Você precisa de uma faca, e, quando procura, lá vem o anúncio:
“iKnife: Design, Engenharia e Segurança.
Aço cirúrgico espelhado e resistente. Cabo ergonômico com toque de madrepérola para controle total. Design moderno e avançado.
Calibragem perfeita da distribuição de peso na altura do guarda-mão para manuseio ágil e sem esforço.
Lâmina sem fio (impossível de afiar) e ponta rombuda. Proteção total contra cortes e perfurações para sua família.
Beleza, conforto, desempenho e paz de espírito…”
E tem muita gente comprando, felizes e contentes com estas iKnifes. Artigos e influenciadores analisando e elogiando o produto, classificando-o como inovador, revolucionário e dizendo que a modernidade para as cozinhas modernas finalmente chegou, e que o prazer de cozinhar atingiu um ponto de deslumbramento nunca antes visto. Estas mesmas mídias então passam a taxar as velhas facas, afiadas, pontudas, de antigas, ultrapassadas e extremamente perigosas.
O pior é que, dado o sucesso estrondoso da iKnife, os concorrentes passam a copiá-la e logo nem se encontram mais facas antigas, que cortavam e perfuravam.
Então você repara num detalhe:
— Como assim? Uma faca que não corta e não tem ponta em nome da segurança da minha família? Eu desejo e preciso de uma faca que corte e perfure, e quem é essa empresa que acha que sabe o que é melhor para mim e se posiciona como força de decisão superior à minha sobre que faca posso ou não comprar?
A faca e o carro
Na verdade, a história fictícia da iKnife e a realidade dos carros tem tudo a ver entre si. E para sermos justos, vai muito além dessa simples relação.
Há alguns meses, a BMW gerou polêmica na mídia ao vender seus carros onde a funcionalidade de aquecimento do banco poderia ser acionada mediante uma mensalidade. Comentou-se também da possibilidade do motor ser capaz de entregar potência extra mediante mais uma mensalidade. Parou de pagar, o motor perde aqueles cavalinhos extras.
Mas vamos olhar o caso sob a ótica de quem comprou um carro dessa marca. Ele comprou o carro, pagou por ele, e não tem o direito de usar uma função que faz parte dele? O consumidor pagou, mas é sócio minoritário no bem que adquiriu, e o fabricante manda mais no produto que ele? Alguma coisa aqui está estranha.

Este caso não é isolado e muito menos novo. Quando a Apple lançou o primeiro iPhone, ela o fez em duas versões, onde a mais cara tinha função de GPS e a mais nova, não. A polêmica veio pouco tempo depois, quando técnicos descobriram que a versão sem GPS tinha o chip de GPS instalado mas desativado, exigiram da empresa meios para desbloquear e poderem usar o recurso instalado no aparelho, afinal pagaram por ele. A empresa não cedeu, mas na versão seguinte, todos os aparelhos vieram com a funcionalidade do GPS ativada.
Em muitos aspectos, o que a Apple fez no lançamento do iPhone não é diferente do que a BMW propôs recentemente. É a empresa mandando no produto do cliente, pago por ele, como se ainda dela fosse propriedade.
O anti-feature
O que a Apple fez com o primeiro iPhone é uma prática bastante comum na indústria. A Sony, por exemplo, fabrica a maioria das câmeras usadas em smartphones. Muitos podem achar curioso: o catálogo de câmeras da Sony é muito menor que a diversidade de especificações de câmeras de smartphones que possuem câmeras da Sony.
O paradoxo se resolve quando descobrimos que a Sony fornece o mesmo hardware com diferentes configurações de software, cada uma com especificações compatíveis com o modelo de smartphone em que foi instalada.
Por um lado, a vantagem é grande. Ao instalar o mesmo hardware em smartphones de categorias diferentes, consegue-se maior fator de escala, o que baixa significativamente o preço unitário de cada câmera, ficando a diferenciação pelos recursos que o firmware oferece a cada modelo.
Esta prática de criar um hardware com determinada capacidade e ocultar que ela existe só para diferenciar produtos mais caros dos mais baratos, mas tirando proveito do fator de escala é conhecido por alguns meios como anti-feature.
Mas aí vem o conflito. Quem comprou um smartphone mais básico que usa a mesma câmera que um de modelo mais sofisticado, não teria o direito de ativá-la com os recursos do modelo mais sofisticado?
É evidente que o fabricante vá negar esse direito, afinal, para que alguém poderia pagar bem mais caro pelo smartphone mais sofisticado, se pode ativar o mesmo recurso no modelo mais barato. É deste conflito com os próprios consumidores que surge todo tipo hacking para destravar recursos que a máquina tem, mas foi limitado de fábrica.
Há até produtos que constam licenças de uso que vão além da proibição de hacking dos produtos da empresa, podendo chegar ao nível de processar os responsáveis.
