas das novidades da linha daquele ano, entre elas o painel da última geração da Variant e a nova tonalidade de branco adotada pela Volkswagen na transição da linha 1975 para 1976, substituindo o branco utilizado até então, chamado de branco Polar, código L8003.
A compra não foi obra do acaso. O pai de Alexandre sempre foi um fiel apreciador da marca. Antes daquela Variant já havia possuído vários Fuscas e até outra Variant, uma 1972. Manter-se fiel à linha Volkswagen era uma escolha natural para quem conhecia e confiava na mecânica arrefecida a ar da fábrica de São Bernardo do Campo.
Durante os primeiros anos, a Variant foi o carro da mãe. Foi nela que a família viveu boa parte do cotidiano da segunda metade da década de 1970. Uma fotografia de 1976 registra bem esse início de convivência: Alexandre, então com apenas quatro anos de idade, aparece brincando de triciclo na casa de praia da família, em Macaé, RJ, enquanto a Variant branca surge discretamente ao fundo. Naquele momento ela era apenas o automóvel da casa. Ninguém imaginava que continuaria fazendo parte da família meio século depois.

Depois, carro do pai
Uma mudança aconteceu por uma sucessão de acontecimentos. Para entender como a Variant voltou a ser o carro principal do pai, é preciso voltar um pouco no tempo: em 1980, ele havia comprado um VW Gol 1300 logo no lançamento do modelo. A expectativa era grande, afinal tratava-se do primeiro automóvel de uma nova geração da Volkswagen.
Na prática, porém, a experiência foi decepcionante. Alexandre lembra que o pai nunca gostou do carro. O desempenho do pequeno motor boxer de 1,3 litro foi muito insuficiente e a velha Variant continuava agradando muito mais ao volante. Não foi uma impressão isolada. A receptividade ao Gol 1300 acabou levando a Volkswagen a reagir rapidamente, introduzindo a motorização 1600, muito mais compatível com as características do modelo.
A situação em 1982: quando a sua mãe recebeu de presente um Passat LS zero-quilômetro, o Gol foi vendido e a Variant passou definitivamente a ser o carro do pai. Foi assim que ela iniciou a fase mais longa de sua vida, permanecendo por muitos anos como companheira inseparável da rotina da família.
A partir dali ela deixava de ser o carro da mãe para tornar-se definitivamente o carro do pai — uma mudança aparentemente simples, mas que marcaria o início das lembranças mais fortes de Alexandre ao lado daquela Variant branca.

