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Home Matérias Outros

PETRÓLEO: O CUSTO DA ENERGIA – 5ª PARTE

A ABUNDÂNCIA CRIA CONFORTO; ESTE CRIA DEPÉNDÊNCIA

identicon por André Dantas
12/07/2026
em Outros
O petróleo americano e suas implicações ao país. (Fonte: Google Gemini)

O petróleo americano e suas implicações ao país. (Fonte: Google Gemini)

Este artigo é uma continuação:
O primeiro artigo pode ser lido aqui.
O segundo artigo pode ser lido aqui.
O terceiro artigo pode ser lido aqui.
O quarto artigo pode ser lido aqui.

Na parte anterior, vimos muitas questões relacionadas com cadeias e rendimentos energéticos e como isso pode impactar no mercado de energia, conforme o preço do petróleo continue subindo.

Nesta parte faremos uma análise da questão energética, em especial a relacionada ao petróleo e aos transportes.

Questões diplomáticas, geopolíticas e de infraestrutura influenciam inevitavelmente o mercado do petróleo, como pudemos observar recentemente no embate entre Estados Unidos e Irã. Contudo, esses fatores estão fora do escopo desta análise. Nosso objetivo é concentrar a discussão nos aspectos técnicos relacionados ao petróleo. As demais dimensões do tema já são amplamente tratadas pela imprensa e por analistas especializados.

Esta parte fará apenas uma análise panorâmica do tema, que por si só mereceria um livro. Porém, ainda assim podemos alcançar algumas importantes conclusões sobre o futuro e as promessas feitas para ele.

A produção americana de petróleo

Os Estados Unidos foram o primeiro grande produtor mundial de petróleo, com importantes fatos históricos relacionados a isso. O gráfico a seguir mostra a produção nacional de petróleo por aquele país até cerca de 2025 e a partir de então, projeções de produção, segundo a EIA (“Energy Information Administration”), uma agência independente do Departamento de Energia dos Estados Unidos que lida com estatísticas estratégicas do setor.

Produção de petróleo dos EUA: o passado e as projeções futuras. (Fonte: https://www.crystolenergy.com/u-s-oil-production-a-peak-in-sight/)

Vemos que este gráfico pode ser dividido em dois períodos bem característicos. O primeiro até 2008 e o segundo a partir desta data. O ano de 2008 não ocorre por acaso, pois há certo sincronismo com os eventos da crise econômica vinda da bolha imobiliária americana.

Na primeira parte deste gráfico vemos que o pico de produção de petróleo atingiu seu máximo em 1970 com consequente declínio a partir de então, conforme previsto pela teoria do geólogo M. King Hubbert, seguido de significativo crescimento a partir de 2008. O país deixou de exportar petróleo em 1975, quando passou a importar.

O que caracteriza a diferença entre as duas fases é que a primeira é caracterizada pela exploração de poços de petróleo, enquanto a segunda se caracteriza pela crescente exploração do óleo de xisto betuminoso (shale oil em inglês), por meio de técnicas de fratura do leito rochoso por elevada pressão hidráulica.

Diferente do que se pode pensar, o óleo de xisto não é nenhuma novidade. O recurso é conhecido há décadas, mas até então era considerado como economicamente inviável, e por isso nunca gerou interesse para exploração.

Com um preço de custo de exploração entre US$ 85,00 e US$ 90,00 o barril em média, ficava no limite entre ser pouco lucrativo ou gerar enorme prejuízo. A partir de 2008, ficou evidente que havia fragilidades econômicas nos Estados Unidos causadas pela grave crise econômica.

Esta seria difícil de solucionar, e uma das saídas encontradas para retomar a estabilidade econômica seria aumentar a oferta de petróleo interna e externamente, saciando a “sede” interna e global por mais petróleo. O xisto até então era apenas mera reserva sem interesse econômico, mas passou a papel preponderante na recuperação econômica americana, não por que fosse barato para ser explorado, mas porque a maior oferta facilitava as demais atividades econômicas do país.

