Mais uma vez, abrimos espaço em nossa coluna Falando de Fusca & Afins para apresentar um causo envolvendo o nosso querido VW Fusca. Desta vez, quem nos brinda com mais um de seus causos é André Pronin, que já participou anteriormente de nossa coluna. André é filho de Mihail Pronin, meu amigo desde os tempos do curso científico no Mackenzie.
André tem uma memória verdadeiramente extraordinária. Consegue recordar, com impressionante riqueza de detalhes, os automóveis que fizeram parte de sua infância e juventude, incluindo modelos, anos de fabricação, cores e até particularidades que normalmente se perdem com o passar do tempo.
Seu relato nos transporta para uma época em que os Fuscas faziam parte do cotidiano de milhões de brasileiros, dominando por muitos anos o cenário automobilístico nacional. Uma história de família, amizade e vizinhança, que certamente despertará boas lembranças em muitos leitores que viveram aqueles tempos.
Um VW Fusca, muitos donos e uma história de vizinhança
Por: André Pronin
Nasci na São Paulo dos idos de 1970. Naquela época, meu pai, o engenheiro Mihail Pronin, desfilava com um Fusca 1966, motor 1200, na cor vermelho Cereja — hoje, uma verdadeira raridade que só conheci por fotografias. Minha primeira lembrança automobilística real, no entanto, foi com o sucessor dele: um “Fuscão” 1500, ano 1971, branco Lotus.

O ponto de partida daquelas memórias afetivas começou por volta dos meus quatro anos, pouco antes de minha mãe engravidar da Tatiana, minha única irmã, e estendeu-se até a venda do carro, em 1976.
Nessa mesma época, meu tio Dimitri comprou um Fusca 1300, ano 75/76, vermelho Málaga, zero-quilômetro. Aquele carro virou um membro da família: ficou com ele por cerca de vinte anos, chegando a ser compartilhado e revezado pelos meus primos na juventude. Voltarei a falar nele em breve.
Já o terceiro Fusca com o qual tive contato direto pertenceu novamente ao meu pai. Era um 1300 L 1978, bege Jangada, comprado no início dos anos 1980. Aos 11 anos, fascinado por carros, eu já implorava para dar uma voltinha no quarteirão e praticar. O bairro era residencial e tranquilo. Era o início do meu aprendizado na nobre arte de dirigir, algo impensável e proibido para uma criança de 11 anos nos dias de hoje, mas comum naquele tempo.
Cresci respirando o mundo automobilístico. Da infância à vida adulta, essa paixão me moldou, tanto que me formei em Engenharia Mecânica e realizei o sonho de trabalhar em uma grande fabricante de veículos. Sempre colecionei a revista Quatro Rodas e miniaturas, que guardo até hoje e divido com meus filhos Alexandre e Filipe. Juntos, costumamos visitar museus e exposições de veículos antigos.

Minha mente funcionava de forma curiosa: eu identificava as pessoas pelos carros que possuíam. Lembro-me perfeitamente do amigo do meu tio que tinha um Opala de Luxo 1978, amarelo Ouro, de quatro portas, câmbio de três marchas e motor de quatro cilindros. Ou da vizinha, amiga de minha mãe, dona de um Brasília 1980 branco Alaska. Fora os carros dos familiares, aí vai um livro todo de memórias.
Por falar em vizinhos, eu morava em uma rua pacata, quase uma vila, na Zona Sul de São Paulo, na região do Brooklin. Eram apenas doze casas com uma praça no centro. Aos finais de semana, a rua ganhava vida. No auge dos meus 16 anos, nos reuníamos com os carros dos nossos pais para lavar, aspirar, polir e, claro, dar aquela clássica “voltinha” no quarteirão.
Eu cuidava com extremo zelo do carro da minha mãe: um Gol 1,6 1983 a álcool, na cor branco Paina — a versão mais básica da época, embora ainda não carregasse a famosa sigla “BX” em seu modelo.

