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APRESENTANDO O VW FUSCA QUE FAZ 36 km/L

UMA DAS MAIS HONESTAS, ICÔNICAS E DEBOCHADAS PROPAGANDAS DA DDB PARA A VOLKSWAGEN OF AMÉRICA

Alexander Gromow por Alexander Gromow
13/07/2026
em AG, Falando de Fusca & Afins
Derivado de arte original por Jason Torchinsky

Derivado de arte original por Jason Torchinsky



 

 



Quem acompanha a história da indústria automobilística mundial sabe que as décadas de 1960 e 1970 foram a “Era de Ouro” da publicidade da Volkswagen nos Estados Unidos. Conduzidas pela genial agência DDB1 (Doyle Dane Bernbach).

As campanhas publicitárias do Fusca, o nosso querido VW Beetle por lá, tornaram-se lendárias. Elas não vendiam apenas um carro; vendiam honestidade, inteligência, autodepreciação e um humor refinado que desafiava a arrogância das grandes fabricantes de Detroit. Campanhas como “Think Small” (Pense Pequeno) ou “Lemon” (Limão, usada para falar sobre o controle de qualidade) até hoje são estudadas em faculdades de marketing ao redor do globo.

Mas existe uma peça publicitária específica, lançada durante a crise do petróleo de 1973/1974, que merece um olhar clínico e nostálgico dos entusiastas. Trata-se do famoso anúncio impresso e comercial de televisão intitulado: “Presenting the 84 mpg Volkswagen” (Apresentando o Volkswagen de 84 milhas por galão).

Para nós, convertendo esse valor de 84 mpg para o sistema métrico brasileiro, estamos falando de uma média estarrecedora de arredondadamente 36 km/l2 (quilômetros por litro) ou, se preferirem o padrão europeu, apenas 3 litros a cada 100 quilômetros rodados2.

À primeira vista, o leitor desavisado poderia pensar: “Mas como o velho motor boxer arrefecido a ar conseguiu esse milagre em 1974?”. É aí que reside a genialidade da alfinetada que a Volkswagen aplicou em seus concorrentes.

O contexto: a crise do petróleo e a dança dos números

Para entendermos o anúncio, precisamos voltar no tempo. Em 1973, o mundo foi assolado pela primeira grande Crise do Petróleo³. Da noite para o dia, os americanos, acostumados com imensos e sedentos motores V-8 que faziam médias vergonhosas, viram-se em filas quilométricas para conseguir alguns galões de gasolina. O consumo de combustível virou a prioridade número um do consumidor.

Imediatamente, todos os fabricantes de automóveis começaram a correr para os laboratórios e para as páginas de jornais, ostentando números de consumo de combustível “miraculosos”. Cada marca alegava ter o carro mais econômico do mercado, baseando-se em testes internos feitos sob condições absurdamente controladas, que jamais se repetiriam na vida real de um motorista comum.

O Fusca original sempre foi um carro econômico para os padrões da época, entregando médias reais entre 10,5 km/l e 13,5 km/l (algo em torno de 25 a 32 mpg  — milhas por galão de gasollina) dependendo do pé do motorista. Era um número honesto e excelente. Porém, diante dos números “inflados” e artificiais que a concorrência exibia, a Volkswagen decidiu contra-atacar usando a sua arma mais poderosa: a mais pura ironia.

A anatomia de um Fusca depenado

Para provar que qualquer marca poderia alcançar números absurdos de consumo se fizesse trapaças na estrutura do veículo, a engenharia da Volkswagen, a pedido da DDB, resolveu construir um Fusca “experimental”. E o resultado é o que você vê na foto de abertura desta matéria.

Eles pegaram um Fusca 1974 legítimo e, literalmente, cortaram fora quase tudo o que dava forma ao carro. A carroceria foi severamente aliviada seguindo as linhas de relevo estruturais. Os quatro para-lamas sumiram. O capô dianteiro virou apenas uma moldura vazada (embora os engenheiros, ironicamente, tenham mantido sua manopla cromada original!). Todos os vidros, portas, tampas, para-choques e revestimentos acústicos foram descartados.

