A brasilidade exacerbada de adulterar oficialmente a gasolina misturando-a com álcool vem de longe, como venho dizendo aqui. O primeiro grande passo nesse sentido ocorreu em 1982, quando passou a 12% como maneira de elevar a octanagem da gasolina comum, de 87 octanas RON, para a mesma da gasolina azul, 95 octanas RON. Motivou a mudança a eliminação da gasolina azul para aumentar a capacidade dos postos para vender álcool. Os carros a álcool, lançados no final de 1979, tornavam-se rapidamente cada vez mais numerosos, enquanto a produção e vendas de carros a gasolina caía drasticamente diante do novo cenário de o governo estimular o uso do álcool e restringir o da gasolina, consequência da crise do petróleo de 1973 que levou à criação do Proálcool em novembro de 1975.
Mas a nova e doravante gasolina única resultou num sério problema que ninguém esperava por pertencer ao passado, a bomba de gasolina parar de funcionar devido ao calor recebido do motor, superaquecendo-a no seu interior e levando ao chamado bloqueio por vapor (vapor lock). Este ao se vaporizar cria pressão interna e o diafragma para de funcionar. Ao ser esfriada, a bomba passa a funcionar normalmente. Tanto que havia quem levasse água no carro para jogá-la na bomba para esfriá-la em caso de ocorrer o bloqueio, em especial nas subidas de serra em dia quente (imagem de abertura).
A solução foi simples, as fabricantes colocaram nos carros linha de retorno da gasolina para o tanque, com isso gasolina ficava em fluxo constante e a bomba não superaquecia mais e o bloqueio deixava de ocorrer.
Mas por que tudo isso aconteceu? O efeito do álcool junto com gasolina, abaixar o calor latente de vaporização era desconhecido então. Hoje, com as bombas de combustível elétricas, indispensáveis para os sistemas de injeção eletrônica de qualquer tipo a partir de 1988, eliminou-se a possibilidade de vapor lock.
O álcool etílico, ou etanol, como a ANP “rebatizou-o” em 2009 depois de 30 anos, por ter calor latente de evaporação bem mais alto do que a gasolina — o dobro —, não teve esse problema. Essa característica do álcool expiica a dificuldade de partida a frio sob temperatura ambiente de 18 ºC para menos, só resolvida em definitivo com a injeção direta de alta pressão, 250 bar, pulverizando o álcool na câmara de combustão fração de segundo antes do disparo da centelha na vela de ignição.
Pois esse fato do vapor lock ocorrido há 43 anos se repetiu a partir de 1º de agosto do ano passado quando a gasolina passou de E27 para E30 (“E” de etanol e 30 a sua porcentagem na gasolina). Só que agora não houve parada do motor, mas o inesperado acendimento frequente da luz de aviso de problema no motor quando o carro está abastecido com gasolina comum normal ou aditivada — com álcool essa luz raramente acende.

Essa luz é amarela e com o símbolo de um motor. A central eletrônica a faz acender quando alguma irregularidade no funcionamento do motor é detectada, como mistura ar-combustível pobre. Uma hipótese da causa da luz se acender é gasolina fora de especificação como, por exemplo, com mais álcool do que a regulamentar E30. Caso esse mesmo carro passe a ter gasolina premium no tanque a luz passa a não acender, uma vez que as gasolinas Premium continuaram E25 mesmo quando a gasolina comum/aditivada passou a E27 em março de 2015.
O que se depreende disso tudo é que as centrais eletrônicas estão detectando mistura ar-combustível pobre e não conseguem fazer a correção automática, enriquecer a mistura por meio do aumento do tempo de injeção. Estão no limite da sua capacidade de processamento para isso, consideram gasolina no máximo E30, e os postos já estarem fornecendo gasolina E32, a gasolina que o governo está oficialmente planejando implantar.
Se o governo desistir do seu inominável intento será ótimo, mas continuará o abuso da gasolina brasileira “batizada” com álcool em proporções indecentes sem motivo que não atender interesses que não são população brasileira.
BS
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