Este artigo é uma continuação;
O primeiro artigo pode ser lido aqui.
O segundo artigo pode ser lido aqui.
O terceiro artigo pode ser lido aqui.
O quarto artigo pode ser lido aqui.
Na parte anterior, vimos muitas questões relacionadas com cadeias e rendimentos energéticos e como isso pode impactar no mercado de energia, conforme o preço do petróleo continue subindo.
Nesta parte, faremos uma análise da questão energética, em especial a relacionada ao petróleo e aos transportes, e de características do mercado consumidor americano, uma vez que impactos na economia americana se propagam pela economia mundial por um tipo de “efeito dominó”. E os Estados Unidos possuem certas particularidades estruturais que podem se mostrar como pontos de fragilidade social e econômica.
Esta parte será bastante rápida e superficial em sua análise, já que ela mereceria um livro à parte se fossem analisados os detalhes. Porém, ainda assim podemos alcançar algumas importantes conclusões sobre o futuro e as promessas feitas para ele.
A produção americana de petróleo
Os Estados Unidos foram o primeiro grande produtor mundial de petróleo, com importantes fatos históricos relacionados a isso.
O gráfico a seguir mostra a produção nacional de petróleo pelos Estados Unidos até cerca de 2025 e a partir de então, projeções de produção, segundo a EIA (“Energy Information Administration”), uma agência independente do Departamento de Energia dos Estados Unidos que lida com estatísticas estratégicas do setor.
[Perspectivas da produção de petróleo nos EUA]

Vemos que este gráfico pode ser dividido em dois períodos bem característicos. O primeiro até 2008 e o segundo a partir desta data. O ano de 2008 não ocorre por acaso, pois há certo sincronismo com os eventos da crise econômica vinda da bolha imobiliária americana.
Na primeira parte deste gráfico vemos que o pico de produção de petróleo foi em 1970 com subsequente declínio a partir daí, conforme previsto pela teoria do geólogo M. King Hubbert, seguido de significativo crescimento a partir de 2008. O país deixou de exportar petróleo em 1975, quando passou a importar.
O que caracteriza a diferença entre as duas fases é que a primeira é caracterizada pela exploração de poços de petróleo, enquanto a segunda se caracteriza pela crescente exploração do óleo de xisto betuminoso (ou “shale oil”, em inglês), por meio de técnicas de fratura do leito rochoso por elevada pressão hidráulica.
Diferente do que se pode pensar, o óleo de xisto não é nenhuma novidade. O recurso é conhecido há décadas, mas até então era considerado economicamente inviável, e por isso nunca gerou interesse para exploração.
Com um preço entre US$ 85,00 e US$ 90,00 o barril em média, ficava no limite entre ser pouco lucrativo ou gerar enorme prejuízo. O risco era muito grande.
A partir de 2008 ficou evidente que havia fragilidades econômicas nos Estados Unidos e que uma delas estava relacionada ao domínio do mercado de petróleo, o que os incentivou a investir fortemente na produção do óleo de xisto, deixando de ser um importador para se tornar um importante exportador de petróleo em 2017. Hoje os EUA são o principal fornecedor de petróleo para a Europa, dadas as restrições de compra de petróleo russo que anteriormente abastecia aquele continente. Hoje, o óleo de xisto representa dois terços da produção americana de petróleo.
Apesar dos números positivos, o óleo de xisto oferece seus próprios desafios.
Conforme o gráfico fornecido pela EIA, há três previsões possíveis sobre a produção de petróleo, em grande parte pela produção de xisto. Os três cenários, conforme os preços do barril, cuja sigla é bbl, são:
- Preços baixos: entre US$ 41/bbl em 2025 e US$ 48/bbl em 2050;
- Preços de referência: entre US$ 72/bbl em 2025 e US$ 91/bbl em 2050;
- Preços altos: entre US$ 118/bblem 2025 e US$ 157/bbl em 2050.
No entanto, segundo a EIA, é esperado que a produção do óleo de xisto atinja seu pico em 2027. Uma projeção já bastante especulativa aponta que esse patamar deve ser mantido por 10 anos, mas a própria prospecção e produção deste tipo de óleo mostra que a produtividade de uma perfuração é uma grande incógnita.
Também é importante notar como o processo de aumento da produção de óleo de xisto é muito mais íngreme que a dos poços, bem como o prazo para atingir o pico de produção.