E assim os Estados Unidos deixaram de ser um grande importador para se tornar um importante exportador de petróleo em 2017. Atualmente, o óleo de xisto representa dois terços da produção americana de petróleo.

Hoje os EUA são o principal fornecedor de petróleo para a Europa, dadas as restrições de compra de petróleo russo que anteriormente abastecia aquele continente. E o óleo extra produzido a partir do xisto dá ao país maior relevância no controle dos preços internacionais do petróleo.

Apesar dos números positivos, o óleo de xisto oferece seus próprios desafios.
Conforme o gráfico fornecido pela EIA, há três previsões possíveis sobre a produção de petróleo, em grande parte pela produção de xisto. Os três cenários, conforme os preços do barril, abreviadamente bbl, são:

  • Preços baixos: entre US$ 41/bbl em 2025 e US$ 48/bbl em 2050;
  • Preços de referência: entre US$ 72/bbl em 2025 e US$ 91/bbl em 2050;
  • Preços altos: entre US$ entre US$ 118/bbl em 2025 e US$ 157/bbl em 2050.

No entanto, segundo a EIA, é esperado que a produção do óleo de xisto atinja seu pico no ano que vem. Uma projeção já bastante especulativa aponta que esse patamar deve ser mantido por 10 anos, mas a própria prospecção e produção deste tipo de óleo mostra que a produtividade de uma perfuração é uma grande incógnita.

Assim, embora as áreas de exploração de xisto sejam vastas em território americano, há uma baixa densidade de óleo nelas. Enquanto muitos poços americanos possuem operação centenária, o óleo de xisto pode ser um fenômeno de poucas décadas, e que pode já estar a caminho do declínio de produção.

Mais importante do que os valores projetados é compreender o significado econômico dessas projeções. Existe no mundo, e em especial nos Estados Unidos, uma certa capacidade de produção que é superior à demanda atual. Portanto, há uma elasticidade para oferecer um preço muito mais baixo que o atual, tanto quanto os US$ 20/bbl de 1999.

Por outro lado, se o preço for muito baixo, a demanda aumenta e, ao aumentar a oferta para emparelhar com esta demanda, pode-se esgotar mais rapidamente as reservas, em especial as mais baratas, as mais fáceis e as mais convenientes de serem exploradas. E este é um caminho sem volta.

Inverrsamente, um preço muito alto do petróleo diminui muito a demanda e esfria toda a economia em nível mundial. E há também a questão da lucratividade de quem explora essas jazidas.

Esta situação gera um delicado equilíbrio no preço do barril, que pode até oscilar bastante em função de outros processos que interferem nele, mas eles tendem a votar a um valor médio. Assim, não há de se pensar que a questão da oferta está diretamente limitada à capacidade máxima de produção, mas num delicado ponto de equilíbrio que depende da taxa da maturação e do envelhecimento dos poços em operação.

Os poços americanos, como atingiram o máximo de produção em 1970 e estão em franco declínio.. O óleo de xisto passou a ser produzido dentro de uma condição em que os poços de menor custo de produção compensavam, no geral, o maior custo de exploração deste tipo de óleo. Era uma necessidade que os Estados Unidos aumentassem a oferta de petróleo diante de um quadro de crise, oferecendo uma facilidade a baixo custo para combater uma condição de crise econômica.

Hoje a situação do mercado interno americano se mostra sob controle. Entretanto, a tendência é que os Estados Unidos retornem, no futuro, à condição de importador de petróleo, em vez de permanecerem como exportador.

Assim, o preço de referência representa um preço sustentável para manter a produção e não um peço absoluto pela relação de oferta no limite de exploração versus a demanda. No entanto, com o progressivo envelhecimento dos poços em terras emersas, de custo de produção mais fácil e barato, os preços administrados obrigatoriamente tendem a subir, mesmo que suplementados por outros poços em condições mais difíceis de exploração.

Especificidades da exploração do óleo de xisto

É importante notar também que o processo de aumento da produção de óleo de xisto é muito mais íngreme que a dos poços em terra, bem como o prazo para atingir o pico de produção e iniciar a curva descendente dela é muito curto.

