Desde que a Liberty Media assumiu o controle da F-1 em janeiro de 2017, até então nas mãos de Bernie Ecclestone, muita coisa mudou na categoria. De um clube seleto e administrado por personagens de formação acadêmica e intelectual nutrida por anos de vivência no esporte, o outrora chamado “circo” foi transformado num mundo onde celebridades de diferentes graus de importância — por vezes sem nenhuma..,—, e rostinhos bonitos passaram a disputar espaço nas telas de TV no antes, durante e pós-corridas. Na foto de abertura, o cantor K Pop Choi-Min-ho posa no box da Red Bull no GP do Japão.
A situação chegou a um ponto em que os próprios pilotos expressaram sua desaprovação à maneira como suas próprias namoradas eram exibidas enquanto eles faziam o que sabem fazer melhor, ou seja, pilotando máquinas sofisticadas em autódromos cada vez mais coloridos e variados. A comparação ganha peso após uma simples comparação entre o teor do noticiário pré e pós Liberty Media. Basta lembrar de quem aparecia no grid de largada no antes e quem é visto no depois.
Verdade seja dita, a audiência da F-1 aumentou, fenômeno extrapolado pela série “Drive to Survive” exibida pela Netflix. Ainda que os episódios de cada temporada enfoquem fatos e factóides que marcaram uma determinada temporada, o estilo espetaculoso das cenas e diálogos depõe contra. Até mesmo a minissérie “Senna”, também exibida pela Netflix, mostra uma série de erros e a preocupação exacerbada com detalhes nada críveis. Mais, ignora pessoas que forjaram o caráter de Ayrton e contribuíram sobremaneira para seu sucesso como piloto. O amigo e empresário Armando Botelho e o preparador Lúcio Pascoal — mais conhecido como Tchê — sequer são mencionados.

Numa época de informações efêmeras e transmitidas sem o pudor de checar fontes e fatos, talvez isso tudo seja classificado como normal. Quem degusta o automobilismo como um esporte onde os melhores pilotos aceleram automóveis construídos com tecnologia de estado da arte se encanta com o uso de materiais tão raros quanto nobres e exclusivos e uma eficiência dinâmica ímpar. Notar que esse tipo de informação perdeu espaço para personalidades que só aparecem num GP porque são pagas ou buscam ganhar seguidores, é lamentável. Infelizmente, enquanto isso gerar audiência, pouca coisa vai mudar para melhor.
WG
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