Esta é a quinta publicação de uma verdadeira “reação em cadeia” iniciada pela coluna. Primeiro veio Wilson “Welco” Caminha de Amorim. Depois, por intermédio de sua amizade com Alexandre Thomaz, vieram três outras matérias envolvendo Fuscas, uma Variant branca e histórias de família.
Agora chegamos ao quinto capítulo dessa sequência: Daniel Teixeira Correia de Souza, mecânico do Alexandre Thomaz, cujo primeiro carro foi um VW Fusca recebido de presente do avô aos 15 anos de idade.
E é justamente essa história que vamos contar.
O VW FUSCA QUE MEU AVÔ ME DEU
Baseado no relato de Daniel Teixeira Correia de Souza
Há quem compre um automóvel. Há quem restaure um automóvel. E há aqueles poucos casos em que um carro acaba se tornando parte da própria família.
Esta é uma dessas histórias. Tudo começou em 2019, quando Daniel tinha apenas 15 anos. Como acontece com muitos apaixonados por automóveis, a paixão surgiu cedo. Desde pequeno, gostava de carrinhos, de observar os carros na rua, de desmontar brinquedos para entender como funcionavam. Mas quando entrou na adolescência, um modelo passou a ocupar seus pensamentos: o VW Fusca.
Mais especificamente, um Fusca bege, daqueles com as pequenas lanternas traseiras que marcaram época.
Por um bom tempo, ele e a família procuraram o carro ideal. Era uma busca sem pressa, limitada pela realidade financeira da casa. Um Fusca aparecia aqui, outro ali, mas nenhum parecia ser “o carro”. Até que, em novembro de 2019, seu pai, Luiz Justino Correia de Souza, lhe enviou o anúncio de um exemplar anunciado na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
“Quando vi as fotos, alguma coisa aconteceu. Eu olhei e pensei: é esse.” Naquele momento, outro fato importante coincidia com a procura: seu avô, Eduardo Augusto Ribeiro Teixeira, desejava presenteá-lo pelos seus 15 anos.
Daniel então reuniu coragem e fez o pedido: — “Vô, ao invés de qualquer outra coisa, o senhor me daria um Fusca?” O avô aceitou.
No dia 5 de novembro de 2019, uma terça-feira, pai e filho partiram de Niterói rumo à Barra da Tijuca. Eram quase 50 quilômetros de expectativa. O Fusca 1974, 1300 standard, bege Alabastro, estava longe de ser perfeito. Na verdade, segundo o próprio Daniel, o carro era “bem ruinzinho”.

Mas isso pouco importava. “O carro estava longe de ser um zero-quilômetro. Muito longe disso. Mas, quando o vi pessoalmente, fiquei completamente apaixonado”, disse o jovem Daniel.
Negócio fechado. Alguns dias depois, em 9 de novembro de 2019, um sábado, o antigo proprietário entregou o Fusca na porta da casa do Eduardo; ele veio dirigindo.

A espera de mais de um ano finalmente havia terminado. O primeiro carro de Daniel era um Fusca bege, presente de seu avô!
A festa começou imediatamente com uma faxina no recém-chegado. O jovem limpou o interior, abriu o capô, lavou a carroceria e examinou cada detalhe do automóvel. Era impossível esconder a felicidade.
Afinal, quantos adolescentes podem dizer que ganharam um Fusca como primeiro carro? Mas, sem que ele imaginasse, aquele velho Volkswagen lhe daria muito mais do que lembranças. Ele lhe daria uma profissão.
Curioso por natureza, Daniel sempre gostou de desmontar e montar coisas. O Fusca rapidamente se transformou em sua “sala de aula” particular. Nele, desmontou e revisou o primeiro carburador, trocou velas, cabos, reparou freios e substituiu coifas.
Errou. Aprendeu. Tentou novamente. Foi assim, peça por peça, que descobriu a mecânica. No que Daniel disse: “Esse carro foi uma verdadeira escola. Tudo começou nele.”
Mesmo ainda bastante simples, o Fusca começou a ganhar pequenos cuidados. Calotas novas aqui, um polimento manual ali. Daniel recorda que chegou a polir toda a carroceria com massa de polir e uma simples estopa. Com esse visual, participou de seus primeiros encontros de carros antigos.
Poucos dias depois de receber o Fusca, Daniel teve a oportunidade de participar de seu primeiro encontro de antigos. O destino foi um evento de carros antigos, registrado na foto de abertura desta matéria.
Daniel tinha apenas 16 anos. Como ainda não podia dirigir, sua mãe, Fátima, assumiu o volante. No banco do passageiro seguia seu pai, enquanto no banco traseiro viajavam Daniel e seu irmão Eduardo, então com apenas nove anos.

