A primeira quinzena de outubro confirmou que o mercado continua forte quando corrigido pelo número de dias úteis, mas trouxe dois sinais de atenção: a venda direta voltou a superar o varejo e a falta de estoque reduziu o ritmo de BYD e Geely.
A semana também mostrou respostas diferentes à transformação do setor. A Nissan recorrerá ao e-POWER — sistema no qual o motor a combustão aciona um gerador para produzir eletricidade para uma pequena bateria e somente os motores elétricos movimentam as rodas — para disputar o mercado de suves eletrificados. A MG está trazendo ao Brasil um elétrico de até 752 cv, enquanto Stellantis, Porsche e Mercedes-AMG reforçam design, identidade e experiência de condução.
A Tesla, por sua vez, apresentou um Roadster com aerodinâmica ativa, sistema de sucção e propulsores desenvolvidos em colaboração com a SpaceX. É um carro de imagem, criado para recolocar desempenho e espetáculo no centro da comunicação da marca.
1. Mercado cresce por dia útil, mas venda direta volta a superar o varejo
O Brasil registrou 103.184 emplacamentos de automóveis e comerciais leves na primeira quinzena de outubro, segundo dados do Renavam analisados pela Bright Consulting. O volume ficou 5,7% abaixo do mesmo período de 2025, mas outubro teve um dia útil a menos. Corrigida essa diferença, a média diária avançou 3,8%.
A venda direta respondeu por 50,4% do total, com aproximadamente 52 mil unidades. O varejo ficou em 51,2 mil veículos e recuou 12,3% diante da primeira metade de setembro. No acumulado do ano, o mercado chegou a 2,25 milhões de unidades, 17,7% acima do mesmo período de 2025.
As marcas chinesas alcançaram 20,6% dos emplacamentos, mais que o dobro dos 9,6% registrados um ano antes, mas abaixo dos 22,7% de setembro. A Bright atribui parte dessa retração à falta de estoque de BYD e Geely.

Por que importa: o mercado permanece aquecido, mas sua composição mudou. Crescimento sustentado por venda direta tem efeitos diferentes sobre margens, valor residual e rentabilidade da rede quando comparado ao avanço das vendas no showroom.
Implicação: fabricantes e concessionários precisarão observar menos o número bruto e mais a origem dos emplacamentos. Entre os chineses, a limitação momentânea parece estar na disponibilidade de produto, não necessariamente na procura.
2. Atraso do Imposto Seletivo pode prolongar a cobrança do IPI
A atualização importante desta semana não foi a definição das alíquotas do Imposto Seletivo, que continuam desconhecidas. O Ministério da Fazenda passou a estudar uma Proposta de Emenda à Constituição para manter temporariamente o IPI sobre automóveis e outros produtos alcançados pelo novo tributo.
A medida seria necessária porque a regulamentação do Imposto Seletivo não foi publicada até 2 de outubro. Pela regra da noventena, sua cobrança não poderá começar em 1º de janeiro de 2027. Sem uma solução transitória, haveria um intervalo sem IPI nem Imposto Seletivo sobre os produtos afetados.
O governo calcula uma perda de arrecadação de R$ 3,82 bilhões em janeiro, valor que considera todos os setores sujeitos ao novo imposto, não somente os veículos. A Fazenda afirma que pretende preservar inicialmente a carga tributária atual, mas ainda não apresentou a PEC, as alíquotas ou a fórmula de cálculo.
Para os automóveis, a legislação determina que o Imposto Seletivo considere potência, eficiência energética, segurança, reciclabilidade, pegada de carbono, densidade tecnológica, emissões do poço à roda, etapas industriais realizadas no Brasil e categoria do veículo. O peso atribuído a cada critério ainda dependerá da regulamentação.
Por que importa: a possível prorrogação do IPI altera a transição tributária planejada para 2027, mas não resolve a principal incerteza da indústria: quanto cada veículo efetivamente pagará.
Implicação: fabricantes continuam sem uma base definitiva para fechar preços, versões e volumes de 2027. Também não é possível afirmar quais automóveis ficarão mais caros ou mais baratos até que sejam conhecidos o texto da PEC, as alíquotas e os redutores aplicáveis.
3. MG IM6 leva o premium chinês ao território dos 752 cv
A MG está trazendo ao Brasil o IM6, modelo que marcará a estreia da IM Motors no mercado brasileiro. A marca tecnológica foi criada pela SAIC em parceria com Alibaba e Zhangjiang Hi-Tech, e seus produtos serão comercializados pela rede MG.
A versão superior utiliza arquitetura de 800 V, bateria de 100 kW·h, tração integral e dois motores que entregam 752 cv e 81,7 m·kgf. O alcance homologado pelo Inmetro é de 400 km, e a aceleração de 0 a 100 km/h ocorre em 3,5 segundos.

