O programa “Move Brasil – Táxis e Aplicativos” divulgado na última terça-feira, dia 19 de maio, pelo Governo Federal pode deslocar parte da demanda que hoje passa pelas locadoras para uma compra financiada do carro próprio.
O programa prevê até R$ 30 bilhões em financiamento para taxistas, motoristas de aplicativo e cooperativas de táxi destinados a compra de veículos novos com um teto de R$ 150 mil por veículo sob determinados critérios técnicos: ambicombustível, híbridos ambicombustível, elétricos ou movidos a álcool. O financiamento poderá ocorrer em até 72 meses com até seis meses de carência e será totalmente operado por bancos autorizados pelo BNDES.
O programa para motoristas de aplicativo exige um cadastro ativo há pelo menos 12 meses com um mínimo de 100 corridas no período numa mesma plataforma. Já os taxistas necessitam ser registrados e ativos. A contratação do crédito depende de análise final pelas instituições financeiras não sendo, portanto, um financiamento automático.
O programa tem como foco exatamente o público que mais utiliza os veículos de passeio de forma profissional, os taxistas e os motoristas por aplicativo. O programa tende a acelerar a troca de veículos antigos por modelos mais novos e tecnológicos, renovando a frota, reduzindo emissões e trazendo veículos muito mais seguros para as ruas brasileiras.
O teto de R$ 30 bilhões divididos pelos R$ 150 mil do programa seriam equivalentes a 200 mil veículos; na prática, os veículos utilizados para este fim têm tíquete médio menores, na faixa dos R$ 120 mil o que garantiria uma renovação de frota de até 250 mil novos. Mesmo que na prática as vendas não atinjam nem a metade do número mínimo, o que é altamente improvável, 100 mil novos veículos é um número que pode representar o suporte às quedas das vendas esperadas para o segundo semestre.
O carro do programa favorece em geral os veículos de entrada como os hatches, sedãs compactos, suves pequenos de todas as arquiteturas. Entretanto, vejo um risco de o mercado se ajustar ao programa oferecendo versões mais enxutas e que fiquem abaixo do valor do teto do programa para ganhar participação do mercado.
Tal como ocorre com os incentivos no IPI, existe uma provável contrapartida comercial pelas fabricantes com incentivos adicionais derrubando ainda mais os preços. A guerra dos preços provavelmente entrará no Move Brasil. Bom? Mau? Melhor para o consumidor brasileiro.
O plano também poderá dar novo impulso aos veículos elétricos e híbridos, cada vez utilizados por motoristas profissionais que conseguem entender rapidamente os benefícios da economia no curto prazo dos veículos eletrificados. Em grandes capitais, para quem roda muito e consegue recarregar bem, o elétrico tende a ganhar ainda maior relevância. Em cidades médias, periferias e rotas mais longas, o flex e o híbrido ainda são as soluções mais previsíveis.
Concorrência direta com o aluguel para motoristas de app
As locadoras cresceram muito nesse público. Segundo a ABLA, os carros alugados para motoristas de aplicativos representam atualmente aproximadamente 25% das vendas totais. Com crédito mais barato, parte desses motoristas pode comparar aluguel mensal com uma parcela do financiamento e se a parcela for mais competitiva, o motorista mais estável, com melhor renda e menor risco tende a considerar sair da locação e comprar o carro.
No aluguel de veículos, o motorista transfere para a locadora os custos como depreciação, licenciamento, peças, mecânica, risco de parada por quebra, documentação, entre outros fatores. Entretanto, o brasileiro médio pensa que o veículo financiado é apenas o valor da parcela e um pouquinho a mais para a gasolina. Esquece que o licenciamento, seguro, manutenção, depreciação, entre tantos outros fatores, passam a ser de sua responsabilidade. Em outras oportunidades de fomento ao acesso ao veículo, observamos um aumento gigante da inadimplência com a retomada do bem e este mesmo brasileiro médio não sabe que se o valor do bem não conseguir cobrir a sua dívida com o banco, ele ainda precisa continuar pagando. Ou seja, fica endividado, sem o veículo, sem a sua fonte de renda e tendo que continuar pagando. Já observamos este movimento pouco mais de 10 anos atrás quando as taxas de juros estavam baixíssimas e a população comprou veículos pelos cotovelos e não conseguiu cumprir com suas obrigações. A diferença daquela época é que hoje as instituições financeiras possuem mecanismos muito mais ágeis de retomada dos bens…
Redução de compras das locadoras em alguns modelos
Se parte do público de aplicativos e/ou taxistas migrar para carro próprio, as locadoras tendem a rever suas compras de compactos e sedãs eletrificados destinados ao uso mais intensivo. Isso não significa queda generalizada das compras do setor, mas certamente alterará o mix.
Hoje as vendas diretas representam aproximadamente 50% das vendas totais e as locadoras representam nada menos do que aproximadamente 50% das vendas diretas.
A alteração de mix acelera a discussão sobre elétricos pelas locadoras que já estão usando estes produtos com muita cautela. O Move Brasil tende a empurrar mais motoristas para os eletrificados ajudando a formar um mercado secundário ainda mais rápido.
Uma discussão à parte diz respeito a constitucionalidade do benefício de juros menores às mulheres. Este tipo de discussão é importante por trazer dois elementos importantes. Nossa Constituição Federal em seu art. 5º, I, estabelece a igualdade entre gêneros:
“Art. 5, I, CF: homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;”
O que este artigo diz não é o que está explícito. A compreensão plena dele seria “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, na medida de suas desigualdades” devendo o Estado intervir para sanar tais discrepâncias e, no caso em tela, fica evidente que esta ajuda serve para motivar a ampliação da força da mulher neste segmento.
Em resumo, vejo que o programa seja positivo para a indústria, para bancos, para concessionárias e para uma parcela dos motoristas. Entretanto, para as locadoras ele é ambíguo por criar uma concorrência no curto prazo e criar uma concorrência de veículos usados e seminovos de alto uso que impactam o valor residual e, por outro lado, provocam as locadoras no longo prazo a vender uma solução de trabalho completa que inclui a manutenção, seguro, carro-reserva, gestão de risco, telemetria, previsibilidade e menor imobilização de capital.
O Move Brasil não ameaça o setor de locação como um todo, mas ameaça a locação simples para um motorista de aplicativo quando ela for apenas uma alternativa cara ao financiamento. A locadora que entregar gestão de risco e continuidade operacional continuará relevante; a que vender apenas mensalidade poderá perder espaço.
MKN
A coluna “Visão estratégica” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.