No nosso grupo de amigos, outro vizinho, meu amigo Alexandre, trazia a Caravan 79 do pai, equipada com câmbio de quatro marchas, motor de quatro cilindros e uma belíssima pintura verde Olinda Metálico. Outro vizinho ostentava a Variant II, 1981, bege Palha de sua família e meu primo Michel com o Fusca 1300 75/76 vermelho Málaga, agora da família. Ali, limpando os carros e jogando conversa fora, curtíamos nossa juventude.
Um belo dia, quando eu já estava com cerca de 19 anos, uma nova família mudou-se para a casa à nossa direita. Eram gaúchos vindos de Viamão, Rio Grande do Sul. Eles trouxeram consigo um Fusca 1300, ano 75/75, bege Alabastro, chassi BJ189568, ostentando as placas amarelas AV-2397 de Viamão-RS. O carro estava impecável, mas tinha história para contar: já havia cruzado a rota São Paulo-Porto Alegre- São Paulo por diversas vezes.
Naquela altura, o Fusquinha completava 15 anos de estrada e registrava 90 mil quilômetros rodados. Nos seus primeiros dez anos de vida, rodara apenas 30 mil quilômetros nas mãos de uma única dona, até ser vendido para esse vizinho, que rodou o restante antes de migrar para São Paulo.
Comecei a namorar o carro. Ele era todo original, com exceção dos bancos, que haviam sido trocados por bancos com tecido de veludo preto — mais elegantes e confortáveis do que os de courvin de fábrica. A lataria estava lisa, sem histórico de batidas ou pontos de ferrugem. Um dia, eu tomei coragem e perguntei ao vizinho se ele tinha interesse em vender.
A princípio, a resposta foi negativa, mas bastou uma semana para ele mudar de ideia e aceitar a proposta. Meu pai e eu compramos o carro em sociedade. Como ele entrou com a maior parte do dinheiro, 99%, ficou com o Fusca nos primeiros meses e, depois, passou-o em definitivo para mim, gesto pelo qual sou eternamente grato.

O ano era 1990, um pouco antes do fatídico 16 de março1. Dias depois da compra, nesta data, o governo Collor confiscou o dinheiro das contas bancárias, das cadernetas de poupança e das aplicações de todo o país. Foi um período financeiro turbulento e complicado para todos, mas nós já estávamos com o carrinho garantido. Se tivéssemos demorado uma semana a mais para fechar o negócio, o dinheiro teria ficado retido e essa história seria completamente diferente.

Com os documentos em meu nome, a placa foi atualizada para: VT-5627, São Paulo/SP. Eu instalei apenas um toca-fitas de bandeja, Moto Rádio Falcão, quatro alto-falantes triaxiais Novick e uma chavinha 4×2, que permitia manter o rádio original funcionando. Bastava selecionar qual deles eu desejava escutar. No dia a dia, o rádio; nas viagens, o toca-fitas.

O primeiro carro a gente nunca esquece. Eu vivia para aquele Fusca. Fazia as manutenções preventivas no quintal de casa: trocava óleo, filtros, velas e limpava o carburador. Mantinha um log book físico — um caderninho onde anotava religiosamente cada quilometragem e peça trocada. Curiosamente, mantenho esse hábito até hoje com meus veículos atuais, mas agora de forma eletrônica.
Após quase cinco anos de convivência, nos quais rodei com ele 110 mil km, o hodômetro já registrava por volta de 200 mil km. Decidi que era hora de dar um passo adiante. Havia surgido a oportunidade de comprar um carro mais moderno: um Gol S 1,6 com o famoso motor AP, 85/86, na cor bBranco Paina. Comentei com o pessoal da rua que o Fusca estava à venda, mas não obtive retorno imediato.

