Com a chegada do Ferrari Luce (foto de abertura) a questão do gênero dos carros recrudesceu. Se um carro se chama Ferrari não há por que considerá-lo de gênero feminino. Aliás, nenhum carro, nem o de nome composto cujo primeiro elemento é nome de mulher: Mercedes-Benz.
Não tenho pretensão de fazer ninguém mudar seus hábitos, mas é minha obrigação como editor-chefe de um veículo de imprensa especializado em veículos automotores, como o AE, usar e disseminar terminologia a mais correta possível.
Quando assisto corrida de F-1 — assistia, parei por considerar inadmissível um piloto precisar se preocupar com a carga da bateria de tração — eu não suportava ouvir o narrador dizer “a Mercedes de Kimi Antonelli”, ou como li numa Quatro Rodas falando da excelência do Porsche e da Ferrari como carros esportivos. Para mim foi como ler lido que “a Maria e a João são primos”.
Mudar hábitos nunca é fácil, da mesma maneira que aprender a escreve com a mão oposta à natural com que se nasce. Ninguém nasce ambidestro. Bebês logo mostram ter a mão predominante.
Foi o meu caso, canhoto e como tal fui alfabetizado. Porém, no primeiro dia de aula no terceiro ano do Ginasial não havia mais as tradicionais escrivaninhas na sala aula, mas cadeiras com pranchas na direita, ergonomicamente um desastre para um canhoto.
Em poucos dias de total desconforto decidi passar a escrever com a mão direita. No começo só garranchos, mas passado um mês já escrevia sem esforço e com boa letra.
Fiquei ambidestro. Uso a mão que me seja mais fácil, como mouse com a mão direita e caneta com a esquerda para anotar qualquer coisa no bloquinho à esquerda do teclado. Mas ficou uma “sequela”: dirigindo e me pedem para dobrar para um dos lados, preciso “pensar no assunto”, o que leva um segundo (mil-e-um).
Chamar um carro pelo masculino (ou como tal, escrever) me é absolutamente automático e natural. Hoje acho até engraçado já ter escrito “a Ferrari” no tempo da Oficina Mecânica com a então crença de que Ferrari era exceção.
No AE mudamos há cerca de dois anos o gênero da Kombi por ser inaceitável chamá-la pelo feminino, afinal trata-se de um veículo utilitário. Hoje é totalmente natural para mim dizer “um Kombi” e jamais considerá-lo uma perua, apelido esse que não tem origem plausível.
Dentro do tema Ferrari, leio ou ouço o argumento de Ferrari ser “uma máquina”, por isso dever ser tratada no feminino: claro que é uma máquina, mas na Itália e grafado macchina, que é como os italianos chamam os carros.
Automóvel aqui é palavra masculina e a correspondente italiana automobile, feminina. Essa particularidade italiana não justifica transpô-la para o Brasil.
BS
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