Um VW Fusca estacionado numa rua em 1970 não seria exatamente uma cena incomum. Naquela época, milhões deles já circulavam pelo mundo. Aquele, porém, tinha algo que certamente fazia qualquer pessoa olhar duas vezes: sua carroceria estava coberta de grama.

Não era apenas o teto. Capôs, para-lamas e praticamente toda a superfície externa do carro desapareciam sob uma espessa camada verde. Curiosamente, quem fez o trabalho teve o cuidado de deixar descobertos faróis, vidros, retrovisores, para-choques e até os pequenos indicadores de direção sobre os para-lamas dianteiros. Aparentemente, apesar de transformado num jardim sobre rodas, aquele Fusca continuava sendo um automóvel utilizável.
E, ao que tudo indica, não se tratava de grama artificial. Ela precisava de água.
O personagem que aparece ao lado daquele estranho Volkswagen nas poucas fotografias conhecidas torna a cena ainda mais curiosa: Salvador Dalí, um dos artistas mais famosos e, certamente, um dos mais extravagantes do século XX.
O episódio deixou poucos registros. Algumas fotografias, atribuídas ao fotógrafo espanhol Enrique Sabater, mostram Dalí junto ao carro e permitem observar detalhes dessa curiosa transformação. Mais de meio século depois, porém, elas continuam levantando perguntas.
De onde veio o Fusca? Quem teve a ideia de cobri-lo de grama? O carro realmente pertencia a Dalí? Onde foram feitas aquelas fotografias? E o que aconteceu depois com ele?
Algumas respostas apareceram. Outras continuam escondidas em algum lugar da história. E uma delas veio de alguém que conheceu Dalí e se lembrava muito bem daquele curioso Volkswagen.
Quem era Salvador Dalí

Salvador Dalí (1904–1989) foi um pintor espanhol e um dos nomes mais conhecidos do surrealismo, movimento artístico que procurava romper com a lógica convencional e explorar imagens vindas dos sonhos, do inconsciente e de associações inesperadas.
Nascido em Figueres, na Catalunha, tornou-se mundialmente conhecido por obras como A persistência da memória, de 1931, com seus famosos relógios derretidos. Mas Dalí acabou transformando também a própria figura em personagem. O bigode inconfundível, as roupas extravagantes, as declarações provocadoras e as aparições cuidadosamente encenadas tornaram-se quase tão conhecidas quanto sua obra.
Sua relação com os automóveis também não começou com aquele Fusca. Carros apareceram diversas vezes em sua obra e em suas ideias, às vezes transformados em objetos tão estranhos quanto o restante de seu universo surrealista. O exemplo mais conhecido talvez seja o Táxi Chuvoso, no qual chovia dentro de um Cadillac enquanto dois manequins ocupavam o veículo.
Curiosamente, apesar dessa fascinação pelos automóveis, Dalí não tinha carteira de motorista e não dirigia. Gala, sua musa e companheira de muitos anos, frequentemente assumia o volante, e o artista também contava com motoristas particulares. Um deles foi Artur Caminada, que trabalhou durante décadas para o casal. Assim, a fotografia em que Dalí aparece sentado ao volante do Fusca não significa necessariamente que fosse ele quem o conduzisse.
Por isso, encontrar Salvador Dalí ao lado de um Fusca coberto de grama talvez cause menos surpresa depois que se conhece um pouco o personagem. Ainda assim, mesmo para os padrões de Dalí, aquele Volkswagen era bastante peculiar.
O homem que viu o Fusca de Dalí
As fotografias mostram que o Fusca existiu, mas pouco explicam sobre sua história. Uma pista importante apareceu muitos anos depois, nas lembranças de Claude Douce, conhecido publicitário francês que conviveu com Salvador Dalí.
Douce fez carreira no mundo da publicidade e conheceu Dalí pessoalmente. Em uma entrevista concedida em 2025 ao programa Les Clefs d’une vie, da rádio francesa Sud Radio, Douce recordou um encontro com Dalí no Ritz, em Paris. O artista era frequentador habitual do célebre hotel da Place Vendôme, embora sua hospedagem parisiense mais conhecida e duradoura tenha sido no Le Meurice.
Segundo Douce, naquele encontro Dalí quis lhe mostrar algo que havia comprado. Ele reproduziu a expressão em francês: “une voiture gazon” — literalmente, “um carro de grama”. Era o Fusca.
O detalhe mais interessante de seu depoimento vem em seguida. Douce contou que havia grama sobre o teto do automóvel e que Dalí a regava todas as manhãs. Para ele, aquilo era uma obra de arte.
A lembrança é particularmente importante porque ajuda a esclarecer duas questões que as fotografias, sozinhas, não conseguem resolver. A primeira é a natureza daquela cobertura: se Dalí precisava regá-la, tudo indica que se tratava realmente de grama natural, e não de material sintético. A segunda está na própria maneira como Douce recorda a apresentação do carro: Dalí lhe mostrou aquilo que havia comprado.
Isso não é suficiente para documentar juridicamente que o Fusca estava registrado em nome de Salvador Dalí, nem esclarece de quem ele o comprou. Mas constitui um testemunho de alguém que conviveu com o artista e ouviu dele próprio que havia comprado aquele estranho automóvel.
E acrescenta à história uma cena difícil de superar: Salvador Dalí, todas as manhãs, regando seu Fusca.
Mas que Fusca era aquele?
Determinar exatamente o ano daquele Fusca não é tão simples. Não encontramos até agora qualquer documento do carro, e boa parte de sua carroceria está justamente escondida pela grama. Restam, portanto, os detalhes que escaparam da transformação.