Num domingo ensolarado de primavera, decidi ir à famosa feira de carros do Anhembi na companhia do meu amigo Alexandre, apelidado de “Smurf”2, que tinha uma loja de usados e conhecia os macetes do mercado. Passamos a manhã inteira negociando, mas nenhuma proposta atingiu o valor que eu desejava. Voltei para casa frustrado.
Ao estacionar, meu saudoso vizinho Paulo, que morava com a sua família na casa à nossa esquerda, veio ao meu encontro e perguntou como havia sido a feira. Respondi que tinha perdido a manhã, pois ninguém havia chegado ao preço justo. O Paulo abriu uma cara de alegria e disse: “Problema resolvido. Qual é o valor mesmo?”. Informei o preço e fechamos o negócio ali mesmo, na calçada. Ele me deu um cheque pré-datado3 assinado pelo pai dele, pedindo para segurá-lo por alguns dias — uma prática extremamente comum e baseada na confiança mútua daquela época.
A trajetória desse querido Fusca 1300 bege Alabastro resume-se em um ciclo perfeito de vizinhança e cuidado: passou dez anos com uma senhora em Viamão (30 mil km); foi comprado pelo vizinho dela, que se mudou para São Paulo e tornou-se meu vizinho da direita (atingindo 90 mil km); ficou comigo por mais cinco anos de muito zelo (chegando aos 200 mil km); e foi transferido para o meu querido vizinho da esquerda, que ainda rodaria com ele por mais três anos, somando cerca de 35 mil quilômetros, antes de vendê-lo para um outro morador da nossa vizinhança, antes dele se mudar para Santa Catarina.
Durante alguns anos, eu ainda cruzava com o meu velho companheiro rodando pelas ruas do bairro, até que, eventualmente, sumiu de vista, mas a lembrança daquele ronco de motor arrefecido a ar e dos tempos de vila no Brooklin continua intacta na minha memória.
O André se apresenta:
Meu nome é André Pronin, engenheiro automobilístico. Atuei por cerca de 30 anos na indústria automobilística e de autopeças. Hoje sou empresário no ramo de gestão predial. O que começou como uma necessidade se tornou um modelo de negócio. Sou filho do também engenheiro Mihail Pronin, amigo de Alexander Gromow desde os tempos do curso científico no Mackenzie, que carinhosamente me convidou novamente para escrever mais este “causo”.

Notas de Rodapé:
(1) – O Plano Collor e o Confisco das Poupanças no Brasil (1990)
Em março de 1990, o Brasil enfrentava uma grave crise econômica, com hiperinflação e sucessivos planos de estabilização monetária. Em 16 de março, um dia após a posse do presidente Fernando Collor de Mello, foi anunciado o Plano Collor, que determinou o bloqueio de grande parte dos depósitos em contas correntes, cadernetas de poupança e aplicações financeiras da população.
A medida, que pretendia reduzir drasticamente a quantidade de dinheiro em circulação para combater a inflação, deixou milhões de brasileiros sem acesso a suas economias, provocando graves consequências econômicas e sociais. Os valores bloqueados permaneceriam indisponíveis por até 18 meses, conforme as regras estabelecidas pelo governo.
O plano não conseguiu controlar a inflação de maneira duradoura e o episódio ficou conhecido como o “confisco da poupança”, um dos acontecimentos mais traumáticos da história econômica brasileira recente.
(2) – Smurf: apelido inspirado nos Smurfs, personagens fictícios de pele azul criados pelo cartunista belga Peyo em 1958. Eles vivem em uma aldeia na floresta e se tornaram mundialmente conhecidos por meio dos quadrinhos e da popular série de televisão animada exibida em diversos países durante as décadas de 1980 e 1990.
(3) — O cheque pré-datado no Brasil
Antes da popularização dos cartões de crédito e dos pagamentos eletrônicos, era muito comum no Brasil utilizar cheques pré-datados para compras e pagamentos. O emitente entregava um cheque com uma data futura, combinando com o recebedor que ele somente seria depositado naquele dia. Embora o cheque fosse legalmente pagável à vista, a prática funcionava como uma forma informal de crédito, baseada na confiança entre as partes. Era especialmente comum nas décadas de 1980 e 1990, inclusive na compra e venda de automóveis usados.
AG
Agradeço ao amigo André Pronin por mais esta valiosa participação em nossa coluna. Todas as fotografias desta matéria pertencem ao acervo de André.
A foto de abertura foi tirada durante uma das muitas viagens que o André fez com seu Fusca, na Serra da Mantiqueira, na rodovia SP-036, em Joanópolis, SP, região pela qual ele passou em diversas oportunidades.
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