A prospecção de óleo de xisto é muito diferente da de um poço de petróleo convencional.
- No poço de petróleo, uma vez identificada a jazida e tendo uma prospecção bem sucedida, ampliar o número de poços produtivos em paralelo é bastante provável, mas no caso do óleo de xisto, uma área que se mostra potencialmente produtiva pode exigir diversas perfurações de prospecção malsucedidas antes de achar uma que seja produtiva;
- Poços de petróleo são produtivos durante décadas, com decaimento muito lento no final de vida do poço. Já no caso do óleo de xisto, a produtividade inicial do poço é enorme, mas decai significativamente em poucos meses e geralmente se torna economicamente inviável em questão de um ou dois anos, exigindo que sejam feitas continuamente perfurações de prospecção;
- O impacto ambiental pode ser muito mais severo no caso do óleo de xisto do que nos poços convencionais, e muitas áreas de exploração coincidem com o chamado “corn belt” (“cinturão do milho”), região onde é feita a maior parte da produção de alimentos no país e a contaminação do solo e das águas subterrâneas podem tornar a terra imprópria para a produção por décadas;
- A produção exige continuamente grandes quantidades de água a serem usadas como fluido hidráulico para a fratura da camada de rocha para a liberação do óleo, competindo com o abastecimento de água para as comunidades próximas.
[Fotos de fracking]


O subúrbio, a armadilha do hardware urbano e o poder militar
Para compreender como essa dinâmica de produção se choca com a realidade social, é preciso olhar para o funcionamento interno do mercado consumidor americano. Para o cidadão médio daquele país, a energia nunca foi vista como um recurso físico finito ou escasso, mas sim como um fluxo financeiro perfeitamente suportável. Essa percepção de abundância perpétua desenhou a geografia das cidades no pós-Segunda Guerra Mundial.
O modelo de urbanização baseado em subúrbios isolou completamente a moradia das zonas de comércio, trabalho e lazer por distâncias significativas. Trata-se de um desenho urbano que inviabiliza o transporte público e obriga cada indivíduo a possuir um vetor de movimentação próprio.
Quando o combustível é historicamente barato o baixo consumo deixa de ser um critério de engenharia prioritário: o mercado migrou massivamente das camionetas e sedãs para as picapes grandes e suves de grande porte utilizados como veículos de uso diário urbano.
Esse arranjo gera uma rigidez termodinâmica perigosa. Se o preço do combustível dobra, o morador do subúrbio não tem como optar por ir de metrô ou caminhar até o trabalho; ele está “preso” a uma hipoteca distante e a um deslocamento compulsório de 60 ou 80 quilômetros diários. Como o tecido social foi concretado nessa dependência, qualquer oscilação severa no preço da energia desestrutura o orçamento familiar instantaneamente.
Um ponto que não é reconhecido oficialmente, mas dadas as grandes intervenções na diplomacia e finanças externas, bem como intervenções militares contra países distantes, é difícil negar é a ligação entre o petróleo barato, que sustenta este meio de vida americano, com o caríssima projeção de poder militar americano, capaz de alcançar qualquer ponto do planeta. Iraque, Afeganistão, Líbia e mais recentemente Venezuela e Irã são exemplos recentes de grandes intervenções militares a título de “eliminar ditaduras e promover a democracia”, enquanto diversos analistas enxergam uma forte correlação entre interesses energéticos e parte da política externa americana.
Para sustentar esse arranjo logístico e garantir que o fluxo de recursos externos permaneça contínuo a custos aceitáveis, a própria máquina militar americana foi desenhada para ir muito além da defesa nacional; transformou-se numa força de intervenção estrangeira permanente, cujo objetivo real é a manutenção desse delicado modo de vida. Policiar rotas marítimas globais e garantir a estabilidade do fluxo de commodities exige um aparato de alta tecnologia trilionário.
Para se ter uma dimensão material desse custo, basta observar que hoje apenas o ciclo de vida e desenvolvimento do programa do caça stealth F-35 está orçado na casa dos 2 trilhões de dólares. Diante de uma dívida pública americana que já ronda os 39 trilhões de dólares, o programa F-35 tornou-se um símbolo da dimensão dos gastos militares americanos — um arranjo financeiro que depende umbilicalmente do ecossistema do petrodólar para continuar sendo emitido sem gerar hiperinflação interna.