A prospecção de óleo de xisto é muito diferente da de um poço de petróleo convencional.

  • No poço de petróleo, uma vez identificada a jazida e tendo uma prospecção bem-sucedida, ampliar o número de poços produtivos em paralelo é bastante provável, mas no caso do óleo de xisto, uma área que se mostra potencialmente produtiva pode exigir diversas perfurações de prospecção malsucedidas antes de se achar uma que seja suficientemente produtiva;
  • Poços de petróleo são produtivos durante décadas, com decaimento muito lento no final de vida do poço. Já no caso do óleo de xisto, a produtividade inicial do poço é enorme, mas cai significativamente em poucos meses e geralmente se torna economicamente inviável em questão de um ou dois anos, exigindo que sejam feitas continuamente perfurações de prospecção;
  • O impacto ambiental pode ser muito mais severo no caso do óleo de xisto do que nos poços convencionais, e muitas áreas de exploração coincidem com o chamado corn belt (cinturão do milho), região no pasí onde é feita a maior parte da produção de alimentos no país — inclusive milho para a produçáo de álcool etílico — e a contaminação do solo e das águas subterrâneas podem tornar a terra imprópria para a produção por décadas;
  • A produção exige continuamente grandes quantidades de água potável a serem usadas como fluido hidráulico para a fratura da camada de rocha para a liberação do óleo, competindo com o abastecimento de água para as comunidades próximas.
Instalações de exploração de óleo de xisto com a técnica de hidro-fracking. (Fonte: https://postindustrial.com/stories/the-harsh-face-of-fracking-you-rarely-see/)
Operação da piscina de coleta do óleo de xisto. (Fonte: https://postindustrial.com/stories/the-harsh-face-of-fracking-you-rarely-see/)

A rocha da jazida é extremamente compacta, oferecendo baixa densidade de óleo. Então é de se esperar que há muito menos óleo nestas jazidas do que em poços tradicionais, levando a uma expectativa de potencial exploração muito mais curta.

A eficiência energética dos transportes americanos

O gráfico a seguir mostra o uso da energia pelos Estados Unidos no ano de 2023.

Imagem estimativa de consumo de energia nos EUA em 2023. (Fonte: Lawrence Livermore National Laboiratory)

[Imagem estimativa de consumo de energia nos EUA em 2023]

Neste gráfico vemos que o petróleo representa a principal fonte de energia do país (seguido de perto pelo gás natural), mas cuja finalidade é predominantemente para transportes.

Este gráfico nos dá uma informação importante: o rendimento energético do sistema de transporte americano é de 21,3%, praticamente desperdiçando 4 unidades de energia para cada 5 que é gerada, e quase tudo isso vindo do petróleo.

Como base de comparação, vemos que a geração de energia elétrica tem rendimento de 41,3%, praticamente o dobro do rendimento do petróleo em transportes. O importante a se notar nesta comparação é que a geração de energia elétrica é feita a partir do carvão, do gás natural e de usinas nucleares. Todas estas fontes são essencialmente fontes térmicas, e, portanto, submetidas aos limites da Lei de Carnot tanto quanto o petróleo aplicado aos transportes. É uma evidência direta da alta ineficiência energética do petróleo como energia de transporte.

Quando observamos o mesmo rendimento do petróleo nos anos de 2013 e em 1970 —ano do pico da produção de petróleo — vemos que a situação não mudou tanto em 10 anos, mas que, 53 anos antes ela era de 25,2%.

Imagem estimativa de consumo de energia nos EUA em 2013. (Fonte: Lawrence Livermore National Laboiratory)
Imagem estimativa de consumo de energia nos EUA em 1970. (Fonte: Lawrence Livermore National Laboiratory)

Uma conclusão estranha: em 1970 os automóveis usavam carburadores e sistemas de ignição primárois sem compromissos com baixas emissões ou com consumo de combustível, enquanto em 2023 os motores eram projetados com sofisticadas simulações por computador, usando materiais exóticos, com injeção eletrônica, que vieram justamente para diminuir consumo e emissões. Isso indica que os ganhos tecnológicos obtidos nos motores foram mais do que compensados por mudanças estruturais na forma como a energia é consumida pelos transportes.

