Estamos assistindo há décadas governos brasileiros literalmente brincando com a gasolina. Posso dizer isso com segurança já que, com quase 84 anos já vi de tudo nesse campo, começando no início da adolescência.
O Brasil sempre foi marcado por sua gasolina pobre em questão sw octanagem. Tão pobre nesse aspecto que grandes fabricantes mundiais que para cá exportavam em base regular tinham uma “receita”: motores com taxa de compressão menor. Nas fabricantes com subsidiárias aqui instaladas veículos veículos aqui produzidos aqui tinham taxa de compressão menor do que nos modelos originais, como um mantra.
Nossa gasolina era então totalmente importada dos Estados Unidos e o governo escolhia gasolina de menor octanagem, certamente por questão de preço. Em vez de importar gasolina de 91 octanas RON, a “nossa” era de 87 octanas. O resultado óbvio era os motores “não tropicalizados” apresentarem detonação, nome técnico do que se conhece por “batida de pino”, de elevado poder destrutivo para as partes superiores do motor — cilindros, pistões e cabeçote.
Para carros não tropicalizados a solução corrente era diminuir a taxa de compressão mediante montagem do cabeçote no bloco com duas juntas. Ou, para quem podia, comprar gasolina de maior octanagem vendida em latas de 5 galões americanos (18,9 litros), expediente a que um tio precisou recorrer para que seu Oldsmobile 88 V-8 1949 funcionasse como deveria.
Como já contei em outras oportunidades, a partir de 1937 o governo ditatorial de Getúlio Vargas determinou que a indústria sucroalcooleira produzisse nais álcool e menos açúcar, commodity então em baixa nos mercados mundiais, de modo a ampará-la, para adicioná-lo â gasolina numa proporção de 5 a 8 % e assim continuou até 1982.
A partir daí a proporção aumentou para 12%, maneira de aumentar a octanagem da gasolina comum de 91 para 95 RON, a octanagem da gasolina azul, que deixava de ser produzida para aumentar o volume de estocagem nos postos para o novo combustível alternativo à gasolina: o álcool.
A partir desse ponto, como se o governo tivesse gostado da brincadeira, a presença do álcool vem subindo, passando a 20% em 1997, a 22% em 2002, a 25% e 27% (gasolinas premium e comum), 30% no ano passado e 32% este ano. Já se fala em 35%. a chamada “gasolina do futuro.”
Para o governo não existem veículos mais antigos, motocicletas antigas e modernas, motores marítimos motogeradores, roçadeiras e motosserras a gasolina: só existem carros flex em circulação, que rodam com gasolina ou álcool, puros ou misturados em qualquer proporção.
Também para o governo não existe tráfego internacional de veículos a gasolina entre o país e os da América do Sul.
Toda essa alcoolização da gasolina em nome de quê? De parar de importar 900 milhões de litros de gasolina por ano? Não, o Brasil não é tão pobre que não possa arcar com tal despesa. Exportamos anualmente acima de 400 bilhões de dólares por ano em bens e serviços. Nem faz cócegas no Tesouro.
Governo algum deve esquecer das necessidades básicas da população e uma delas é ter gasolina digna do nome.
BS
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