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A CHINA CONTINUARÁ VENCENDO

15º PLANO QUINQUENAL PARA O DEESENVOVIMENTO DA INDÚSTRIA DE VEÍCULOS DE NOVAS ENERGIAS INTELIGENTES E CONECTADOS

identicon por Paulo Manzano
12/09/2026
em ELETROentusiastas, Front Page, PM, Substance, Tecnologia
Imagem gerada por IA

Imagem gerada por IA



 

 



Enquanto o mundo ainda discute se o automóvel elétrico é solução ou problema, a China publicou no dia 9 último o 15º Plano Quinquenal para o Desenvolvimento da Indústria de Veículos de Novas Energias Inteligentes e Conectados. Válido de 2026 a 2030, o documento foi elaborado pelo Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação com outros oito órgãos do governo. É uma orientação de Estado para organizar a indústria, direcionar investimentos e definir o espaço que o país pretende ocupar no cenário automobilístico mundial.

Página do Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação

A meta mais evidente é fazer com que, em 2030, os veículos de novas energias (novas?) representem 70% das vendas de automóveis de passageiros e 40% das vendas de comerciais. Na classificação chinesa, esse grupo reúne elétricos a bateria, híbridos plug-in e veículos com pilha a combustível.

O plano não determina que 70% do mercado será exclusivamente elétrico, nem estabelece uma data para o fim do motor a combustão.

Uma das metas que mais me chamaram a atenção foi a de reduzir o consumo médio dos automóveis elétricos para 11,5 kW·h/100 km (ou 8,7 kW·h/km). Não é o consumo de um modelo pequeno ou especialmente aerodinâmico, mas a média dos elétricos novos. É um objetivo muito exigente. Para alcançá-lo, os fabricantes terão de trabalhar em peso, aerodinâmica, pneus, motores, eletrônica de potência, gerenciamento térmico e aproveitamento da energia.

O plano estabelece ainda uma meta de consumo médio corporativo equivalente a 3,3 l/100 km, ou 30,3 km/l, para o conjunto dos automóveis de passageiros de cada fabricante. Nesse cálculo entram também elétricos e híbridos plug-in, com a energia elétrica convertida em seu equivalente energético de combustível.

O plano também prevê a aplicação em grande escala da direção autônoma em rodovias, vias expressas urbanas e algumas ruas das cidades. A proposta chinesa não depende somente dos sensores e computadores do automóvel. Ela integra veículo, estrada e nuvem, com redes 5G e 5G-A, comunicação C-V2X (Cellular Vehicle-to-Everything, ou comunicação celular do veículo com tudo ao seu redor), sensores nas vias, satélites e o sistema de posicionamento BeiDou (sistema chinês de navegação e posicionamento por satélites, equivalente ao GPS dos Estados Unidos). A estrada também passa a participar da condução.

Enquanto outros países tentam fazer cada automóvel compreender sozinho um ambiente complexo, a China prepara esse ambiente para se comunicar com o automóvel. O desenvolvimento do veículo acontece junto com o da infraestrutura. Os veículos automatizados deverão atingir segurança muito superior à dos motoristas humanos, com regras mais severas de homologação, atualização de software, segurança cibernética e proteção de dados.

Na parte técnica, o plano mostra como a China enxerga o automóvel da próxima década. Estão previstos avanços em baterias, direção por fio, freios eletromecânicos, suspensão ativa, motores nas rodas, integração dos controles do chassi, novas arquiteturas elétricas e eletrônicas, semicondutores e sistemas operacionais desenvolvidos no próprio país.

Há também o programa “Inteligência Artificial + Automóvel”. A IA será aplicada ao gerenciamento de energia, controle dos movimentos, interação com os ocupantes, personalização de serviços e previsão de falhas.

O documento reconhece os problemas provocados pelo excesso de capacidade produtiva, pela quantidade de marcas e pela guerra de preços. O governo pretende monitorar fábricas, conter investimentos redundantes, eliminar capacidade ineficiente, estimular consolidações e coibir incentivos inadequados oferecidos por administrações locais.

Não acredito que isso represente o fim dos automóveis chineses com preços ousados. Escala, verticalização e velocidade de desenvolvimento continuarão oferecendo vantagens reais de custo. O alvo parece ser a competição destrutiva, que reduz margens, pressiona fornecedores, compromete a qualidade e mantém fabricantes inviáveis com apoio regional. Algumas marcas deverão desaparecer. As que permanecerem serão maiores e mais preparadas para competir fora da China.

A China pretende colocar vários fabricantes entre os dez maiores do mundo, formar fornecedores entre os cem maiores, fortalecer a reputação de suas marcas e ampliar sua influência nas normas automobilísticas internacionais. Para isso, oferecerá financiamento, seguro de exportação, proteção cambial e apoio logístico.

O plano anterior ajudou a consolidar o automóvel elétrico chinês. O atual amplia muito esse objetivo. A China quer dominar bateria, semicondutor, sistema operacional, inteligência artificial, direção autônoma, infraestrutura, energia, dados e normas. Volume e velocidade já não bastam. Segurança, eficiência, qualidade, durabilidade, marca e presença internacional passam a ocupar o centro da estratégia.

Para o Brasil, a mensagem merece atenção. Receberemos produtos chineses cada vez mais eficientes e sofisticados, desenvolvidos em ciclos mais curtos e apoiados por uma cadeia industrial coordenada. Também deveremos receber novos investimentos produtivos, pois a expansão internacional agora faz parte de um plano nacional. E poderemos importar não somente automóveis, mas tecnologias, padrões industriais e referências regulatórias. Isso apenas se tivermos um plano robusto e contínuo. Com o desafio de incluir o álcool paralelamente a eletrificação.

O plano estabelece padrões cada vez mais altos, obriga os fabricantes a evoluir e abre espaço para que os menos eficientes desapareçam. É um nivelamento por cima, conduzido pelo Estado e baseado em tecnologia, produtividade, qualidade e capacidade de competir no mundo.

A China demonstra, mais uma vez, que seus resultados não são fruto apenas de baixos custos ou velocidade. Há planejamento, coordenação industrial e uma visão bastante definida sobre o automóvel que pretende desenvolver.

Ah, essa China! Vai continuar causando. Seu sistema de governo, seu planejamento e sua disciplina merecem uma reflexão mais abrangente. Mas isso deixo como exercício individual para cada um.

Essa reflexão me leva a um pensamento recorrente, um verdadeiro paradoxo: “O que nós, brasileiros, temos de melhor, nosso orgulho nacional, é também o que mais nos prejudica: o nosso jeitinho brasileiro.”

PM

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