Há datas que nascem pequenas e, com o tempo, ganham o mundo. O Dia Mundial do Fusca, celebrado em 22 de junho, é uma dessas datas que parecem ter vida própria. Em 1995, durante o encontro de Bad Camberg, na Alemanha, tive a honra de propor e lançar oficialmente essa celebração, que rapidamente se espalhou por clubes, eventos e comunidades de entusiastas nos cinco continentes.

O Fusca nunca foi apenas um automóvel. Ele é memória, afeto, identidade. É o carro que acompanhou famílias inteiras, que marcou gerações e que, de alguma forma, sempre encontra um jeito de permanecer atual. Talvez por isso o Dia Mundial tenha sido tão rapidamente adotado: porque celebra não apenas um veículo, mas um símbolo universal.
Para quem quiser mergulhar mais fundo nessa história — que é longa, cheia de detalhes e de bastidores saborosos — deixo aqui o link para a matéria completa que escrevi sobre o tema: “Uma ideia brasileira conquista o mundo”.
Aproveito a data para desejar a todos os fãs do VW Fusca no mundo um Feliz Dia Mundial do Fusca!
São Bernardo do Campo: indústria, memória e identidade
Falar de São Bernardo do Campo é falar de trabalho. A cidade cresceu moldada pelo ritmo das fábricas, pelo suor dos operários e pela vocação metalúrgica que a transformou em um dos polos industriais mais importantes do país. Não por acaso, recebeu o epíteto de “Capital do Automóvel”, título que sintetiza sua relevância histórica na formação da indústria automobilística brasileira.
Além de sua força industrial, São Bernardo do Campo carrega uma história muito mais antiga. A tradição oficial reconhece como marco de sua origem a fundação, em 1553, da Vila de Santo André da Borda do Campo por João Ramalho — o primeiro núcleo urbano do planalto paulista. Por isso, o brasão da cidade ostenta a divisa latina “Paulistarum Terra Mater”, que significa “Mãe dos Paulistas”, lembrando que foi ali, naquele território, que começou o povoamento que daria origem à própria São Paulo. Essa herança histórica convive, de forma singular, com a vocação industrial que mais tarde renderia à cidade o título de “Capital do Automóvel”.
Foi ali que grandes montadoras se instalaram, que milhares de trabalhadores construíram suas vidas e que o automóvel se tornou parte da identidade cultural da cidade. São Bernardo respira produção, tecnologia e história e, naturalmente, tornou-se palco de alguns dos capítulos mais marcantes da indústria automobilística brasileira.
Brasmotor, Volkswagen e o nascimento do Fusca Nacional
A presença do Fusca em São Bernardo começa antes mesmo de a Volkswagen se instalar oficialmente no Brasil. Em 1951, os primeiros Fuscas começaram a ser montados pela Brasmotor, em um processo pioneiro que abriu caminho para a consolidação da marca no país.

Quando a Volkswagen chegou ao Brasil, em março de 1953, instalou-se inicialmente na Rua do Manifesto, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Ali, os Fuscas eram montados em regime CKD, enquanto a empresa preparava sua grande mudança: a transferência para a fábrica em construção em São Bernardo do Campo no bairro Jardim Andrea Demarchi.

Legenda:
Seta vermelha: posição da Rodovia Anchieta
Seta azul: entrada de material pela área das prensas
Seta amarela: rampa de saída dos veículos prontos.
Foi nessa nova planta, moderna para os padrões da época, que o Brasil assistiu ao nascimento do Fusca Nacional, em 3 de janeiro de 1959. A partir dali o carro deixou de ser apenas um visitante estrangeiro e passou a fazer parte da vida brasileira de forma definitiva.
Um detalhe destacou o Brasil dos demais países que fabricaram o Fusca: os primeiros Fuscas recebera em seus capôs dianteiros um escudo que era baseado no Brasão de Armas do município onde foram fabricados, no caso São Bernardo do Campo. Somente Wolfsburg, na Alemanha, teve uma distinção semelhante.

