Este artigo é uma continuação:
O primeiro artigo pode ser lido aqui.
O segundo artigo pode ser lido aqui.
O terceiro artigo pode ser lido aqui.
O quarto artigo pode ser lido aqui.
O quinto artigo pode ser lido aqui.
Na quinta parte desta série de artigos avaliamos muitas das características dos Estados Unidos com relação ao petróleo, incluindo o fato de o primeiro pico de produção dos poços de petróleo ter ocorrido em 1970, e que um segundo pico, agora de óleo de xisto que hoje responde por dois terços da produção americana, ser esperado para o ano que vem.
Nesta sexta parte vamos observar as características do resto do mundo, buscando entender como é parte da mecânica da relação entre oferta e procura pelo globo.
Veremos que a geologia impõe as condições iniciais; a engenharia e a tecnologia ampliam possibilidades; a economia define os limites; e, por fim, a geopolítica determina quem suporta melhor os períodos de escassez.
Os países produtores
Os países produtores de petróleo tiveram a sorte de possuir grandes reservas deste mineral. Estas reservas são tão amplas que a produção supera o consumo interno, gerando um excedente que pode ser exportado e gerar divisas.
Aqui é importante frisar o termo “excedente”, porque este termo tem algumas peculiaridades modernas. Vamos considerar que um certo país, como o México, é dono de vastas reservas, e produz o suficiente para exportar seu excedente e ter um fluxo de caixa positivo. Há ali dois fenômenos concorrentes.
O primeiro é o crescimento econômico e o consequente aumento da demanda, enquanto os poços já atingiram a maturidade e sua capacidade de produção já indica um decaimento esperado. Assim, quando pensamos num excedente a ser exportado, vemos que a oferta que o México oferece ao mercado internacional decai muito mais rapidamente do que pelo simples envelhecimento das suas jazidas.

Num mundo cada vez mais ávido por petróleo por conta da necessidade do crescimento econômico, a pressão da demanda sobre a oferta tende a crescer enormemente, impactando severamente o preço internacional do produto.
Países exportadores com suas jazidas em estágio de envelhecimento tendem a ter uma queda na oferta de petróleo ao mercado exterior numa taxa muito mais acentuada do que a própria perda de produção dos poços envelhecidos. A soma de todos os exportadores neste mesmo cenário diminui a oferta a taxas cada vez mais significativas, pressionando enormemente o preço internacional do produto.
Outro fator a ser levado em conta é o fator estratégico. Possuir uma grande reserva de petróleo é um ativo altamente estratégico para quem o possui. O país até pode ter uma capacidade de produção muito superior à praticada, porém o abuso na exploração do recurso causará seu declínio mais acelerado, ao ponto deste país se tornar importador e ter de pagar pelo petróleo que importa. Este é um cenário especialmente crítico no momento em que o país anteviu o declínio da produção e pensa em preservar um certo montante para consumo interno futuro.
A questão estratégica pode reduzir ainda mais a produção excedente a ser exportada, e, portanto, reduzindo a oferta globalmente.
Como vimos na 5ª parte, os EUA conseguiram reverter o pico de produção de 1970 com a exploração do óleo de xisto, mas este tendo uma previsão de atingir o seu pico em 2027. O óleo de xisto existe em jazidas muito menos densas que as dos poços de petróleo, e enquanto os poços americanos resistem há mais de um século de produção intensa, nos atuais níveis de exploração o óleo de xisto pode ser um fenômeno para uma ou não mais que duas décadas de exploração.
Os EUA são ao mesmo tempo um dos maiores exportadores de petróleo tanto quanto é seu maior consumidor. Sendo uma nação tão dependente de petróleo barato, seria importante tratar o óleo de xisto de forma estratégica para o futuro, mas ele vem tratando este recurso de modo comercial e geopolítico com outros tipos de estratégia.