Enquanto isso, Alexandre crescia. Aos poucos, aquela Variant deixou de ser apenas o carro em que viajava no banco de trás para tornar-se objeto de admiração.
Aprendendo a dirigir e a primeira batida
Foi na Variant branca que Alexandre deu as primeiras aceleradas da vida. Aos 15 anos de idade, muito antes de entrar numa autoescola, o pai começou a lhe ensinar a dirigir, como era bastante comum naquela época. A sala de aula era um sítio da família em Itaboraí, RJ, onde as estradas de terra praticamente sem movimento ofereciam a tranquilidade necessária para um iniciante.
As lições foram acontecendo aos poucos. Primeiro, aprender a arrancar sem deixar o motor morrer. Depois, trocar marchas, controlar a embreagem e ganhar confiança ao volante. Alexandre lembra que tudo o que sabe sobre dirigir começou ali.
A autoescola serviu apenas para cumprir a exigência legal e obter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A verdadeira escola foi o banco do motorista da Variant, sempre com o pai ao lado.
Com o passar das semanas, a confiança aumentou. Alexandre já conduzia a Variant pelas estradas do sítio com desenvoltura e o pai resolveu dar mais um passo no aprendizado: guardar o carro na garagem.
Aparentemente era uma manobra simples. A garagem ficava atrás da casa e, para alcançá-la, era preciso contornar uma das colunas de madeira que sustentavam a cobertura de telhas de amianto. Ao lado havia a casinha de dois pastores-alemães da família. O pai desceu do carro para orientar a manobra, posicionando-se à frente da Variant e indicando os movimentos com as mãos.
Foi aí que tudo deu errado. Ao contornar a primeira coluna, Alexandre passou perto demais da madeira. O pai, assustado, elevou um pouco a voz para corrigir a trajetória. Bastou aquele instante de nervosismo para provocar um “apagão”. Em vez de pisar no freio, o garoto afundou o pé no acelerador.
A Variant arrancou com força. Derrubou a coluna central da garagem, fazendo o telhado ceder, passou por cima da casinha dos cachorros — felizmente vazia naquele momento —, atravessou o jardim e só foi parar na cerca de arame farpado que delimitava o sítio.
Em estado de choque, Alexandre permaneceu imóvel ao volante, com o acelerador pressionado. O motor continuava tentando empurrar o carro contra a cerca até que o pai correu, desligou a ignição e o retirou do banco do motorista.
O susto foi enorme. A frente da Variant ficou bastante avariada, com para-lamas amassados e o para-brisa destruído. Como o acidente aconteceu num fim de semana, não havia muito o que fazer.
A família voltou para Niterói no próprio carro, mesmo sem o vidro dianteiro. Alexandre ainda se recorda da viagem: todos agasalhados por causa do vento que entrava na cabine durante todo o percurso. Depois vieram a funilaria, a pintura e um novo para-brisa. A Variant voltou ao serviço como se nada tivesse acontecido.
Anos mais tarde, pai e filho ainda comentariam aquele episódio. O pai costumava dizer que o maior erro havia sido sair do carro para orientar a manobra. Alexandre, por sua vez, jamais esqueceu que sua primeira batida ao volante aconteceu justamente no automóvel em que aprendera a dirigir.
A Variant na viagem ao Nordeste
Pouco tempo depois daquele acidente, a família passou por outra mudança importante. Os pais de Alexandre se separaram. Sua mãe permaneceu com o Passat, enquanto a Variant acompanhou o pai, que constituiu uma nova família e voltou a utilizá-la no dia a dia.
Os anos passaram e, em 1989, a velha Variant voltou temporariamente ao convívio de Alexandre por um motivo muito especial. Ele, a mãe e o irmão planejavam uma viagem de férias pelo Nordeste brasileiro.
Como o Gol que sua mãe possuía naquela época tinha um porta-malas pequeno para três pessoas e a bagagem de uma viagem de um mês, pediram a Variant emprestada ao pai. O pedido foi prontamente atendido.
Apesar de já ser um automóvel com muitos anos de estrada, a velha Variant continuava inspirando confiança. Bagagens acomodadas, tanque cheio e a família partiu para uma aventura de aproximadamente um mês pelas estradas brasileiras, conhecendo praticamente todo o litoral nordestino.
Alexandre guarda até hoje diversas fotografias dessa viagem. Em muitas delas, a Variant aparece estacionada diante das paisagens visitadas, quase sempre carregada até o teto, pronta para seguir viagem no dia seguinte. Eram tempos em que uma longa viagem de automóvel exigia planejamento, disposição e confiança na mecânica. A velha Variant cumpriu sua missão sem reclamar.