O VW Beetle “recordista” numa renderização de fotograma do vídeo da propaganda

O interior foi reduzido a uma estrutura esquelética: restou apenas um banco de plástico rígido, posicionado tão próximo ao volante que o motorista parecia abraçado à coluna de direção. Os pesados pneus e rodas originais foram substituídos por rodas raiadas extremamente estreitas e leves, que parecem saídas de uma motocicleta antiga ou de uma bicicleta de corrida.

O Fusca “depenado” visto de cima e de trás, também renderização de fotograma

No motor boxer traseiro, a cirurgia foi ainda mais radical. Para eliminar qualquer peso e arrasto mecânico desnecessário, os engenheiros removeram toda a lataria de arrefecimento (as famosas “capelinhas” e defletores), o alternador e a própria turbina de ar! O motor operava como um bloco “pelado”, o que significa que ele não resistiria a mais do que alguns minutos de funcionamento sem fundir por superaquecimento, mas era o suficiente para o teste de laboratório de poucas milhas. Até os amortecedores e os freios traseiros parecem ter sido limados para economizar preciosas gramas de peso rotacional e estático.

O Fusca da propaganda em outro ângulo

É provável que o Fusca, que originalmente pesava por volta de 770 kg, tenha sido reduzido a um peso pluma de aproximadamente 300 kg! Para coroar o absurdo, escalaram um jóquei profissional de corrida de cavalos, com vestimenta completa, para pilotar a máquina, garantindo que o peso do condutor fosse o menor possível; sendo que os jóqueis são escolhidos pela baixa estatura e pequeno peso.

Icônico anúncio “Presenting the 84 mpg Volkswagen”

Tradução do texto deste anúncio:

Apresentando o Volkswagen que faz 84 milhas por galão.

Como todos os fabricantes de automóveis andam fazendo seus próprios testes de consumo ultimamente, nós, da Volkswagen, resolvemos fazer um também.
Então modificamos a carroceria — e o motor. E, naturalmente, colocamos alguém que não pesava muito para dirigi-lo.
E vejam só: conseguimos 84 milhas por galão!
Ridículo? Ninguém dirige normalmente desse jeito? Claro que não. E é exatamente esse o nosso argumento.
Ninguém dirige normalmente como nos testes de consumo que você anda vendo.
Volkswagen. Honestamente: 25 milhas por galão.
[Fim da tradução]

O comercial de TV: uma obra de arte

Além do anúncio de revista, a campanha contou com um comercial de televisão memorável. Ao som da clássica peça de ragtime “The Entertainer”, de Scott Joplin (música que estava nas paradas na época devido à trilha sonora do filme Golpe de Mestre), o Fusca esquelético aparece cruzando a tela vagarosamente.

O contraste visual entre a silhueta icônica do Fusca e a ausência total de painéis de metal cria uma imagem quase surrealista, divertida e marcante. No final do vídeo, uma tipografia curiosa para a época, que lembra pequenos blocos tridimensionais, quase como peças de Lego, carimba o veredito na tela: o Fusca normal, aquele que você compra na concessionária com teto, portas, rádio, segurança e bancos confortáveis, faz as suas honestas 25 milhas por galão (10,6 km/l). E esse é o número em que você pode confiar.

Assista abaixo ao comercial original da época e veja o valente Fusca-esqueleto em movimento (lembre-se que assistindo no YouTube você poderá selecionar legendas no seu idioma):

O paradeiro do Fusca-Esqueleto: um mistério automobilístico

Como bem destacado pelo pesquisador Jason Torchinsky em recente artigo no portal The Autopian, o destino desse Fusca esquelético é um completo mistério. Infelizmente, a Volkswagen não possui esse veículo em seu acervo oficial de clássicos na Alemanha ou na sua filial americana, e ele jamais deu as caras em exposições de carros antigos ou museus da marca.

É muito provável que, após as sessões de fotos e gravações dos comerciais em 1974, o carro tenha sido simplesmente desmontado ou descartado pela agência de publicidade, já que naqueles tempos não havia a consciência de preservação de itens de marketing que temos hoje. Uma pena, pois seria uma peça de acervo absolutamente fantástica para arrancar sorrisos em qualquer museu.

