O Dia das Crianças normalmente nos faz recordar de brinquedos, jogos, bicicletas, carrinhos e daquelas coisas que pareciam enormes quando ainda éramos pequenos. É engraçado pois no meu caso, existe igualmente uma lembrança que nunca deixou de me acompanhar, o automóvel. Aos sete ou oito anos de idade, a mobilidade, termo que nem existia na época no contexto atual, já ocupavam um espaço desproporcionalmente grande na minha curiosidade. Brincava de adivinhar modelos pelos faróis ou de adivinhar em que quilômetro estávamos numa viagem, em sua maioria indo para Tatuí/SP. Eu colecionava carrinhos, revistas e tratava claramente um veículo não apenas como objetos que levavam a família de um lugar para outro. Eu queria entender diferenças, detalhes, motores, equipamentos e tudo aquilo que fazia um carro ser diferente de outro.
Estou falando da década de 1980. Naquela época o acesso a informação ocorria por intermédio das revistas especializadas ou em visitas aos concessionários de marca. Confesso que era muito mais simples do que hoje pois haviam apenas quatro dominantes no mercado e eu nunca fui muito fã de veículos modificados. E adivinhem… lá estava eu quando um veículo era lançado ou ligando para as redações questionando os resultados o que, por si só, já vale uma coluna.
Mas informação em si, dava trabalho. Era preciso observar, perguntar, guardar catálogos, revistas e, principalmente, memorizar. Talvez por isso o automóvel gerasse um pouco mais de mistério, não sei. Reconhecer um modelo a distância, distinguir uma versão por uma roda, um friso ou uma lanterna e saber o que havia de diferente sob o capô faziam parte de uma espécie de jogo que não precisava de tela.
A indústria não ajudava… a informação era tratada como segredo de Estado e ninguém compartilhava muita coisa e até por isso a K.LUME se lançou no mercado tendo como uma das premissas de seu trabalho a disseminação de informação que podem e devem ser públicas.
Os anos passaram e aquilo que era uma curiosidade virou formação e depois profissão. Engenharia Mecânica, Direito, Administração e, principalmente, décadas convivendo diariamente com a indústria automobilística acabaram transformando aquele interesse infantil numa atividade profissional. Hoje trabalho justamente analisando aquilo que, quando criança, observava pelo prazer de entender: mercado, produto, preço, tecnologia, concorrência, comportamento do consumidor, vendas, frota circulante, valor residual e os movimentos de uma indústria que talvez nunca em sua história tenha mudado tão rapidamente.
E aqui existe uma certa ironia pois quando eu tinha oito anos, desejava saber quantos cavalos tinha um determinado carro, qual era sua cilindrada e quanto demorava para ir de 0 a 100 km/h. Hoje até me interesso por tudo isso, mas a estes elementos foram adicionados participação de mercado, elasticidade de preço, vendas diretas, incentivos, TCO, ADAS, baterias, software, eletrônica de potência, valor residual, comportamento da rede e mais algumas dezenas de variáveis que provavelmente fariam aquele menino desistir da planilha e voltar correndo para o carrinho.
Mas ele não desapareceu
Talvez essa seja uma das maiores vantagens de trabalhar durante tantos anos com algo de que realmente se gosta e, neste sentido, certamente eu sou um privilegiado. A experiência profissional ensina a desconfiar dos números, questionar explicações fáceis e separar tendência de moda. O mercado ensina que nenhuma projeção deve ser confundida com certeza. A indústria ensina que empresas gigantes também erram, produtos tecnicamente excelentes podem fracassar e carros aparentemente improváveis podem transformar mercados. Mas a curiosidade da infância continua sendo a energia que tenta entender o porquê das coisas. E eu adoro isso!
O próprio automóvel mudou radicalmente nestes últimos 40 anos, de uma lógica predominantemente mecânica para incorporar bateria, software, sensores, conectividade, eletrônica de potência, sistemas de assistência ao motorista e atualizações remotas. Eu ainda estou certo que a boa engenharia importa, mas seria muita ingenuidade pensar que ela, sozinha, permanece no centro da competição.