Algumas referências na internet identificam o carro como um modelo 1965. As fotografias, porém, permitem colocar essa informação em dúvida.
Um dos indícios mais interessantes está nas rodas. Elas apresentam as aberturas de ventilação oblongas que a Volkswagen passou a utilizar a partir de agosto de 1965, já na produção correspondente ao ano-modelo 1966. Se forem as rodas originais do carro, portanto, dificilmente estaríamos diante de um modelo 1965.
Outros elementos visíveis são compatíveis com os Fuscas europeus daquele período: faróis ainda inclinados sob lentes de vidro, capô dianteiro longo e para-choques do tipo antigo. Essas características, entretanto, não permitem separar com segurança um modelo 1966 de um 1967, especialmente porque os Fuscas destinados ao mercado europeu não acompanharam exatamente todas as alterações introduzidas simultaneamente em outros mercados.
Assim, pelas fotografias disponíveis, parece mais prudente identificar o carro de Dalí como um VW Fusca provavelmente dos anos-modelo 1966 ou 1967, em vez de lhe atribuir um ano exato que não conseguimos comprovar.
A placa dianteira fornece outra pista sobre a história do carro. Nas fotografias em que aparece com maior nitidez é possível ler OP-SW 46. Trata-se de uma matrícula da então Alemanha Ocidental: o código OP correspondia ao Rhein-Wupper-Kreis, cuja sede administrativa era Opladen, na Renânia do Norte-Vestfália. Esse código foi utilizado de 1956 até o final de 1974 e, portanto, é perfeitamente compatível com a data de 1970 atribuída às fotografias. Isso não permite saber onde o Fusca foi vendido originalmente nem quem era seu proprietário, mas mostra que ele esteve registrado naquela região alemã.
A grama também merece atenção. Ela não parece simplesmente ter sido jogada sobre o automóvel. A cobertura acompanha cuidadosamente as formas da carroceria, enquanto vários elementos necessários à utilização do carro permaneceram livres. Faróis, para-brisa, retrovisores, para-choques e indicadores de direção continuavam visíveis. Até a placa dianteira foi preservada, mas colocada numa posição pouco usual, fixada no capô dianteiro.

