Os autoentusiastas frequentemente expressam frustração com os carros elétricos devido à falta de interação visceral que os motores a combustão proporcionam. Para muitos como nós, o ato de dirigir vai além da simples locomoção; trata-se de uma experiência sensorial rica e imersiva, alimentada pelas trocas de marchas, pelos sons do motor e pelas vibrações, que transmitem uma sensação de controle e conexão com o veículo.
Nos carros elétricos, a ausência dessas características gera uma sensação de condução mais “anestesiada”, mesmo com uma resposta imediata do acelerador, mas sem a complexidade emocional que um motor a combustão e um câmbio manual podem proporcionar. A ausência de ruído e a suavidade das acelerações, embora eficientes, não trazem a mesma carga emocional, fazendo com que muitos motoristas sintam falta da “conversa” que existe entre o motorista e o carro. O prazer da condução, para nós, reside na dinâmica e nas respostas que um carro a combustão oferece, tornando a experiência de dirigir um carro elétrico, por vezes, algo mais impessoal e menos envolvente.
Há quem diga que a perfeição, neste caso o máximo da eficiência, seja algo chato, pois é estéril, sem alma. Afinal, na essência, nenhum humano é perfeito, e isso torna cada um de nós único.
Essa barreira, que marca a fase inicial da introdução dos modelos elétricos, está sendo abordada por alguns fabricantes, que buscam minimizar essa falta de interação por meio de “simulações”. No entanto, muitos motoristas ainda reclamam ao saber que se trata de uma simulação, percebendo-a como algo artificial, distante da verdadeira essência da condução.
O componente mecânico dos carros, com suas inúmeras partes trabalhando em contato direto — da injeção de combustível, explosões controladas, movimento das peças e a saída dos gases pelo escapamento — é feito com a precisão de um relógio suíço. Quando se substitui isso por sistemas digitais, como em um relógio digital, essa interação mecânica também se perde.
Nas avaliações do AE, adoramos abrir o capô e observar a disposição do motor e seus componentes. A posição da admissão, o diâmetro das tubulações, a posição do turbo, as conexões, etc. Há um certo fascínio em olhar para o cofre do motor de um carro, assim como em um relógio mecânico.
Ninguém tem a curiosidade de ver como é um relógio digital por dentro.


Talvez, com o tempo, os fabricantes possam se diferenciar mais através de elementos tecnológicos distintos. Ou talvez os carros sejam caixas seladas, em que nunca teremos interesse ou necessidade de saber o que há por lá. A diferenciação poderá estar em outros componentes, como nas suspensões e direções, que estão evoluindo rapidamente, com sistemas adaptativos e esterçamento nas quatro rodas.
Outro ponto recorrente que vejo em muitos lugares, e frequentemente estimulado pelas mídias, é uma certa revolta contra os fabricantes, como se todos eles fossem alheios aos elementos que proporcionam prazer ao dirigir. Eu não concordo com isso. Todos eles sabem muito bem.
A questão é que, se perguntarmos para as pessoas, eu chuto que 95% vão dizer que amam carros. Mas apenas uns 5% entendem o prazer de dirigir como um autoentusiasta. E, para mim, o problema reside aí. Muitos fabricantes sabem que nossa opinião é importante.
Nós somos os formadores de opinião, somos aqueles para quem os outros 90% dos “amantes” de carros pedem recomendações quando vão comprar um carro.
Bem, é fato que alguns fabricantes se importam mais com isso. E me parece que a Lexus é um deles. Confesso que não esperava isso da Lexus, mas gostei bastante do que vi nesse vídeo.
Está em inglês, mas, por ser muito bem ilustrado, é fácil de entender. Mais abaixo, explico o sistema.
A Lexus apresentou uma inovação interessante no mundo dos veículos elétricos com o lançamento do Lexus RZ 550e e o sistema Interactive Manual Drive (Condução Manual Interativa), um sistema criado para tentar resgatar o prazer das trocas de marchas manuais, sem a necessidade de câmbio automático tradicional ou embreagem, já que o sistema não tem o terceiro pedal.

Em vez de mudanças físicas de marchas, o sistema usa software avançado para simular a experiência de dirigir um carro automático com trocas manuais, com borboletas no volante, sons de motor simulados e até vibrações que imitam a sensação de trocas de marchas. A resposta ao acelerador, as variações no torque e os ajustes no som criam uma experiência mais sensorial, proporcionando um retorno de sensações mais dinâmico e imersivo. Além disso, um Indicador de troca de marchas visual permite que o motorista acompanhe intuitivamente as mudanças de marcha em tempo real. Como num conta-giros.

Essa inovação foi desenvolvida para oferecer aos motoristas mais engajamento e emoção, que como já disse, é algo limitado nos veículos elétricos. A Lexus deseja que os motoristas possam se sentir mais conectados ao carro, vivendo a experiência de forma um pouco mais profunda, com “realismo“ e controle.
Embora não haja trocas físicas de marchas, o sistema proporciona todas as sensações que o corpo e o cérebro associam a trocas de marcha em um carro manual. Disponível inicialmente no RZ 550e, a Lexus aposta que essa inovação será um marco. Vamos ver e torcer para essa onda avançar e chegar aos carros mais acessíveis.


Curiosamente, a Hyundai também investiu em uma experiência similar com o sistema N e-Shift, que estreou no Ioniq 5 N. Assim como o sistema da Lexus, o N e-Shift permite ao motorista simular a troca de marchas. Também utilizando borboletas no volante, o sistema ajusta a entrega de potência e torque, criando uma resposta tátil similar à de um câmbio manual tradicional. Para complementar, o N Active Sound+ emula os sons característicos de um motor a combustão, trazendo uma sensação auditiva semelhante à de carros esportivos a gasolina.
Ambos os sistemas, da Lexus e da Hyundai, assim como a câmara Fratzonic que simula o som de um V-8 no Dodge Charger elétrico, demonstram como os fabricantes estão se esforçando para resgatar o prazer de dirigir num cenário elétrico, conectando os motoristas aos carros de maneira mais emocional e sensorial. Eles provam que, mesmo na era dos elétricos, a emoção ao volante e a conexão com a máquina continuam sendo elementos essenciais.
Cabe a nós avaliar com atenção, em vez de apenas criticar sem ao menos ter testado ou experimentado esses sistemas. Como mencionei no início, sei que esses dispositivos podem parecer artificiais ou até uma enganação. Mas, pelo que observo, a eletrificação continuará avançando de um jeito ou de outro ainda que em um ritmo mais lento. E, assim como existem carros a combustão mais comoditizados, também haverá elétricos feitos para nós.
Haverá?
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PM
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