Ambas as fábricas ficavam de lados opostos da Rodovia Anchieta, na ilustração abaixo é possível ver as posições relativas da Brasmotor (que foi demolida para dar lugar a um shopping center) e da Volkswagen:

São Bernardo não apenas fabricou carros. Fabricou histórias, empregos, sonhos e uma identidade que permanece viva até hoje. E o Fusca, com sua simplicidade genial, tornou-se um dos símbolos mais fortes dessa trajetória.
O Dia Municipal do Fusca em São Bernardo do Campo

É por tudo isso — pela história, pela memória e pela importância industrial da cidade — que São Bernardo do Campo instituiu o Dia Municipal do Fusca, celebrado em 3 de janeiro, data do início da produção nacional.
E para marcar esse reconhecimento oficial, teremos uma cerimônia especial:
Sábado, 27 de junho
15h00
Palácio João Ramalho – Plenário Tereza Delta
Praça Samuel Sabatini, 50 – Centro de São Bernardo do Campo
Estacionamento no local

Será um momento simbólico, histórico e afetivo. Um encontro para celebrar o carro que marcou gerações e a cidade que o acolheu e o transformou em parte de sua própria identidade.

Uma homenagem pessoal: o título de Cidadão São-Bernardense
Além do lançamento do Dia Municipal do Fusca, a cerimônia do dia 27 terá para mim um significado ainda mais profundo. Terei a honra de receber o título de Cidadão São-Bernardense, concedido pela Câmara Municipal por meio do Decreto Legislativo nº 1.771, de 2 de fevereiro de 2023.
Resumo do Decreto Legislativo:
A Câmara Municipal de São Bernardo do Campo concedeu o Título de “Cidadão São-Bernardense” ao Sr. Alexander Gromow.
O título foi aprovado em sessão da Câmara no dia 1º de fevereiro de 2023 e promulgado pelo Presidente da Câmara, Danilo Lima de Ramos, em 2 de fevereiro de 2023.
O pergaminho com a honraria será entregue ao homenageado durante uma sessão solene. [Fim do resumo]
Essas palavras, simples e diretas, carregam um significado profundo. Elas representam o reconhecimento de uma cidade que sempre esteve presente na minha trajetória — seja pela história do Fusca, seja pelas pessoas que encontrei ao longo do caminho.
O decreto inclui ainda um Anexo Único com minha biografia oficial, que destaca momentos marcantes da minha vida profissional e do meu envolvimento com o universo Volkswagen. Entre eles:
- minha formação como engenheiro eletricista pela Universidade Mackenzie;
- minha carreira de 32 anos na Siemens;
- minha participação em grandes projetos como Itaipu Binacional;
- minha atuação como presidente do Fusca Clube do Brasil;
- os recordes Guinness de Interlagos;
- meus livros e artigos sobre a história do Fusca;
- minha militância pela preservação da memória automobilística;
- e, claro, a criação do Dia Mundial do Fusca, em 1995, em Bad Camberg, além do Dia Nacional do Fusca em 1989 e do Dia Municipal do Fusca da Cidade de São Paulo em 1996.
Receber esse título no mesmo dia em que celebramos o lançamento do Dia Municipal do Fusca é algo que jamais imaginei. É como se duas histórias — a da cidade e a do Fusca — se encontrassem novamente, agora de forma oficial, e me convida a fazer parte delas de maneira ainda mais profunda.
Um convite especial
Por tudo isso, deixo aqui um convite sincero a todos que puderem comparecer à cerimônia. Será um momento de celebração, de memória e de reconhecimento — ao Fusca, à cidade e às pessoas que mantêm viva essa história.
Será um momento histórico: celebraremos o Fusca, a cidade que o tornou brasileiro e o reconhecimento de uma trajetória de mais de 40 anos dedicada à preservação dessa memória.
AG