O caso John Deere e o direito de reparo
O caso John Deere, fabricante de tratores e implementos agrícolas, demonstrou para a midia uma prática diferente, mas alinhada com as questões anteriores.

As máquinas mais recentes, produzidas pela John Deere, precisam obrigatoriamente passar por oficinas credenciadas pelo fabricante para manutenções, reparos e trocas de peças. Quase tudo nestas máquinas exige que o item seja desbloqueado por meio de um scanner proprietário, o único que tem acesso total aos recursos eletrônicos do equipamento. Isso impede que um produtor rural busque num ferro-velho a peça que precisa para um trator. Se este produtor rural deseja o reparo, precisa procurar quem seja autorizado pela John Deere para comprar uma peça nova e executar o serviço, ao preço que a John Deere estipula, que não é barato.
Esta atitude gerou protestos dos proprietários destes equipamentos, inclusive com a oferta de firmwares por hackers russos que burlam a proteção imposta pela John Deere. Os casos foram parar nos tribunais americanos, resolvidos apenas recentemente.
O caso John Deere gerou um movimento intitulado “Direito de Reparo”, que vem tendo maior repercussão na Europa. Lá, uma das medidas adotadas é a obrigação do fabricante abrir o protocolo de diagnóstico e reparo.
A obrigação pelos fabricantes em território europeu que abram seus protocolos em favor da facilidade de reparo pelo consumidor e oficinas não credenciadas abriu nova frente de batalha.
Quando o usuário não é comprador, ele vira o produto
Os carros conectados pela internet causam outro tipo de impacto além das restrições de manutenção e reparo pelo uso de protocolos proprietários fechados.
Os carros modernos venderam a imagem de carros mais seguros como, por exemplo, a adoção de recursos como ABS, controles de estabilidade e tração, e de conforto como centrais multimídia que divertiriam os passageiros e manteriam o motorista constantemente informado.
O problema não é a tecnologia que protege e dá conforto. O problema é a tecnologia que complica, encarece, tira o controle e ainda espiona o motorista.
O carro moderno sabe tudo:
- Ele sabe para onde o motorista foi, quando voltou para casa, que percursos ele fez e quanto demorou nisso;
- Ele sabe cada vez que o motorista acelera, freia, onde passou riscos;
- Em que instante e qual a escolha feita a cada uso de um recurso pertencente ao carro, de ligar faróis e limpadores de para-brisa ao ajuste do ar-condicionado, passando pelas escolhas de mídias pela multimídia do carro.
E o problema disso é que o automóvel pode repassar estas informações para o fabricante sem que o motorista tenha conhecimento disso. E o que o fabricante pode fazer com estes dados? Eles alegam, até com certo fundo de verdade, que estas informações podem ser usadas para melhorar o produto. No entanto, os hábitos de uso do automóvel expõem o usuário a todo tipo de exploração comercial, sendo esta apenas uma faceta a mais de como os dados dos hábitos de consumo da população é explorada pela internet.
Na internet existe o mantra: Quando o serviço é gratuito, o usuário é o verdadeiro produto.
No caso da exploração dos hábitos de motoristas e passageiros dentro do veículo, além do custo de aquisição do carro, os dados dos motoristas viram produto valioso para todo tipo de exploração pela internet, num mercado milionário.
Este tipo de exploração comercial da privacidade alheia é tão generalizado e polêmico, que até o jornalista entusiasta britânico Jeremy Clarkson “comprou a briga”:
https://youtu.be/qGTLoOP4_ko?si=yuTWKNXyN_YOeO_B
Este não é fim… Recentemente, a Sony entrou em nova controvérsia. Ela decidiu que os novos jogos para o console de jogos Playstation não seriam mais comercializados em mídia física, mas apenas por download pela internet. Isso acendeu a ira de muitos jogadores.
Já haviam muitos casos de jogos em que os fabricantes haviam fechado os servidores que proporcionavam arenas para que vários jogadores pudessem jogar a mesma partida. Sem estes servidores, o jogo só servia para ser jogado individualmente, offline. Esta era uma situação que revoltava os jogadores há tempo, mas o fim da mídia física pela Sony levava a batalha dos jogadores a um novo nível.
Antes, os jogadores podiam comprar os jogos em DVD ou Blue-Ray, jogar até se fartar, depois podiam emprestar para um amigo, dar de presente ou até mesmo revender e usar o dinheiro para ajudar a pagar um novo jogo. Com o fim da mídia física, esta possibilidade se fechou.
Em paralelo, muitos consumidores perceberam que antes eles compravam LP’s, CD’s, e DVD’s com suas músicas e filmes prediletos, e podiam assistí-los a hora que quisessem, quantas vezes quisessem. Quem comprava um CD poderia legalmente copiá-lo para outro CD ou converter em MP3 para ouvir no carro, o mesmo valendo para os filmes em DVD. Ali os direitos do consumidor estavam garantidos, bem como dos artistas e gravadoras. No entanto, com o streaming muita coisa mudou.