Nas fotografias também é possível perceber uma separação na grama acompanhando o contorno do capô. Tudo indica que ele continuava abrindo normalmente, algo indispensável, pois nos Fuscas daquele período era preciso levantar o capô dianteiro para chegar ao bocal de abastecimento do tanque de combustível.
Como essa cobertura vegetal foi fixada à carroceria é outra pergunta para a qual ainda não encontramos resposta. As fotografias mostram uma camada bastante espessa e irregular, especialmente sobre o teto, onde a vegetação cresce muito acima da superfície do carro. Se havia terra, algum substrato especial ou uma estrutura para sustentá-la, não sabemos.
Sabemos, porém, graças à lembrança de Claude Douce, que Dalí regava aquela vegetação. Tudo indica, portanto, que não era uma imitação: aquele Fusca carregava realmente um pequeno jardim sobre a carroceria.
Paris ou Nova York?
Há ainda uma curiosidade nas poucas fotografias conhecidas do Fusca. Cópias atribuídas a Enrique Sabater apareceram décadas depois em leilões acompanhadas da identificação “Salvador Dalí em Nova York, com Volkswagen Grass Car, 1970”.
As próprias fotografias, entretanto, parecem contar outra história.
Os automóveis que aparecem ao redor do Fusca são tipicamente europeus. Em uma das imagens vê-se com bastante clareza um Citroën DS utilizado como táxi. Mais reveladora ainda é sua placa, cuja sequência termina em WT 75.

No sistema de matrículas francês utilizado naquela época, o número 75 identificava Paris. E há um detalhe adicional: a série de letras WT encontra-se justamente entre as sequências de matrículas utilizadas na capital francesa em 1970. Não temos, portanto, apenas um automóvel francês ao fundo da fotografia, mas um automóvel registrado em Paris numa série compatível com o ano atribuído às imagens.
Isso se soma a outras referências que situam o Fusca de grama na capital francesa e também à lembrança de Claude Douce de tê-lo conhecido no convívio com Dalí em Paris.

Tudo indica, portanto, que a indicação “New York, 1970” encontrada nos leilões seja simplesmente um erro de catalogação que acabou sendo repetido. Até agora não encontramos qualquer evidência semelhante que situe aquelas fotografias em Nova York.
A rua exata, entretanto, continua sendo um mistério. As fachadas, grades, vitrines e outros elementos visíveis nas imagens ainda não permitiram identificar com segurança onde o Fusca estava estacionado.
Talvez algum leitor parisiense ainda reconheça o lugar mais de meio século depois.
E o que aconteceu com o Fusca?
Se conseguimos descobrir um pouco mais sobre o curioso Fusca de Salvador Dalí, boa parte de sua história continua desconhecida.
Não sabemos quem teve a ideia de cobrir o carro de grama nem quem executou o trabalho. Também não encontramos informações sobre a técnica utilizada para manter a vegetação sobre a carroceria. As fotografias mostram que não foi uma transformação improvisada, mas não revelam o que existia sob aquela espessa camada verde.
Também permanece sem resposta uma pergunta ainda mais básica: de quem Dalí comprou o Fusca? A lembrança de Claude Douce indica que o próprio artista apresentou o automóvel como algo que havia comprado, mas até agora não apareceu qualquer documento sobre a negociação ou sobre seu proprietário anterior.
E depois?
Não encontramos registro do destino do carro. Não sabemos durante quanto tempo Dalí ficou com ele, se a grama continuou sendo mantida, se em algum momento foi retirada ou mesmo se o Fusca sobreviveu. Tampouco localizamos até agora alguma filmagem de época que mostre o automóvel em movimento. O que restou são, principalmente, aquelas poucas fotografias.
Talvez isso ajude a explicar por que a história permaneceu tão pouco conhecida. Salvador Dalí deixou uma obra imensa e cuidadosamente estudada, mas seu Fusca coberto de grama parece ter passado quase pelas margens dessa história.
Curiosamente, um estudo publicado pela própria Fundação Gala-Salvador Dalí sobre a importância do automóvel na obra do artista percorre a longa relação de Dalí com os carros, mas não menciona o Fusca. É mais um indício de que aquele Volkswagen pode ter sido uma criação efêmera, uma brincadeira surrealista ou simplesmente algo que Dalí achou irresistível possuir — não sabemos.
O que sabemos é que ele existiu.
E que, em algum momento por volta de 1970, Salvador Dalí tinha diante de si um VW Fusca coberto de grama natural. Alguém teve o trabalho de construí-lo, Dalí o apresentou como algo que havia comprado e, segundo uma testemunha que o conheceu pessoalmente, todas as manhãs ele regava a grama.
Para um automóvel cuja história quase desapareceu, não deixa de ser uma imagem difícil de esquecer
AG
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