Carro que só roda com álcool? Não é novidade!
Para quem não se lembra, no final da década de 80, mais de 95% da produção nacional era de automóveis que só queimavam o combustível de cana (aliás, hoje de milho também…). Até pela necessidade de reduzir a importação de petróleo pela crise internacional que reduziu sua produção munidal.
Mas a falta do álcool, em 1989, gerou filas de automóveis nos postos e a derrocada do Próálcool, plano criado em 1975 para estimular seu consumo. Que só voltou triunfante em 2003 quando a eletrônica permitiu o lançamento do motor flex, que queimava qualquer proporção de gasolina ou etanol. Os motoristas não se sentiram mais reféns das usinas alcooleiras.
As estatísticas atuais indicam 70% dos motoristas de automóveis flex abastecendo com gasolina. E o governo, dentro do plano Mover, lançou o Carro Sustentável com redução do IPI em função da motorização (elétricos, híbridos flex ou álcool). E zerado para motores que funcionam exclusivamente com etanol, pois emitem um máximo de 83 gramas de CO2 por km. O flex com gasolina chega a 100 g/km.
As fábricas estão correndo atrás deste desconto e a primeira delas a se aproveitar desta redução tributária foi a GM que lançou o Onix com motor 1,0 turbo de 115 cv para ser abastecido exclusivamente com álcool. E reduziu seu preço de tabela graças ao IPI zerado. A próxima é a Volkswagen que vai repetir a manobra com o Polo. E a Stellantis já tem guardado há tempos na prateleira um motor a etanol para ser lançado no momento mais adequado. Todas legalmente corretas e seguindo rigorosamente o estabelecido pelo governo.
Palmas para a idéia que é ótima, pois reduz emissões e substitui o combustível fóssil pelo vegetal. Mas falha por não aproveitar a elevada resistência à detonação do etanol para compensar seu menor poder calorífico em relação à gasolina. Além do mais, é também uma boa solução para aumentar o consumo do etanol sem enfiá-lo goela abaixo dos motoristas elevando sua mistura na gasolina.
Lamentavelmente, para fazer jus à redução tributária de até 7,8%, as fábricas estão modificando apenas o software do motor flex para exigir 100% de etanol no tanque. Alteram as regulagens de ignição (centelha) e injeção para se adaptar melhor ao combustível vegetal e funcionar mal com a gasolina. Com resultados ínfimos de redução de consumo e emissões. Na rodovia, de 10,9 para 11,1 km/litro. E como se obteriam melhores resultados? Elevando-se a taxa de compressão do motor.
No flex, ela não pode ser mais alta para contemplar o etanol pois o motor tem que queimar também gasolina. Mas aumentar a taxa exigiria substanciais alterações mecânicas envolvendo pistões, talvez até o cabeçote, pistões, etc. Possível, mas exigiria tempo e investimentos.
Além de não maximizar a eficiência do combustível, este motor “a álcool” (que não passa de um flex com alterações de regulagens) levanta uma dúvida: o carro é vendido com redução de custo para queimar apenas etanol, mas não seria nada complicado uma oficina interferir no chip da central eletrônica e retorná-lo às origens. Ou seja, voltar a flex e queimar os dois combustíveis novamente.
Se o governo federal estivesse mesmo interessado em estimular o consumo do etanol, deveria, sim, estabelecer uma redução tributária para estes motores, exigindo, entretanto, que fossem efetivamente projetados para o combustível vegetal com resultados explícitos, visíveis e comprováveis.
BF
A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.
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