Curiosamente, aquela seria uma das últimas grandes viagens da Variant antes de uma nova mudança em sua trajetória. Nos anos seguintes ela continuaria na família, mas sua rotina começaria a tomar um rumo completamente diferente daquele imaginado quando saiu zero-quilômetro da concessionária, em dezembro de 1975.
Da rotina ao abandono
Depois da longa viagem pelo Nordeste, a Variant voltou para a garagem do pai de Alexandre. A vida seguiu seu curso e, nessa nova fase da família, o carro passou a ser utilizado principalmente por sua segunda esposa. Continuava sendo um automóvel de uso diário, mesmo já acumulando muitos anos de estrada.
Foi assim até 1992, quando aconteceu o acidente que mudaria completamente o destino da velha Variant. Naquele ano, a esposa de seu pai voltava do Rio de Janeiro pela Ponte Rio–Niterói. Em uma das bifurcações da ponte ocorreu algo difícil até de explicar.
Em vez de seguir por uma das pistas, a Variant continuou praticamente em linha reta, atingindo em cheio a mureta de concreto que divide os dois sentidos da via. O impacto foi extremamente violento e causou grandes danos ao carro. Alexandre lembra que a batida foi tão violenta que seu pai desistiu da ideia de recuperá-lo.
Naquela época, sua meia-irmã havia acabado de nascer. Com outras prioridades pela frente e diante do alto custo do conserto de um automóvel que já era considerado velho, a decisão foi simplesmente deixá-lo parado.
A Variant foi então levada para o fundo de uma oficina. Ali permaneceu esquecida por um longo período. A poeira começou a tomar conta da carroceria, enquanto a frente destruída parecia decretar o fim de uma história iniciada dezessete anos antes, quando ela havia chegado zero-quilômetro à garagem da família como presente para a mãe de Alexandre.
Pouca gente apostaria que aquele carro voltaria um dia às ruas.
O Fusca salvou a Variant
A Variant permaneceu esquecida no fundo da oficina até 1995. Naquele momento, Alexandre e seu pai enfrentavam um desafio completamente diferente. Dois anos antes haviam aberto uma loja de material elétrico e iluminação e, como acontece com muitas pequenas empresas no início da atividade, todo investimento precisava ser muito bem pensado.
Naqueles primeiros tempos eram apenas os dois trabalhando na empresa. Enquanto o pai permanecia na loja atendendo os clientes, Alexandre fazia entregas, buscava mercadorias e resolvia praticamente tudo o que exigisse um automóvel. O problema é que esse trabalho era feito com seu Fusca, recebido de presente ao completar 18 anos.
Depois de dois anos de trabalho intenso, o pequeno Volkswagen já não atendia mais às necessidades da empresa.
Comprar outro veículo estava fora de cogitação. A loja ainda era nova e um investimento daquele porte simplesmente não cabia no orçamento. Foi então que Alexandre teve uma ideia.
“Pai, será que não dá para salvar aquela Variant?” A proposta fazia sentido. Apesar de acidentada, a perua oferecia um amplo compartimento de carga. Com o banco traseiro rebatido, seria muito mais prática para transportar mercadorias do que o Fusca.
A solução encontrada foi vender justamente o Fusca para levantar os recursos necessários à recuperação da Variant. Não se tratava de uma restauração, muito menos de uma preocupação estética. O objetivo era apenas colocá-la novamente em condições de trabalho.
O serviço foi simples, como o próprio Alexandre faz questão de lembrar. A frente, danificada desde o acidente de 1992, continuou desalinhada. O importante era que a Variant voltasse a rodar. E foi exatamente o que aconteceu.
Sem que ninguém imaginasse, aquele negócio mudou completamente o destino dos dois automóveis.
O Fusca deixou a família para financiar o renascimento da Variant. Muitos anos depois, quando Alexandre reencontrou aquele mesmo Fusca e decidiu restaurá-lo, percebeu que a história dos dois carros sempre esteve ligada. Se o Fusca havia partido em 1995, foi justamente para garantir que a velha Variant continuasse viva.
A “Ximbica” aproximou Alexandre da futura esposa
Depois de voltar a rodar, a Variant passou a desempenhar duas funções ao mesmo tempo. Durante a semana era o veículo de trabalho da empresa, fazendo entregas e transportando mercadorias. Nos fins de semana, porém, era o carro de uso particular de Alexandre. Embora ainda estivesse em nome do pai, na prática ela já fazia parte do seu dia a dia.
Foi nessa época que a Variant acabou participando de um dos acontecimentos mais importantes de sua vida. Uma amiga em comum, a Adriana, havia combinado apresentar Patrícia a Alexandre durante uma festa nas proximidades de sua casa. Ela chegou dirigindo um Fiat Prêmio e entrou para fazer as apresentações. A conversa foi rápida e, poucos minutos depois, todos seguiram para a festa. O Prêmio, que não estava lá muito bom, ficou onde estava. Foram na Variant.
Alexandre lembra com bom humor que a amiga ainda tentou colocar Patrícia no banco da frente, ao seu lado. Ela, um pouco sem jeito, preferiu acomodar-se no banco de trás. Na festa, a conversa continuou, surgiu a oportunidade de acompanhá-la até o carro para guardar a bolsa e, naquela mesma noite, começou um namoro que dois anos mais tarde terminaria em casamento.
Como a Variant era seu carro de uso, ela acabou acompanhando naturalmente o namoro. Alexandre buscava Patrícia em casa para passearem e, muito antes de o automóvel aparecer na esquina, ela já sabia que ele estava chegando. Bastava ouvir, ao longe, o ronco característico do motor boxer Volkswagen.