E, não sei ainda, talvez seja neste ponto que a minha infância e a minha atividade profissional tanto discutam. O menino gosta do carro pelo carro. O consultor precisa perguntar quanto custa, quanto vende, quanto desvaloriza, qual é a rede, onde será produzido, de onde vêm as peças, qual é o custo de reparação e se aquela marca ainda estará aqui daqui a dez anos. Um olha para o automóvel e pensa em desejo, prazer em dirigir, design e novidade. O outro pensa em risco, gestão financeira, previsões e correlações de mercado. Os dois, ainda bem para mim, conseguem conviver muito bem dentro da mesma pessoa.
Provavelmente, este prazer também ajuda a explicar por que continuo gostando tanto de visitar fábricas, concessionárias, salões de automóvel, centros de desenvolvimento e estar envolvido em eventos automobilísticos. Depois de tantos anos, ainda existe alguma coisa daquela criança quando vejo um automóvel novo pela primeira vez. A diferença é que agora não posso simplesmente dizer “gostei”. Preciso entender por que gostei, para quem aquele produto foi desenvolvido, contra quem compete, qual seu posicionamento e se existe mercado suficiente para justificá-lo. Esta é a grande diferença do Milad criança para o Milad adulto.
Mas existe outra
Depois de tantos anos acompanhando esta indústria, aprendi que quem acreditar que já sabe todas as respostas provavelmente começará a errar exatamente naquele momento. A curiosidade e a intuição passam a ser elementos importantes. A curiosidade por se aprender pela informação, hoje mais disponível.
Mas lamento informar aos mais jovens que intuição não se baixa no Google, não aparece pronta no ChatGPT, no Manus ou em qualquer outra ferramenta. E isto não é absolutamente uma crítica a esses recursos. Eu mesmo utilizo vários deles diariamente e considero que ampliam extraordinariamente nossa capacidade de trabalhar.
Ferramenta entrega informação e a experiência ajuda a fazer a pergunta certa, perceber quando um resultado não parece razoável e desconfiar da resposta antes mesmo de conseguir explicar exatamente o motivo. Esta percepção é aprendida apenas pela leitura, observação, tentativa, erro, convivência com o mercado e, principalmente, com o fator tempo.
No Dia das Crianças, portanto, não penso apenas nos carrinhos que passaram pelas minhas mãos. Penso naquele garoto de oito anos que começou a observar automóveis sem imaginar que, décadas depois, passaria boa parte dos seus dias estudando exatamente sobre aquilo.
Aquela criança cresceu, estudou, trabalhou, aprendeu a fazer contas, analisar bases gigantescas e a desconfiar de previsões excessivamente precisas. Mas essa mesma criança continua olhando para um carro novo e querendo saber tudo sobre ele.
Ainda bem.
Agradecimento especial
Alguns já estão cientes que meu pai faleceu dia 6. Eu sempre tive o mês de outubro como um mês de muita alegria e tive o enorme privilégio de conviver com meu pai até os seus 93 anos numa relação de pai e filho espetacular que, com o passar dos anos, também se transformou numa relação de amigo para amigo.
Eu não poderia terminar este texto, que fala justamente de infância, formação e de como nos tornamos aquilo que somos, sem agradecer a quem esteve presente em praticamente todo esse caminho.
Meu pai sempre apoiou minha jornada e nunca escondeu o orgulho que sentia pelos meus passos. O sorriso dele quando me via em um jornal, numa revista, na televisão ou simplesmente lendo algum artigo meu é uma daquelas imagens que jamais sairão da minha memória.
Parte daquele menino de oito anos que ainda trabalha comigo certamente foi construída por ele.
Obrigado, Paizão.
E as fotos? Todos carros que passaram pela minha infância até os 18 anos. Na Parati LS 1983, branca, placa PB-0550, aprendi a dirigir e bati pela primeira vez um carro. Na Parati GL 1.8 1990, a vermelha, aprontei com ela, viu… placa amarela era SU-0472 e depois passou para a cinza CRS-4842 (ficou conosco até ser roubada).
MKN
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