Era praticamente impossível apresentar o novo Tesla Roadster da maneira como Elon Musk apresentou e imaginar que alguém fosse prestar atenção no mais importante e de fato utilizável. O carro percorreu uma estrutura de cabeça para baixo, saltou sobre outros veículos e fez uma rotação no ar. Em poucas horas, as imagens estavam por toda parte.

Como ação de comunicação, funcionou de maneira extraordinária. Um levantamento independente registrou cerca de 95 milhões na soma dos contadores de apenas cinco publicações oficiais no Instagram e no X nas primeiras horas após a apresentação. Na manhã de 19 de outubro, uma única publicação de Elon Musk já marcava 76 milhões de visualizações, segundo o EVXL. O assunto rapidamente escapou do universo automobilístico para virar meme, vídeo de reação, montagem e discussão sobre aquilo ser ou não verdadeiro. Foi uma exposição espontânea de enorme proporção e que representa muito bem a nova dinâmica do marketing.
Mas o espetáculo foi tão eficiente que praticamente ofuscou o automóvel.
Pouco se discutiu sobre o que seria necessário para executar aquelas manobras com segurança e repetibilidade, como é feita a coordenação dos propulsores, quanto existe de programação anterior à manobra e quanto pode ser corrigido durante sua execução. Ou seja, o show é mais importante do que a substância.
Sabe-se que o sistema nasceu da colaboração entre Tesla e SpaceX e utiliza reservatórios pressurizados para alimentar propulsores a gás frio. Na configuração Rocket, eles são distribuídos pelo perímetro do carro e permitem movimentos para a frente, para cima e de rotação.
Também se sabe que, segundo Musk, a demonstração foi realizada de forma autônoma e que a configuração Rocket, de um só lugar, não estará aprovada para circulação em vias públicas. Nem teria como! A operação em voo exigiria também o enquadramento e as autorizações aeronáuticas correspondentes.

Uma demonstração extrema do que acontece quando uma empresa que fabrica automóveis trabalha junto com outra que fabrica foguetes para investigar possibilidades.
Mas, para mim, o mais importante é o carro em si. O que ele faz quando dirigido. E aí a Tesla, pela primeira vez, parece ter uma proposta realmente convincente para autoentusiastas.
Desenho que não precisa recorrer ao passado
O primeiro ponto está no desenho. O Roadster não tenta recuperar uma época, reproduzir algum Tesla do passado ou construir legitimidade recorrendo a elementos históricos. Existe uma inspiração no Lotus Esprit, reconhecida na apresentação do projeto à imprensa, mas ela aparece essencialmente na pureza das formas e na ideia da cunha, e não numa reprodução nostálgica.
Isso é uma vantagem. A Tesla tem pouco mais de duas décadas de existência e não carrega o peso de uma história centenária que precise ser continuamente reinterpretada. Pode desenhar um superesportivo apresentado em 2026 que esteja alinhado com o momento atual.

O Roadster é baixo, largo e extremamente limpo. Há poucos elementos gráficos, poucas interrupções nas superfícies e boa parte dos dispositivos aerodinâmicos se integra à carroceria quando não está em uso. Mesmo recursos visualmente fortes, como as portas de abertura para cima e os painéis removíveis do teto, não transformaram o carro numa coleção de elementos de estilo.
É uma interpretação interessante do chamado luxo moderno: menos ornamentação, menos ruído visual e enorme complexidade tecnológica trabalhando por trás de formas aparentemente simples.

E ainda assim o carro gera desejo, algo que não depende necessariamente de uma grande grade, oito entradas de ar, asas fixas ou dezenas de referências ao passado.
Superesportivo elétrico
O momento da apresentação também merece atenção. Parte da indústria de superesportivos começou a admitir publicamente que a demanda por modelos puramente elétricos não correspondeu ao que se imaginava alguns anos atrás.
Em 2024, Mate Rimac já reconhecia que a fabricante ainda não havia vendido todas as 150 unidades previstas do Nevera e apontava uma mudança no interesse dos compradores desse segmento. É um exemplo relevante porque o Nevera não surgiu de uma empresa sem competência técnica ou com desempenho insuficiente. A dificuldade estava em transformar suas qualidades em desejo de compra na escala planejada.
E, curiosamente, no mesmo dia em que a Tesla apresentou o Roadster, 15 de outubro, a Porsche revelou o Mission S, antecipando um superesportivo com motor central, posicionado acima do 911. A plataforma em desenvolvimento poderá receber motores a combustão e sistemas híbridos, inclusive plug-in. A Porsche informou à Car and Driver que não prevê uma versão puramente elétrica nessa família por falta de demanda no segmento.