No Golfo Pérsico impera um ambiente desértico extremamente agressivo, mas a riqueza vinda do petróleo permitiu que as diferentes populações da região prosperassem. Uma sociedade mais numerosa implica em uma maior demanda interna, o que pode conduzir estes países a um declínio acelerado da exportação quando suas reservas atingirem o envelhecimento franco. O impacto será direto no mercado internacional de petróleo.
A Doença Holandesa e a responsabilidade estratégica
Em 1977, como vimos nesta série, a revista inglesa The Economist usou o termo Dutch Disease (Doença Holandesa) para descrever o que havia acontecido com a economia da Holanda. Este termo explica como países que tenham acesso a um importante recurso primário (petróleo, gás natural, etc.) causa a desarticulação de boa parte da economia do país, que passa a sobreviver essencialmente da exploração deste recurso e de economias que orbitem em torno dela (como a de bens deluxo), enquanto outras atividades como indústria e agricultura definham.
Esta é uma condição na qual o país passa a existir exclusivamente em função da exploração daquele recurso.

Um grave problema da Doença Holandesa é que se forma uma pequena elite em torno do valioso recurso, enquanto a maioria da população é posta à margem. Esta elite passa então a viver dos lucros da exploração daquele recurso, visando sempre maximizar seus lucros. Isso pode levar à superexploração das jazidas e acelerar seu processo de envelhecimento. E quando o processo de envelhecimento se mostrar irreversível, não haverá recursos para que toda uma economia em paralelo apareça e cresça de forma sustentável.
Um país exportador saudável precisa evitar a Doença Holandesa, bem como outros vícios que surgem na gestão de um recurso tão valioso e estratégico. Um governo responsável pode deliberadamente reduzir e/ou regular o ritmo de produção por vários motivos:
- preservar reservas para as próximas décadas;
- evitar uma dependência excessiva da economia em relação ao petróleo;
- prolongar a vida útil dos campos;
- administrar receitas públicas;
- manter capacidade de resposta em cenários de crise energética mundial;
- influenciar o mercado internacional, quando possui volume suficiente para isso.
Isso introduz uma variável importante: a oferta não é apenas uma função da geologia e da engenharia, mas também da estratégia nacional.
No cômputo geral, existem quatro fatores que limitam a oferta de petróleo:
- Geologia – quanto petróleo existe e quão difícil é produzi-lo.
- Tecnologia – quanto desse petróleo é tecnicamente recuperável.
- Economia – se o preço do barril justifica os investimentos necessários.
- Estratégia – quanto o produtor deseja efetivamente colocar no mercado.
Esse quarto fator costuma ser negligenciado.
Veja alguns bons exemplos de administração nacional do petróleo:
- A Arábia Saudita historicamente manteve capacidade ociosa de produção justamente para poder aumentar ou reduzir a oferta conforme as condições do mercado e os interesses da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Essa capacidade ociosa tem valor estratégico por si só.
- A Noruega sempre administrou suas reservas do Mar do Norte com uma visão de longo prazo, canalizando grande parte da renda do petróleo para seu fundo soberano e evitando uma exploração desordenada.
- Os Emirados Árabes Unidos investem parte significativa da renda petrolífera em diversificação econômica, antecipando um futuro em que o petróleo tenha menor peso relativo.
Por outro lado, um grande mau exemplo é o da nossa vizinha Venezuela. Como a abundância de petróleo, por si só, não garante prosperidade de longo prazo. Ela é frequentemente citada como um dos exemplos mais marcantes dos efeitos que a Doença Holandesa pode produzir quando combinada com uma gestão inadequada dos recursos naturais.
Durante décadas, sua economia tornou-se fortemente dependente da renda petrolífera, enquanto outros setores perderam competitividade. Ao mesmo tempo, a estatal petrolífera passou a acumular funções que iam além da produção de petróleo, reduzindo sua capacidade de reinvestimento e manutenção dos campos.
O resultado foi uma queda progressiva da produção justamente num país que possui algumas das maiores reservas do mundo. Esse caso mostra que reservas abundantes não são suficientes: sua administração exige investimentos contínuos, estabilidade institucional, planejamento de longo prazo e capacidade técnica.