Haverá também uma configuração com motor traseiro de 295 cv, bateria de 75 kW·h, arquitetura de 400 V e alcance de 348 km. O suve-cupê mede 4.904 mm e tem 2.950 mm entre eixos. Os preços brasileiros permaneciam pendentes ao fim do período.
Por que importa: o IM6 não chega como alternativa barata. Ele tenta conquistar espaço pelo desempenho, pela arquitetura elétrica e pelo conteúdo tecnológico, disputando diretamente com Zeekr 7X, BYD Sealion 7 e elétricos de marcas premium tradicionais.
Implicação: a ficha técnica abre a porta, mas não estabelece uma marca de luxo. Preço, acabamento, calibração, atendimento, seguro, recompra e valor residual determinarão se o público enxergará o IM6 como produto premium ou somente como um elétrico muito potente.
4. Jetour S08 expõe a confusão nas declarações de potência dos híbridos
O Jetour S08 chegou em versão única por R$ 259.900, com bônus de R$ 20 mil na troca do usado para as primeiras 499 unidades. O suve híbrido plug-in tem sete lugares, bateria de 18,4 kW·h, alcance elétrico de 62 km pelo Inmetro e alcance total declarado de até 1.200 km.
O motor a gasolina de 1,5 litro turbocarregado entrega 135 cv, enquanto o elétrico desenvolve 204 cv. A Jetour divulga 339 cv como “potência total instalada”, resultado da soma aritmética das potências individuais. A própria fabricante ressalva que esse valor não está disponível simultaneamente durante o uso.

O mesmo critério foi aplicado ao torque divulgado de 52 m·kgf, obtido pela soma dos 20,4 m·kgf do motor a combustão com os 31,6 m·kgf do elétrico.
Por que importa: somar valores máximos produzidos em condições e rotações diferentes gera um número comercialmente atraente, mas que não equivale à potência combinada efetivamente entregue pelo sistema.
Implicação: fabricantes, imprensa e órgãos de homologação precisam adotar critérios transparentes e comparáveis. Sem essa padronização, potência e torque deixam de ser referências técnicas confiáveis e passam a funcionar principalmente como argumentos publicitários.
5. Stellantis usa seis conceitos para reforçar a identidade de suas marcas
A Stellantis apresentou em Paris seis carros-conceito de Alfa Romeo, Citroën, DS, Fiat, Opel e Peugeot. Eles fazem parte de um conjunto de nove conceitos e de uma exposição com mais de 60 veículos de oito marcas.
Entre as propostas estavam um Citroën inspirado no 2 CV, projetado como elétrico europeu de € 15 mil; o Fiat Multiplay, que combina características de suve e picape; e o Peugeot RCZ Vision, construído sobre a plataforma STLA One, com direção eletrônica sem ligação mecânica e uma nova geração do i-Cockpit.

O grupo anunciou mais de 50 produtos até 2030 e pretende ampliar em 25% sua cobertura de segmentos na Europa ampliada.
Por que importa: as marcas do grupo compartilham cada vez mais plataformas e componentes. O desafio é impedir que essa eficiência industrial produza automóveis sem identidade própria, especialmente diante da velocidade e do conteúdo tecnológico dos chineses.
Implicação: design, desejo e diferenciação voltaram ao centro da estratégia. Para o Brasil, o efeito mais relevante será observar quais soluções chegarão aos futuros produtos de Fiat, Jeep, Citroën e Peugeot e quanto permanecerá entre o carro-conceito e a produção.
6. Porsche e Mercedes-AMG respondem à padronização do luxo
A Porsche apresentou o Mission S, carro-conceito que antecipa uma nova plataforma de superesportivo com motor central, posicionada acima do 911. A fabricante afirma que não se trata de um hipercarro isolado, mas de uma futura oferta permanente em sua gama.
O interior reduz as superfícies digitais, combina instrumentos analógicos e digitais e dispensa uma tela central instalada permanentemente. A proposta recupera elementos de ergonomia e envolvimento com o motorista num momento em que grandes telas começam a parecer iguais em automóveis de diferentes origens e preços.

