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Home BS

HONDA CIVIC VTI 1993

O PRAZER EXTREMO DE DIRIGIR

identicon por Bob Sharp
23/08/2026
em BS, Colunas, O editor-chefe fala
Honda Civic VTI 1993 (foto: motor1.uol.com.br)

Honda Civic VTI 1993 (foto: motor1.uol.com.br)



Costumo dizer faz algum tempo que não existe mais carro ruim e que todos são bons. Mas raramente digo que há carros sensacionais, especiais. Um desses é o Honda Civic VTI 1993, que não tive mas dirigi muito quando editor de testes e técnica da revista Autoesporte do final de 1992 a maio de 1997.

É um hatchback médio, jeitoso, de 4.070 mm de comprimento, 1.695/1.890 mm de largura (sem/com espelhos), incríveis (para quem aprecia) 1.350 mm de altura e 2.570 mm de entre-eixos. Suas bitolas denunciavam ser um tração-dianteira, 1.475/1.465 mm D/T. A distância mínima do solo, 150 mm, permitia rodar sem preocupação E era leve, 1.080 kg com o tanque de gasolina de 45 litros cheio. O porta-malas é que era algo pequeno, 230 litros.

O dono do show era seu motor B06A2 de 1.595 cm³ — mesma cilindrada e diâmetro x curso do motor VW EA-827 AP1600 (81 x 77,4 mm), bloco e cabeçote de alumínio, com bielas de 134.3 mm que resultava numa relação r/l de 0,288 (as bielas do VW eram de 144 mm, r/l 0,268).

Sua injeção eletrônica era do tipo no duto (port injection) Honda PGM-FI e a taxa de compressão, 10,2:1.

As suspensões dianteira e traseira eram por braços triangulares superpostos com barra antirrolagem (Ø 21 mm e Ø 13 mm D/T)  e os freios eram a disco nas quatro rodas, dianteiros Ø 262 mm ventilados, traseiros Ø 239 mm. ABS era de série. Rodas eram de liga de alumínio 5,5J x 14, furação 4×100 mm, com pneu 185/60 R14V, o mesmo do Gol GT. O câmbio, manual de 5 marchas. Na carroceria, barra de amarração na seção dianteira fixada na torre dos amortecedores e de lá à parede de fogo.

A direção de pinhão e cremalheira tinha assistência hidráulica e seu diâmetro mínimo de curva era de convenientes 10,3 metros com relação de direção 17,5:1 e 3,6 voltas entre batentes.

Seu coeficiente aerodinâmico (Cx) 0,31, expressivo para a época, combinava-se com a área frontal de 1,94 m², resultando na área frontal corrigida de 0,601 m². Sua velocidade máxima era 215 km/h e com relação peso-potância de 6,75 kg/cv acelerava de 0 a 100 km/h em 7,3 segundos.

A cereja do bolo

Deixei por último intencionalmente o exuberante motor B06As com tecnologia VTEC. A sigla, traduzida do inglês, é de Controle Eletrônico Variável de Sincronização e Levantamento de Válvula. À primeira vista parece algo comum hoje, a variação dos tempos de abertura e fechamento das válvulas, mas o VTEC vai além disso, fazia variava também o importante levantamento da válvulas recurso inexistente no sistema de variação de fase dos comandos variáveis atuais.

A solução para isso é relativamente simples. A árvore de comando de válvulas não tem apenas um ressalto para cada cilindro, como todas, mas dois ressaltos completamente diferentes quanto à determinação dos momentos em que a válvula abre e fecha e o quanto ela abre, chamado levantamento de válvula. Um sistema hidráulico utilizando o óleo do motor faz o conjunto de balancins “escolher” qual dos ressaltos utilizar.

Têm-se então dois motores diferentes, em potência e torque, num só. Um motor “civilizado” de 115 a 120 cv a 5.500 rpm e torque de 13,5 a 14,0 m·kgf entre 4.500 e 5.000 rpm, típicos de um motor 1,6 litro normal para utilização no dia com a total tranquilidade de um motor bem elástico.

Quando a rotação chegava a 5.500 rpm ocorria a troca de ressalto e o motor tornava-se um verdadeiro espécimen de competição. Potência máxima 160 cv a 7.600 rpm e torque máximo 15,5 m·kgf a 7.000 rpm; rotação de corte, 8.200 rpm. Dirigi-lo era emoção pura.

Estabelecer as ralações das marchas deve ter sido trabalhoso para a engenharia da Honda, uma vez que as marchas, em princípio, devem atender às características do motor e se tratava, na prática, de um câmbio para dois motores. Chegaram a um bom termo, embora com o “motor manso” as relações tenham ficado próximas demais e com o “motor bravo” muito espaçadas. Mas em nenhuma situação isso incomodava realmente.

Nascimento do sistema VTEC

O desenvolvimento da linha de motores Honda Série B (incluindo o B16A2) e da revolucionária tecnologia VTEC não foi obra de uma única pessoa, mas sim fruto de um programa especial da Honda liderado por engenheiros brilhantes. Os nomes mais importantes por trás desse projeto foram:

• Ikuo Kajitani (Engenheiro-Chefe de Desenvolvimento): foi o homem diretamente encarregado de chefiar o programa NCE (New Concept Engine). A história conta que o então presidente da divisão de Pesquisa e Desenvolvimento da Honda, Nobuhiko Kawamoto, desafiou Kajitani a criar um motor aspirado de produção em massa que atingisse a marca inédita de 100 cv por litro. Foi Kajitani quem desenhou a arquitetura, o fluxo de ar do cabeçote de duplo comando de válvulas e uniu os conceitos necessários para que o motor B16 nascesse em 1989.
• Kenichi Nagahiro (o Inventor do VTEC): Embora Kajitani tenha projetado o motor B16 como um todo, ele precisava de um “trunfo” para alcançar a meta de potência sem destruir o torque em baixas rotações ou desrespeitar as leis de emissões. Esse trunfo foi o sistema VTEC, inventado e patenteado pelo genial engenheiro da Honda Kenichi Nagahiro. Nagahiro teve a ideia de criar um comando com múltiplos ressaltos controlados por pressão hidráulica, aplicando em motores de carros uma lógica similar à que a fabricante já havia testado em motocicletas.

Portanto, enquanto Ikuo Kajitani assina como o projetista/líder do motor Série B, Kenichi Nagahiro é o pai da tecnologia VTEC que deu a alma de alta rotação a esse icônico motor.

BS

A coluna “O editor-chefe fala” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.

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