A importância do caso venezuelano vai além dos seus efeitos internos. Quando um país detentor de algumas das maiores reservas do mundo perde capacidade de produzir e exportar petróleo, a oferta disponível ao mercado internacional diminui. Assim, um problema inicialmente doméstico passa a influenciar o equilíbrio global entre oferta e demanda, contribuindo para uma pressão adicional sobre os preços internacionais.
Sobre o mercado de oferta de petróleo
A partir destas observações, podemos concluir que a oferta de petróleo não é simplesmente a soma da capacidade técnica de produção. É a soma da capacidade técnica menos aquilo que os produtores escolhem não produzir por razões estratégicas. Aqui o aspecto político se sobrepõe aos aspectos técnicos e econômicos.
O mercado mundial de petróleo não é determinado apenas pela quantidade de petróleo existente no subsolo, mas pela parcela que os países produtores estão dispostos a vender, no momento, ao restante do mundo. Existe uma longa cadeia de decisões técnicas, econômicas e políticas que determina quanto efetivamente chega aos consumidores e a que preço.
Os países importadores
A maior parte dos países importa petróleo por toda sorte de características. Destes, é mais visível as consequências desta dependência nos países mais desenvolvidos, que podem ter sua relevância relativa reduzida caso não consigam compensar sua vulnerabilidade energética por meio de tecnologia, produtividade ou novas fontes de energia,
Um bom exemplo desta dependência da importação de petróleo vem da Europa de uma maneira quase geral. A região se tornou um continente rico com a era do mercantilismo e do colonialismo, depois impulsionado pela Revolução Industrial, alimentada por grandes reservas de carvão. Porém, a Europa não possui grandes reservas continentais de petróleo, e a maioria dos países depende diretamente da sua importação.
Durante a 2ª Guerra Mundial, esta dependência ficou visível. A Inglaterra quase capitulou diante dos submarinos alemães que não deixavam os navios de abastecimento chegarem, e a própria Alemanha precisou apelar para combustíveis e lubrificantes sintéticos, vindos do carvão, para manter sua máquina de guerra funcionando.
Em paralelo, outro grande exemplo é o Japão, que entrou na 2ª Guerra Mundial em grande parte por um embargo de petróleo vindo do seu maior fornecedor, os Estados Unidos, que buscava frear ânsia expansionista japonesa.
Estas questões de dependência do petróleo importado pela Europa e pelo Japão durante a 2ª Guerra Mundial cria um contraste importante quando comparado com o quadro atual. Tanto a Europa como o Japão continuam dependendo do petróleo para manter suas economias em funcionamento quanto dependiam há 80 anos. A diferença é que estes países naquela época sofriam de restrição de fornecimento por conta de uma guerra, enquanto hoje o problema é o encarecimento deste recurso.
Restrições por guerras são abruptas, mas transitórias. Quando a guerra cessa, as restrições somem junto.
O problema do petróleo atual está ligado ao lento escasseamento das reservas mundiais. Pagando, pode-se obter quanto petróleo se pode desejar, mas o preço dele gera impactos na economia do país.

No quadro atual, a energia passa a ser uma restrição ao crescimento, e não apenas um mero insumo. Toda atividade econômica depende da capacidade de converter energia útil em trabalho útil. Se essa energia se torna mais cara ou mais escassa, o crescimento econômico encontra uma restrição física, não apenas financeira.
A Europa até poucos anos operava com petróleo russo, vendido a preços abaixo dos internacionais. No momento em que a Rússia entra em guerra com a Ucrânia e sofre sanções, a Europa deixa de consumir o petróleo russo barato e passa a consumir o caro petróleo americano. Esta é a razão-chave para a crise econômica pela qual a Europa passa no momento. A pujança econômica do continente europeu era, em grande parte, dependente do desconto de preço russo.