A Mercedes-AMG revelou o GT SUV, seu primeiro suve grande desenvolvido integralmente em Affalterbach. O GT 63 SUV utiliza três motores elétricos de fluxo axial e uma bateria de 800 V. A potência máxima declarada chega a 860 kW, equivalentes a 1.169 cv, enquanto a potência contínua é de 530 kW, ou 721 cv.
Com a bateria de 128 kW·h, a fabricante declara recarga em corrente contínua de até 710 kW e recuperação de aproximadamente 450 km de alcance WLTP em dez minutos. Ainda não há confirmação de venda no Brasil.

Por que importa: Porsche e AMG seguem caminhos diferentes, mas partem da mesma preocupação: potência e telas tornaram-se fáceis de comparar e já não garantem exclusividade. A Porsche recupera ergonomia, identidade e envolvimento; a AMG procura diferenciar-se pela engenharia elétrica de alto desempenho.
Implicação: no luxo, a disputa deixa de ser apenas por números. Marcas tradicionais precisarão demonstrar coerência entre tecnologia, comportamento dinâmico, atendimento e história para enfrentar fabricantes chineses que oferecem desempenho elevado por preços inferiores.
7. Tesla transforma o Roadster em vitrine tecnológica
A Tesla apresentou a nova geração do Roadster, cuja produção está prevista para 2028. O esportivo elétrico adota aerodinâmica ativa e um sistema de sucção destinado a aumentar a carga aerodinâmica.

A configuração Thrust acrescenta propulsores traseiros de gás frio. Segundo a Tesla, o conjunto permitirá acelerar de 0 a 60 mph — aproximadamente 97 km/h — em menos de um segundo.
A versão mais extrema, denominada Rocket, acrescenta propulsores distribuídos pelo perímetro do carro, capazes de produzir aceleração longitudinal, movimento vertical e rotação lateral. Durante a apresentação, o protótipo saltou sobre outros veículos, girou no ar e utilizou o sistema de sucção para percorrer uma rampa de cabeça para baixo.
A Tesla informa que o Rocket terá apenas um lugar, será oferecido exclusivamente por convite e não estará homologado para circular em vias públicas. O Roadster será produzido apenas com direção do lado esquerdo. Não há preço atualizado nem confirmação de venda no Brasil.
Por que importa: o Roadster não deverá representar volume relevante, mas devolve à Tesla um carro-vitrine. Depois de concentrar sua narrativa em inteligência artificial, condução autônoma, robôs e robotáxis, a empresa volta a usar um automóvel para demonstrar capacidade técnica e gerar desejo.
Implicação: o modelo eleva o espetáculo tecnológico entre os superesportivos elétricos, mas também expõe a distância entre demonstração e produto comercial. Prazo, homologação, segurança, repetibilidade das manobras e disponibilidade das diferentes configurações precisarão ser comprovados até 2028.
8. A Europa tenta limitar os híbridos chineses e o Brasil pode receber parte da pressão
China e União Europeia avançaram em um entendimento preliminar para restringir o crescimento das exportações chinesas de híbridos. Esses embarques triplicaram no primeiro semestre de 2026, alcançando US$ 7,5 bilhões. SAIC, BYD e Chery responderam por mais de 90% das vendas de híbridos chineses na União Europeia.

Os detalhes permanecem em negociação. Limites de volume, preços mínimos, exceções e forma de implementação ainda não foram publicados. Portanto, não há base para tratar números específicos de cotas como decisão definitiva.
Por que importa: eventuais limites às importações aumentam o incentivo à produção chinesa em território europeu, mas também podem levar alguns fabricantes a direcionar maior capacidade exportadora a outros mercados.
Implicação: o Brasil pode receber maior pressão de lançamentos e preços, especialmente de grupos com produção, montagem ou planos industriais locais. Esse efeito, porém, dependerá das regras definitivas do acordo europeu, da capacidade de absorção do mercado brasileiro e da recomposição do imposto de importação em 2027.
Boa semana! PM