No streaming, você paga uma mensalidade para ter acesso ao conteúdo. Faça uso disso ou não. No começo, o streaming era confortável e prático de usar. Com uma única mensalidade, podia-se encontrar todo tipo de conteúdo que se desejasse em um único serviço a um baixo custo, e isso era tão bom que foi a única medida que que realmente reduziu a pirataria generalizada na internet. Ainda de certa forma é assim nos streamings de áudio, com serviços como Spotify e Deezer, oferecendo bons acervos de praticamente todos os artistas mais populares. Já na parte de mídias visuais a situação gerou tanto desconforto que causou a ressurgência da pirataria.
Houve a fragmentação dos conteúdos, com diversos produtores de conteúdo fechando seus catálogos para oferecê-lo em exclusividade em seu próprio canal. Os preços subiram, e muitos conteúdos entre filmes e séries, passaram a sumir dos catálogos.
A indignação dos usuários foi tão violenta que deu origem a um mantra assustador para estes produtores:
—- Se comprar não é ter, então piratear não é roubar.
Se esse modelo conseguiu transformar música e filmes em serviços, e software em recurso alugável, não é difícil imaginar o mesmo princípio chegando à potência do motor, alcance, climatização, mídia, direção ou recursos de assistência, com o carro que deveria ser seu virando um balcão de serviços pago por mês ou por eventos.
O que os casos da Sony e do streaming nos ensinam
Estes casos nos ensinam um aspecto muito mais profundo sobre nosso modo de vida. Vivemos em um mundo movido pelo lucro, dentro de um modelo econômico que chamamos de capitalismo. O que dificulta o nosso entendimento quando mencionamos o termo “capitalismo” é perceber que muitas relações mudam, e o capitalismo de 50 anos atrás não é o mesmo do atual.
Transformações técnicas e sociais criam novos modos, novos caminhos, novos costumes. Há 50 anos computadores eram caros e tomavam o tamanho de um andar de um grande edifício. Hoje, um smarphone barato na mão de cada um é centenas de vezes mais potente que a soma de todos os computadores em território americano quando da descida do homem na Lua. É nítida a diferença que a presença de computadores potentes e em larga escala fez nas vidas de todos.
Outro fator que é importante entender é o fato de que empresas precisam encontrar novas fontes de receita e margem; quando mercados tradicionais amadurecem, a digitalização permite transformar características antes incorporadas ao produto em serviços recorrentes.
Sob este modelo, não basta que o consumo cresça com o aumento da população. Ele precisa crescer exponencialmente até mesmo dentro dos hábitos de consumo de cada pessoa.
Tente o leitor lembrar como eram os hábitos de consumo 30 ou 40 anos atrás e compare com a atualidade. Na década de 1980, o sonho dos jovens era ter um bom equipamento de som e uma boa TV na sala, um carro na garagem e o resto era poder se reunir com os amigos. Muitas casas sequer tinham telefone fixo. Hoje temos TV, streaming, um celular para cada membro da família, e até gastos como escolinha de inglês e de futebol pras crianças, academia para os adultos, e por aí vai. Hoje nossas vidas são muito mais complexas do que há 30 ou 40 anos, em especial nas nossas relações de consumo.
É um processo lento e gradual, sem grandes sobressaltos, mas firme, porque a tecnologia permite e a economia exige.
E é aqui que surge o alerta deste artigo. O sistema precisa crescer, mas ele pode não ter mais para onde crescer. Então, na ânsia pelo crescimento e pelos lucros crescentes, surgem alternativas que, da ótica dos consumidores, podem não ser as mais éticas, podendo chegar a serem predatórias.
Conclusão
O ponto aqui nnca foi de criticar a tecnologia ou o sistema econômico vigente. A questão aqui é entender como eles são e que impactos eles podem trazer para nossas vidas. É um alerta para que se perceba que estes não são fenômenos isolados, desconexos. Na verdade eles são manifestações de uma mesma causa em comum a todos, e que esta causa não é estática. Ela é antiga e vem crescendo aos poucos, e novos fenômenos de exploração da relação entre consumidores e seus fornecedores certamente surgirão e, sem o devido cuidado, podem ser danosas à vida de cada um.
O sistema econômico hoje está focado em tirar cada centavo possível de cada consumidor. Nem que para isso se faça de dono de cada coisa que cada um comprou com o suor do próprio esforço.
Se estes métodos não deram resultado contra esta ou aquela iniciativa, é preciso entender que, se persistirem, os consumidores acabam cedendo e aceitando o inaceitável. E que, se vingarem em qualquer outra atividade, é provável que, sob as devidas adaptações, surgirão no meio automobilístico.
Porém, a ética existe porque aquilo que a fere sempre leva a consequências graves e precisamos estar sempre alertas para evitarmos que elas se tornem costumes incontornáveis.
Então, evite armadilhas.
AAD