Foi ela quem deu à Variant um apelido que permanece até hoje. Carinhosamente, passou a chamá-la de “Ximbica“.
O nome ficou. Décadas depois, ainda é assim que Patrícia se refere ao carro que fez parte do início da história dos dois. Alexandre costuma dizer que, enquanto o Fusca marcou sua juventude, foi a Variant que participou da história do casal desde o primeiro encontro.
De veículo de trabalho a carro de coleção
Durante alguns anos, a Variant conciliou duas atividades bem diferentes. Nos fins de semana continuava sendo o carro de Alexandre e de Patrícia. Durante a semana, porém, permanecia a serviço da empresa da família, fazendo entregas de material elétrico e iluminação.
Com o crescimento da loja, um motorista foi contratado para assumir as entregas. A partir desse momento, Alexandre começou a perceber que a velha companheira já não recebia o mesmo cuidado de antes.
Ao buscar o carro no fim do expediente, era comum encontrar um novo amassado, algum detalhe quebrado ou um pequeno problema que não existia pela manhã.
No que o Alexandre lembrou: “Eu falei para o meu pai: ‘Vou arrumar outro carro para a loja. Eu gosto muito dessa Variant. Ela é meu carro de uso. Não quero mais ver esse carro sendo maltratado.'”
A solução apareceu de maneira inesperada. Num fim de semana, Alexandre e Patrícia foram visitar a família dela em Cantagalo, RJ. Na viagem de volta, passando por Nova Friburgo, uma Variant azul estacionada com uma placa de “Vende-se” chamou sua atenção.
Parou para olhar. A pintura estava bastante queimada e havia alguns amassados, mas a estrutura do carro era muito boa. Depois de conversar com o proprietário, fechou negócio. Dias mais tarde voltou para buscá-la. Um banho de tinta foi suficiente para colocá-la em serviço.
Enquanto isso a Variant azul assumiu as entregas da loja. A branca, finalmente, pôde descansar…
Era o início de uma nova fase. Pela primeira vez desde que fora comprada, em 1975, a Variant branca deixava definitivamente a rotina do trabalho para começar a ser preservada simplesmente pelo prazer de continuar existindo.
Os primeiros encontros de carros antigos
Livre da rotina de entregas da empresa, a Variant branca começou a receber uma atenção que há muitos anos não experimentava. Alexandre fez uma reforma na Variant que não tinha a pretensão de transformá-la num carro de coleção. O objetivo era simplesmente devolver um pouco da dignidade à companheira de tantos anos.

A pintura ganhou novo brilho, os adesivos da loja desapareceram e as rodas cromadas do VW SP2 deram um toque esportivo ao conjunto. A antiga frente, ainda marcada pela reforma apressada realizada depois do acidente de 1992, permanecia ligeiramente desalinhada, mas isso pouco importava. Pela primeira vez em muito tempo, a Variant era cuidada por prazer e não por necessidade.

Foi por volta de 2000 que Alexandre começou a frequentar os encontros de carros antigos de Niterói. Naquela época, esses eventos ainda eram poucos e bem diferentes da quantidade de encontros existentes atualmente. A Variant estava longe dos padrões de um carro de coleção. Mesmo assim, começou a chamar atenção simplesmente por continuar rodando e por carregar uma história de família que poucos conheciam.
O novo hobby acabou mudando também a garagem da casa. A Variant azul, comprada para substituir a branca nas entregas da loja, revelou-se um carro muito íntegro. Como a empresa já tinha condições de adquirir um Kombi zero-quilômetro para o trabalho, ela também foi retirada de serviço, recebeu uma boa pintura e passou a integrar a pequena coleção de Alexandre ao lado da Variant branca.

Houve ainda uma terceira Variant, modelo 1970, adquirida na tentativa de ampliar a coleção, mas essa permaneceu pouco tempo com ele. O carro era ruim demais para justificar o investimento e acabou sendo vendido poucos meses depois.
Com o passar do tempo, outros carros antigos entraram e saíram da garagem. A Variant azul também encontrou um novo proprietário. A branca, porém, jamais esteve à venda.