Mais do que um simples passeio, aquele foi um dia vivido em família. O jovem proprietário do Fusca ainda não imaginava, mas estava dando os primeiros passos em um hobby que o acompanharia pelos anos seguintes.
Vista hoje, a fotografia revela muito mais do que um Volkswagen estacionado em frente a um encontro de antigos. Ela registra um instante aparentemente comum: um garoto de 16 anos, seu irmão, seus pais e o Fusca recém-chegado à família. Naquele dia, ninguém imaginava que aquele automóvel acabaria acompanhando Daniel por tantos anos e se tornaria parte inseparável de sua própria história.
Então veio a pandemia…
Com os eventos suspensos e o carro passando mais tempo parado na garagem, surgiu uma ideia que mudaria novamente a história daquele Fusca: restaurá-lo.
O primeiro passo foi procurar um lanterneiro1. O orçamento, naturalmente, estava muito além do que um rapaz de 16 anos poderia pagar sozinho. Mais uma vez, Daniel procurou o avô.
— “Vô, você me ajuda?” A resposta foi a mesma de anos antes: — “Ajudo. Vamos em frente”.

Assim começaram a chegar as peças que ele foi comprando para a restauração: folhas de porta, laterais, capô, componentes diversos. A restauração avançava lentamente, conforme o dinheiro permitia.
Concluída a lanternagem², veio uma nova etapa, mais uma barreira se aproximada: o carro tinha que ser pintado e, novamente, o Daniel foi falar com seu avô.
— “Vô, você me ajuda a pintar o carro?” E, mais uma vez, a resposta foi positiva.

Completamente desmontado, sem vidros, lanternas ou acabamentos, o Fusca seguiu para a pintura. Foram oito longos meses de espera. O jovem acompanhava ansiosamente cada etapa, contando os dias para reencontrar seu carro.

Enquanto isso, ele aproveitava para comprar peças. Toda economia era destinada ao projeto. Borrachas, lanternas, faróis, piscas, chicote elétrico, forro do teto, carpete, som. Aos poucos, o quebra-cabeça começava a tomar forma.
Quando a pintura ficou pronta, veio a maior surpresa de todas. Quem montaria o carro? Resposta: o próprio Daniel.
“Eu montei tudo. Chicote elétrico, forro do teto, vidros, borrachas, acabamentos. Conheço aquele carro de cabeça para baixo.”, comenta Daniel, orgulhoso.

Mais uma vez, o Fusca lhe ensinava algo. A montagem foi lenta e exigiu paciência. O forro do teto, em especial, tornou-se um dos maiores desafios do projeto.

Mas, ao final, o jovem tinha diante de si algo raro: um automóvel restaurado em grande parte pelas próprias mãos!

Foi também nessa época que ele começou a frequentar os encontros dos “Fusqueiros de Niterói”, grupo que reúne apaixonados por automóveis antigos, independentemente da marca ou do modelo. Vieram passeios, amizades e viagens.
O Fusca conheceu Rio das Ostras, Nova Friburgo, Cachoeiras de Macacu e diversos encontros pelo estado do Rio de Janeiro.
Vieram outros carros depois dele, mas nenhum ocupou o mesmo lugar. Porque alguns automóveis deixam de ser apenas máquinas.
Em 2023, a vida trouxe uma despedida difícil. O avô de Daniel, então com 84 anos, começou a apresentar uma gradual piora em seu estado de saúde. Pouco tempo depois, ele faleceu.
Daniel costuma dizer que teve a sorte de compartilhar com o avô todas as etapas daquela história. Ele viu o carro sendo restaurado, acompanhou o trabalho do neto e chegou a passear no Fusca já pronto.

Ao longo dos anos, os dois tiveram inúmeras conversas sobre o futuro do carro. Como Daniel relembra: “Eu sempre dizia para ele que eu nunca venderia o Fusca. Ele não acreditava. Achava que, se aparecesse alguém oferecendo bastante dinheiro, eu acabaria vendendo.”
Mas a resposta permanecia sempre a mesma: “Vô, eu nunca vou vender esse carro!”
Hoje, Daniel possui outros automóveis e trabalha profissionalmente com mecânica. Curiosamente, tudo começou naquele Fusca bege adquirido em 2019.
Ele costuma dizer, meio brincando e meio sério, que será o último proprietário do carro: “Eu vou morrer com ele. Acho que até vou rasgar o recibo.”
Talvez seja exatamente isso que explique a relação entre os dois. Para qualquer outra pessoa, trata-se apenas de um Fusca antigo. Mas, para Daniel, ele é muito mais do que isso.
É a memória viva de um avô que acreditou no sonho de um menino de 15 anos. E, enquanto aquele pequeno Fusca bege continuar rodando, uma parte dele seguirá ocupando o banco do passageiro.
Notas de rodapé:
(1) – Lanterneiro: é o profissional que recupera a lataria de veículos, trabalhando diretamente com chapas metálicas e soldas. A diferença entre “lanterneiro”, no Rio de Janeiro, e “funileiro”, em São Paulo, é apenas regional — o trabalho é o mesmo.
(²) – Lanternagem: trabalho do lanterneiro. Em São Paulo é funilaria.
AG
Agradeço ao Daniel Teixeira Correia de Souza por compartilhar sua emocionante história com os leitores desta coluna. Todo o trabalho foi realizado praticamente pelo WhatsApp, e o Daniel permaneceu em contato comigo até o encerramento da edição, no domingo à tarde.
No fim das contas, esta matéria acabou se transformando em uma singela homenagem ao seu avô, Eduardo Augusto Ribeiro Teixeira, que ajudou a realizar o sonho de um garoto de 15 anos.
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