A doença holandesa à moda americana
Em 1977, a revista The Economist usou o termo “Dutch Disease” (“Doença Holandesa”) para descrever o que havia acontecido com a economia dos países baixos.
Este termo cunhou uma expressão que explica como países que tenham acesso a um importante recurso primário (petróleo, gás natural, etc.) causa a desarticulação de boa parte da economia do país, cuja economia passa a sobreviver essencialmente da exploração deste recurso e de economias que orbitem em torno dela (como a de bens de luxo), enquanto outras atividades como indústria e agricultura definham.
A raiz da doença holandesa dos Estados Unidos começa no final da SegundaGuerra Mundial, no encontro de Bretton Woods, que reuniu a maioria dos países do mundo e onde foram geradas as condições para um mundo de pós-guerra. Uma das determinações ali estabelecidas é a de que o comércio internacional deveria ser feito em dólares americanos, internacionalizando a moeda americana como padrão de comércio.
Para que houvesse esse trânsito internacional de dólares, foi criado o Swift, um sistema bancário internacional com grande participação de bancos americanos, que lucram ao impor custos a cada transação, mesmo que os Estados Unidos não esteja envolvido.
Para que os países obtivessem dólares, os EUA lastrearam sua moeda em ouro, e para que os países pudessem comercializar usando o dólar, estes países enviariam suas reservas em ouro para os Estados Unidos, que então forneceria valores em dólar equivalentes às reservas enviadas.
Um efeito colateral deste mecanismo é que quando um país comprasse dólar, indiretamente ele estava financiando o déficit público americano. Entretanto, havia um limite para a emissão de dólares, porque isso exigia depósitos equivalentes em ouro, o que regulava a expansão monetária do dólar.
Com a guerra do Vietnã, os Estados Unidos emitiu muitos dólares no intuito de financiar a guerra. General De Gaulle, líder francês, desconfiou que os Estados Unidos estavam emitindo dólares além dos limites do lastro em ouro. Isto poderia gerar uma inflação que poderia desvalorizar o dólar em relação ao ouro. De Gaulle mandou então uma fragata francesa a Nova York para repatriar o ouro francês antes que os dólares em posse da França se desvalorizassem. Isso quebrou a confiança internacional no dólar.
Em 1972, o presidente Nixon acaba com a convertibilidade do dólar em ouro. O dólar passa então a ser uma moeda fiduciária, ou seja, ela vale unicamente porque as pessoas e governos acreditam que ela vale. Moedas fiduciárias não possuem lastro.
Isto deixou o mercado sem uma base de confiança sobre o novo dólar, comprometendo sua imagem de moeda para transações internacionais, o que colocava o governo americano em xeque.
Em 1973, os Estados Unidos negociaran com a Arábia Saudita a condição de apenas negociar o vital petróleo em dólares. Foi o nascimento do chamado petrodólar.
Sem a âncora do padrão ouro e com todos os países necessitando de dólares para comprarem petróleo, obrigou que o sistema internacional mantivesse o dólar como moeda padrão de comercialização pelo cabresto enquanto dava total liberdade ao banco central emitir sem limites títulos da dívida pública americana, financiando quase que ilimitadamente os gastos do governo e bombeando muita riqueza produzida fora para dentro do país.
O resultado é que o setor financeiro americano passou a gerar a maior parte da riqueza do país, gerando desinteresse em muitas das demais atividades econômicas.
Em 1978, após a morte de Mao Tse-Tung, Deng Xiaoping inicia uma série de reformas estruturais na China, incluindo uma reabertura para o Ocidente, atraindo empresas estrangeiras para produzirem no país. Foi o início da migração da indústria americana para a China e outros países do Oriente.
Muitos empregos de altos salários, que garantiram a ascensão da classe média americana deixaram de existir, com as mesmas tarefas sendo feitas agora por trabalhadores que ganhavam uma pequena parcela dos antigos trabalhadores americanos, e eram muito mais produtivos. Enquanto a classe média americana perdia poder de compra por um lado, o fluxo cada vez maior de produtos baratos vindos do Oriente compensava a perda de poder aquisitivo direto desta classe média. O processo foi gradual, de tal sorte que a sociedade americana não sentiu diretamente o impacto dessa migração.