Independentemente dos episódios que a indústria automobilística viria a enfrentar nas décadas seguintes, essa campanha permanece como um dos exemplos mais inteligentes de publicidade baseada na crítica aos testes de laboratório.”

Essa campanha da DDB nos deixa uma lição que continua incrivelmente atual, mesmo mais de cinquenta anos depois. Em tempos em que as fabricantes de enfrentam testes de emissões rigorosos e, às vezes, recorrem a truques de software ou medições em condições irreais de laboratório para divulgar consumos e alcances fantásticos de veículos híbridos ou elétricos, o Fusca de 36 km/l pilotado por um jóquei nos lembra, com um belo sorriso no rosto, que a honestidade e a transparência mecânica sempre serão as melhores qualidades de um automóvel.

Termino com uma pergunta: quanto o seu Fusca ou o seu clássico arrefecido a ar costuma fazer na média real da cidade e da estrada? Deixe nos comentários a média do seu “possante”.


Notas de rodapé:
(1) – DDB
(Doyle Dane Bernbach) – escrevi em setembro de 2025 a matéria: “A propaganda que fez do VW Fusca um fenômeno mundial” que conta a história desta agência de propaganda na geração de propagandas revolucionárias que transformaram o Fusca em um fenômeno mundial.

(2) – Km/l e L/100 km — Usei valores arredondados no texto, mas para quem preferir valores mais aproximados do cálculo real, temos:
84 mpg = aproximadamente 35,7 km/L
84 mpg = aproximadamente 2,80 L/100 km
Um galão americano (US gallon) equivale a 3,785 litros.

(³) – A chamada “Crise do Petróleo de 1973/1974” teve impactos muito diferentes nos Estados Unidos e no Brasil.

Nos EUA, o embargo imposto pela Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) provocou escassez imediata de gasolina, filas quilométricas nos postos, racionamento por dias alternados e a adoção do limite nacional de velocidade de 55 mph (88 km/h) para reduzir o consumo. A economia americana entrou em recessão e o tema da eficiência energética tornou-se prioridade nacional.

Já no Brasil, embora o aumento do preço internacional do petróleo também tenha afetado a economia, o impacto cotidiano foi bem menos dramático: não houve racionamento explícito, filas generalizadas ou mudanças bruscas no comportamento do motorista. A única medida do governo para reduzir o consumo de gasolina foi fechar os postos ás 20h da sexta-feira e só reabri-los às 6h de segunda-feira. A frota brasileira, composta majoritariamente por veículos pequenos e econômicos, e o controle estatal sobre preços e abastecimento contribuíram para que a crise fosse percebida de forma mais branda pelo consumidor comum.

AG

Esta matéria conta com informações de uma matéria do Site Autopian com o trabalho do Jason Torchinsky, bem como diversas pesquisa ana internet.
Nossos leitores são convidados a dar seu parecer, fazer perguntas, sugerir material e, eventualmente, apontar correções, as quais poderão ser consideradas e incorporadas em futuras revisões deste trabalho.
Em alguns casos, são utilizados materiais pesquisados na Internet e amplamente disponibilizados em meios públicos, empregados exclusivamente com finalidades históricas, culturais e didáticas, em consonância com o espírito de preservação histórica que norteia este trabalho.
Caso qualquer pessoa física ou jurídica se identifique como titular de direitos autorais de determinado material aqui utilizado — independentemente de ter sido ou não mencionada nos créditos — e deseje a inclusão de créditos específicos ou a retirada do referido conteúdo, solicitamos que entre em contato pelo e-mail [email protected], para que sejam tomadas, de boa-fé, as providências cabíveis.
Ressaltamos que não há qualquer intenção de infringir direitos autorais, tampouco de auferir ganhos comerciais com o material apresentado, sendo sua utilização restrita ao registro histórico e à divulgação cultural junto a entusiastas e interessados no tema.
A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.

 

Tags: Alexander GromowFalando de Fusca & AfinsJason Torchinsky
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