Nessa época ela já havia deixado de ser apenas um automóvel antigo. Tornara-se parte da história da família Thomaz.
A restauração que devolveu a juventude à Variant
No início da década de 2010, Alexandre já não tinha mais dúvidas. Depois de tantos anos de convivência, a Variant branca havia conquistado um lugar definitivo na família e merecia uma restauração completa!
O trabalho começou em 2012. Diferentemente da reforma realizada anos antes, quando a preocupação era apenas colocar o carro novamente em circulação, desta vez o objetivo era devolver à Variant as características que ela tinha quando saiu da concessionária em dezembro de 1975.
A carroceria foi completamente desmontada. Como a estrutura estava muito boa, não foi necessário separar a carroceria do chassi, mas praticamente toda a parte externa foi refeita.
A dianteira, que ainda carregava as marcas da violenta batida de 1992, recebeu uma nova mini frente. Foram substituídos os dois para-lamas dianteiros, o capô e o friso frontal (“bigode”), permitindo finalmente corrigir o desalinhamento que acompanhava o carro havia quase vinte anos.
A preocupação com a originalidade também orientou toda a montagem. As rodas esportivas deram lugar novamente às rodas originais, o volante esportivo foi substituído pelo volante de fábrica e os bancos voltaram ao padrão original da Variant. A intenção era preservar exatamente a configuração que o carro tinha quando chegou à família Thomaz.
O resultado superou as expectativas. A pintura realizada em 2012 permanece impecável até hoje e transformou definitivamente a velha companheira de trabalho num verdadeiro automóvel de coleção.
Pouco depois, a Variant recebeu a placa preta, reconhecimento reservado aos veículos históricos preservados dentro das características originais.
Nem tudo, porém, correu como planejado. Já na fase final da restauração, um curto-circuito provocado durante os serviços quase colocou todo o trabalho a perder. A instalação elétrica foi seriamente danificada e precisou ser substituída por completo.
Um novo chicote elétrico foi adquirido e instalado por um mecânico especializado, permitindo que a Variant voltasse finalmente às ruas com a confiabilidade que Alexandre buscava desde o início do projeto.
O reencontro
Ao longo dos anos, muitos carros passaram pela garagem de Alexandre. Alguns chegaram, outros partiram. A Variant azul foi vendida, novos antigos vieram e seguiram seus caminhos. A velha Variant branca, porém, permaneceu onde sempre esteve.
Ela já não era apenas um automóvel de coleção. Era um capítulo da história da família Thomaz.
Curiosamente, havia um detalhe que Alexandre só percebeu muitos anos depois. A Variant e o Fusca sempre tiveram suas histórias profundamente ligadas, mas nunca haviam estado juntos.

Quando o Fusca foi vendido, em 1995, para financiar a recuperação da Variant, um saiu justamente quando o outro voltou a viver. Durante todos aqueles anos, suas trajetórias caminharam em paralelo, sem jamais se cruzarem.
Tudo mudou quando Alexandre conseguiu reencontrar o Fusca de sua juventude e decidiu restaurá-lo. Ao chegar novamente à garagem da família, antes mesmo do início da restauração, aconteceu algo que jamais havia ocorrido: pela primeira vez, os dois carros ficaram lado a lado.
Foi um encontro carregado de simbolismo. De um lado estava o Fusca que havia deixado a família para salvar a Variant. Do outro, a Variant que só continuou existindo graças ao sacrifício daquele Fusca tantos anos antes.

Hoje, completamente restaurados, os dois dividem a mesma garagem.
É difícil imaginar um final mais apropriado para essa história. Um automóvel preservou o outro quando tudo indicava que seu destino seria o desmanche.
Décadas mais tarde, ambos sobreviveram ao tempo e voltaram a ocupar o mesmo espaço, agora não mais como simples Volkswagens antigos, mas como testemunhas vivas da história da família Thomaz.
Talvez seja por isso que Alexandre tenha tanta dificuldade em imaginar qualquer um deles longe de casa.
Depois de tudo o que viveram juntos, e separados, Fusca e Variant finalmente se encontraram.
AG
Agradeço ao Alexandre Thomaz pela terceira participação aqui na coluna. Mais uma vez, toda a história foi reconstruída a partir de inúmeras conversas pelo WhatsApp, nas quais ele esteve sempre disponível para esclarecer dúvidas, confirmar datas e complementar informações. Sua colaboração foi fundamental para que esta matéria pudesse ser escrita. Foi uma excelente parceria.
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