Enquanto isso, o setor financeiro era o que oferecia as melhores ofertas de trabalho, mas era trabalho para poucos. O resultado foi a progressiva desindustrialização dos Estados Unidos.
Um evento importante sobre este fenômeno de desindustrialização é que a década de 1980 marcou a ascensão da indústria eletroeletrônica, em especial a da eletrônica digital, impulsionada pela chamada “Lei de Moore”, que ditava que a capacidade dos chips dobrava a cada 18 meses. Esta é uma indústria que floresceu já em territórios orientais.
Os Estados Unidos mantiveram a capacidade de projeto dos chips, mas o domínio de sua fabricação ficou inteiramente nas mãos de trabalhadores estrangeiros.
Entre o começo da década de 1980 e os dias atuais, duas gerações se inseriram no mercado de trabalho americano, sendo que há poucos incentivos para a formação de mão de obra qualificada em larga escala, porque os empregos que exigiriam estes trabalhadores não existem no território americano.
Todas as características da Doença Holandesa se manifestaram na economia americana, e com consequentes efeitos danosos:
- Desindustrialização: produtos manufaturados locais se tornam caros, enquanto os produtos importados são irresistivelmente mais baratos e, muitas vezes, mais avançados;
- Primarização da pauta exportadora: os Estados Unidos eram a grande origem de produtos industrializados para o mundo. Hoje os países do Oriente, em especial a China, tomou seu lugar. Os Estados Unidos passam então a ser um grande exportador de commodities, como petróleo e alimentos;
- Vulnerabilidade a choques externos: os Estados Unidos dependem do fluxo de dólares vindos dos mecanismo do petrodólar como um dos pilares da economia, em especial como forma de pagamento e refinanciamento da dívida pública americana. Com a grande evolução e popularização da internet e de tecnologias avançadas de segurança digital, muitos países encontram meios mais eficientes de realizar pagamentos diretamente, em moedas locais, do que depender do burocrático e caro sistema Swift. No instante que países como Arábia Saudita declara que passa a aceitar outras formas de pagamento além do dólar, o risco à economia americana fica explícito;
- Concentração de renda e precarização do trabalho: Ao longo das últimas 5 décadas o mantra das grandes empresas se focou na ideia de alta produtividade. Cada trabalhador deveria produzir cada vez mais e não necessariamente ganhar mais na mesma medida e isso tornava os produtos mais baratos e atraentes. Tantos anos desta prática aliada aos avanços da tecnologia criaram uma situação onde se produz muito mais exigindo cada vez menos trabalhadores. A tecnologia também pode concentrar o conhecimento especializado para as tarefas, exigindo menor qualificação (e, portanto, menores salários) do trabalhador. Se nas décadas de 1960 e 1970 um trabalhador entrava pelos cargos mais humildes e ascendia na organização da empresa, ganhando cada vez mais, fazendo parte da poderosa classe média de então, hoje, muitos destes postos de trabalho foram transferidos para o exterior e os postos mais elevados restantes estão ocupados pelas gerações mais velhas. O resultado é que o jovem que ingressa agora no mercado de trabalho tem expectativas muito menores de ascensão em sua carreira e melhoria de seu poder de compra. Já o setor financeiro, onde está a maior fatia da riqueza, é altamente automatizado, dando reais oportunidades a poucos.
É interessante notar que a Doença Holandesa normalmente está atrelada a uma commodity física, como o petróleo, o que sempre é possível avaliar um valor relativo em relação a outros produtos.
O caso americano é diferente. Sob uma interpretação ampliada da Doença Holandesa, sua principal “commodity” é a própria moeda, algo que só tem valor porque todos acreditam que ela tem valor, ou seja, é um valor sem lastro físico mensurável.
Donald Trump foi eleito com a promessa de trazer de volta a indústria e, com ela, os bons empregos que a classe média americana perdeu ao longo dos anos. Será uma promessa difícil de cumprir, porque, além do custo das indústrias se reinstalarem no país, a mão de obra americana está defasada, é cara e muito menos produtiva do que a oriental.
A eficiência energética dos transportes americanos
O gráfico a seguir mostra o uso da energia pelos Estados Unidos no ano de 2023.

Neste gráfico vemos que o petróleo representa a principal fonte de energia do país (seguido de perto pelo gás natural), mas cuja finalidade é predominantemente para transportes. Este gráfico nos dá uma informação importante: o rendimento energético do sistema de transporte americano é de 21,3%, praticamente desperdiçando 4 unidades de energia para cada 5 que é gerada, e quase tudo isso vindo do petróleo.