Mostra que toda a história desde o primeiro choque do petróleo, há 53 anos, não foi uma lição aprendida.

Conclusão

Venho de uma família de origem espanhola por pare de mãe. Meus antepassados viveram a ocupação romana, a permanência moura, a unificação da Espanha, e parentes próximos sofreram os horrores do bombardeio alemão que auxiliava o generalíssimo Francisco  Franco durante a Guerra Civil Espanhola — o trágico ensaio da Força Aérea Alemã para a Segunda Guerra Mundial. Ao longo de séculos de conflitos e escassez real  eles aprenderam, a duras penas, lições profundas de sobrevivência que herdei como base de raciocínio.

Minha avo costumava dizer que “onde há fatura, ha desperdício.” Já meu avo ensinava que “um machado que pode ser afiado ainda é um machado útil”. Essas não eram metáforas vazias; eram lições sobre a termodinâmica de uma família de origem espanhola por parte de mãe. A mensagem era clara: o excedente poupado na fartura de hoje é o que sustenta a sociedade nos tempos de restrição do amanhã. Mais do que isso, quem se habitua ao desperdício perde a flexibilidade mental e a capacidade prática de se adaptar quando a necessidade se impõe.

O que a análise do cenário americano revela é um quadro de extrema rigidez estrutural e dependência do petróleo. Enquanto o recurso foi abundante, o desperdício fica institucionalizado no concreto das cidades espalhadas, no tamanho e na tipificação da frota. Mas mudar a infraestrutura física de um país de 340 milhões da habintes demanda décadas; desarmar os costumes e os gatilhos mentais de uma população educada na ilusão do recurso infinito exige gerações. E o tempo est[a acabando.

O que a análise do cenário norte-americano revela é um quadro de extrema rigidez estrutural e dependência do petróleo. Enquanto o recurso for abundante, o desperdício fica institucionalizado no concreto das cidades espalhadas, no tamanho e na tipificação da frota. Mas mudar a infraestrutura física de um país de 340 milhões de habitantes exige décadas; desarmar os costumes e os gatilhos mentais de uma população educada na ilusão do recurso infinito exige gerações. E o tempo está acabando.

Se os custos de combustível subirem, o país será obrigado a adotar medidas em favor de maior eficiência energética. Trocar carros atuais por modelos mais racionais e eficientes e retomar as ferrovias como principal meio de transporte de cargas a longas distâncias são exemplos de alternativas que serão impostas, mas demoram a se mostrarem sensivelmente efetivas. O padrão de vida americano, uma importante referência cultural, será afetado.

A intenção não é culpar o cidadão comum, tampouco construir uma análise ideológica ou panfletária. A engenharia e a história obrigam a observar feiamente os fatos. Nenhuma crise sistêmica costuma eclodir da noite para o dia.; o que estamos presenciando é um  processo progerssivo e silencioso, e que provavelmente será absorvico pela população americana assim como aconeceu com a vifada dos preços do barril, que saiu da ordem de 15 a 20 dólares para 60 a 80 a partir de 1999. Mas o quadro de um petróleo cada vez mais caro pode mudar

A intenção aqui não é culpar o cidadão comum, tampouco construir uma análise ideológica ou panfletária. A engenharia e a história nos obrigam a observar friamente os fatos. Nenhuma crise sistêmica costuma eclodir do dia para a noite; o que estamos presenciando é u80 processo progressivo e silencioso, e que provavelmente será absorvido pela população americana assim como aconteceu com a virada dos preços do barril, que saiu da ordem de quinze a vinte dólares para sessenta a oitenta a partir de 1999. Mas o quadro de um petróleo cada vez mais caro pode mudar lentamente todo o panorama.

Na próxima parte vamos analisar o resto do mundo e como essas forças moldarão o nosso futuro.

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