É nesse cenário que a Tesla apresenta sua aposta.
E esse é um dos aspectos mais interessantes do Roadster, pois a discussão não se encerra na existência de mercado para um superesportivo elétrico. Também passa pelo tipo de superesportivo elétrico capaz de gerar desejo.
Potências absurdas e acelerações abaixo de dois segundos já deixaram de ser novidade. O desafio agora é construir um carro elétrico que apresente algo além desses números.
Feito para o motorista
É aqui que algumas escolhas técnicas começam a revelar mais sobre o projeto do que os propulsores.
O Roadster utiliza dois motores, ambos instalados no eixo traseiro. Portanto, apesar da potência anunciada na ordem de 1 MW para a configuração Performance, equivalente a 1.360 cv, o carro tem tração exclusivamente traseira. O controle independente dos motores permite fazer vetorização de torque entre as rodas.

Num elétrico desse nível de desempenho, acrescentar um terceiro motor no eixo dianteiro seria um caminho conhecido para distribuir a força e melhorar a capacidade de tração. A Tesla preferiu manter a propulsão elétrica atrás. É uma escolha que sugere uma preocupação diferente: trabalhar respostas e comportamento, além de colocar toda a potência no chão.
O mesmo vale para o peso. A expectativa divulgada é ficar abaixo de 1.700 kg na configuração mais leve, ainda sem um valor final confirmado. Ainda é muita massa se comparada à de um esportivo convencional, mas é pouco para um elétrico com bateria de capacidade superior a 100 kW·h e esse nível de potência. Fibra de carbono, magnésio e titânio aparecem entre os materiais anunciados. Comandos manuais e bancos com posição fixa também fazem parte das medidas para reduzir a massa.
Essa orientação ganha ainda mais significado diante da intenção anunciada por Musk de que o Roadster seja, no futuro, o único modelo da Tesla dirigido manualmente. Em uma empresa que investe cada vez mais em condução autônoma, robotáxis, inteligência artificial e veículos concebidos para dispensar o motorista, seu carro mais extremo reserva um papel central: o motorista.
Tecnologia para andar no chão
A parte mais interessante da demonstração em que o Roadster fica de cabeça para baixo também não é ele permanecer preso à estrutura. É o princípio utilizado para conseguir isso.
Nas configurações equipadas com sucção ativa, ventiladores e elementos de vedação retiram ar debaixo da carroceria, produzindo uma diferença de pressão que gera carga contra a superfície. Segundo a Tesla, o sistema consegue sustentar o carro invertido mesmo parado. Assim como o McMurtry.

Com a sucção ativa, é possível produzir carga adicional também em baixa velocidade, aumentando a força normal sobre os pneus e, com ela, a capacidade de tração e de fazer curvas. Isso ajuda a entender como a Tesla pretende explorar tanta potência com apenas as rodas traseiras motrizes.
Além disso, há aerodinâmica ativa, asa traseira móvel e controle de altura da carroceria. A suspensão utiliza amortecedores do tipo spool-valve, com válvula carretel, e redução de até 40 mm na altura para utilização em pista. Direção, acelerador e freios têm comando eletrônico, by-wire, e os discos de freio são carbocerâmicos.

Precisão não significa necessariamente envolvimento. Um bom esportivo depende da forma como a direção aumenta o esforço, da leitura de aderência que chega às mãos, do tato do pedal de freio, da resposta do acelerador e da maneira como a traseira começa a se movimentar quando o limite se aproxima. Tecnologia pode melhorar tudo isso ou pode filtrar tudo isso. E sem dúvida é um desafio gerar esse envolvimento com tanta eletrônica trabalhando.
Essa combinação é o que torna o Roadster importante. Não os 0 a 100 km/h abaixo de 1 segundo, nem a possibilidade de saltar ou ficar de cabeça para baixo, mas a tentativa de usar a tecnologia elétrica para construir um carro de peso contido dentro de sua categoria, com tração traseira, aerodinâmica sofisticada e foco declarado em quem está sentado ao volante.
Ainda há muito a provar.
O início da produção está previsto apenas para 2028. A apresentação não substitui uma avaliação independente de sua direção, de seus freios, de sua capacidade de repetir o desempenho ou de seu comportamento numa sequência de curvas. Mas existe uma proposta que merece ser observada com bem mais atenção do que os memes permitem.
Os “voos” deram enorme visibilidade ao Tesla Roadster. Agora, como autoentusiasta, recomendo que se olhe para o carro.
PM
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