Como base de comparação, vemos que a geração de energia elétrica tem rendimento de 41,3%, praticamente o dobro do rendimento do petróleo em transportes.
O importante a se notar nesta comparação é que a geração de energia elétrica é feita a partir do carvão, do gás natural e de usinas nucleares. Todas estas fontes são essencialmente fontes térmicas, e, portanto, de submetidas aos limites da Lei de Carnot, tanto quanto o petróleo aplicado aos transportes. É uma evidência direta da alta ineficiência energética do petróleo.
Quando observamos o mesmo rendimento do petróleo nos anos de 2013 e em 1970, ano do pico da produção de petróleo, vemos que a situação não mudou significativamente em 10 anos, mas que, 53 anos antes ela era de 25,2%.


Esta é uma conclusão estranha. Em 1970 automóveis usavam carburadores e sistemas de ignição primitivos e sem compromissos com baixas emissões ou com economia de combustível, enquanto em 2023, os motores eram projetados com sofisticadas simulações por computador, usando materiais exóticos, com injeção eletrônica que veio justamente para diminuir consumo e emissões. Isto indica que, apesar das evoluções tecnológicas e legislações sobre emissões, o rendimento energético dos transportes americanos regrediu ao invés de avançar significativamente, e esta degradação é mais antiga que 13 anos.
Conclusão
Venho de uma família de origem espanhola por parte de mãe. Meus antepassados viveram a ocupação romana, a permanência moura, a unificação da Espanha, e parentes próximos sofreram os horrores do bombardeio alemão que auxiliava o generalíssimo Francisco Franco durante a Guerra Civil Espanhola — o trágico ensaio para a Segunda Guerra Mundial. Ao longo de séculos de conflitos e escassez real, eles aprenderam, a duras penas, lições profundas de sobrevivência que herdei como base de raciocínio. Minha avó costumava dizer que “onde há fartura, há desperdício”. Já meu avô ensinava que “um machado que pode ser afiado ainda é um machado útil”. Essas não eram metáforas vazias; eram lições sobre a termodinâmica da vida. A mensagem era clara: o excedente poupado na fartura de hoje é o que sustenta a sociedade nos tempos de restrição do amanhã. Mais do que isso, quem se habitua ao desperdício perde a flexibilidade mental e a capacidade prática de se adaptar quando a necessidade se impõe.
O que a análise do cenário americano revela é um quadro de extrema rigidez e dependência do petróleo. Enquanto o recurso foi abundante, o desperdício foi institucionalizado no concreto das cidades espalhadas, no tamanho e na tipificação da frota. Mas mudar a infraestrutura física de um país de 340 milhões de habitantes exige décadas; desarmar os costumes e os gatilhos mentais de uma população educada na ilusão do recurso infinito exige gerações. E o tempo está acabando.
Como o dólar e o petróleo operam como o sistema circulatório do comércio global, qualquer fratura estrutural interna nos EUA não ficará restrita às suas fronteiras, propagando-se inevitavelmente por toda a economia mundial em um efeito dominó. Os pontos de falha estão acumulados e visíveis: o pico iminente da produção do óleo de xisto, o progressivo fim do mecanismo do petrodólar, e a Doença Holandesa estrutural que impede a repatriação rápida de indústrias e empregos complexos de alta remuneração.
Os dirigentes americanos sabem disso. No entanto, em vez de investir numa transição cultural duradoura e num redesenho de atitude para preservar as riquezas reais do país, o que testemunhamos é o direcionamento de recursos trilionários para uma capacidade militar de intervenção cada vez maior, numa tentativa de sustentar à força esse delicado modo de vida. É a escolha de gastar a energia que resta para tentar manter o paradigma interno, em vez de aprender a afiar o próprio machado internamente.
A intenção aqui não é culpar o cidadão comum, tampouco construir uma análise ideológica ou panfletária. A engenharia e a história nos obrigam a observar friamente os fatos. Nenhuma crise sistêmica dessa magnitude costuma eclodir do dia para a noite; o que estamos presenciando é uma progressiva e silenciosa corrosão estrutural rumo à falha.
Na próxima parte, vamos analisar o resto do mundo e como essas forças moldarão o nosso futuro.
AAD