O Japão por sua vez também é altamente dependente de petróleo barato para alimentar sua economia, mas o encarecimento progressivo do recurso pode levá-lo a uma crise econômica. A situação de longo prazo do Japão é frágil, mesmo considerando apenas a sua dependência da importação de petróleo.
Comparação entre países importadores e exportadores
Outro aspecto interessante é que o crescimento econômico produz efeitos opostos em países importadores e exportadores.
– País importador
- cresce a economia;
- aumenta o consumo de combustíveis;
- aumenta a necessidade de importação;
- aumenta a exposição aos preços internacionais.
O crescimento passa a encontrar um limite energético.
– País exportador
- cresce a economia;
- aumenta o consumo interno;
- produção cai com o envelhecimento das jazidas;
- sobra menos petróleo para exportação.
Mesmo mantendo uma produção elevada, ele passa a retirar oferta do mercado mundial. Ambos os casos produzem exatamente o mesmo resultado para o mercado internacional:
– Menos petróleo disponível para exportação
É uma forma elegante de mostrar que o crescimento econômico mundial, por si só, tende a pressionar o mercado de petróleo quando a produção não cresce no mesmo ritmo. Mas há uma consequência adicional. Quando um país deixa de ser exportador e passa a consumir toda a sua produção, ele provoca um efeito em cascata.
Suponha que existam dez países importadores disputando petróleo no mercado internacional. Se um exportador desaparece desse mercado, os dez importadores passam a disputar um volume menor de petróleo. O aumento de preço não decorre apenas da redução da produção global, mas da redução da parcela excedente efetivamente disponível para comércio internacional.
Em outras palavras, o mercado internacional é muito mais “estreito” do que a produção mundial sugere. Uma redução relativamente pequena no excedente exportável pode representar uma redução proporcionalmente muito maior na oferta disponível aos importadores, amplificando a sensibilidade dos preços.

Esta complexa relação entre países exportadores e importadores de petróleo tende a redesenhar muitas relações geopolíticas no futuro.
Outros países
Embora o texto trate os países apenas com classificações binárias como “exportador” e “importador”, a realidade de cada país é única e bastante diferenciada. O quadro a seguir mostra uma comparação da situação atual dos países já comentados e de outros:
| Região | Reservas | Produção | Dependência | Estratégia | Tendência |
|---|---|---|---|---|---|
| EUA | Grandes, porém caras (xisto e offshore) | Muito alta | Baixa atualmente | Maximizar produção interna e exportar. | Declínio do xisto |
| Europa | Pequenas | Baixa | Muito alta | Diversificar fornecedores e reduzir consumo de petróleo. | Maior dependência elétrica |
| Japão | Quase inexistentes | Nula | Extremamente alta | Eficiência energética e diversificação tecnológica. | Maior eficiência |
| China | Significativas, mas insuficientes | Alta | Elevada | Garantir suprimento externo e eletrificar transportes. | Eletrificação acelerada |
| Golfo Pérsico | Gigantescas | Muito alta | Exportador | Monetizar reservas antes da transição energética. | Exportador por várias décadas |
| Rússia | Muito grandes | Muito alta | Exportador | Utilizar energia como ativo geopolítico. | Redirecionamento das exportações para a Ásia e maior dependência do mercado asiático, |
| Brasil | Grandes offshore | Crescente | Exportador líquido em petróleo bruto, mas importador de parte dos derivados | Expandir o pré-sal e aumentar a capacidade de refino. | Expansão do pré-sal |
| México | Grandes, porém maduras | Em declínio relativo | Crescente pressão | Recuperar produção e fortalecer a empresa estatal. | Declínio da produção convencional e aumento da dependência de importações de derivados |
Conclusão
Ao longo dos últimos dois séculos o poder econômico acompanhou a disponibilidade de energia. Primeiro foi o carvão; depois o petróleo. A próxima reorganização da economia mundial talvez não seja determinada apenas por quem possuir as maiores reservas de petróleo, mas por quem conseguir garantir, de forma sustentável, o maior excedente de energia disponível para sua sociedade.
Nesse cenário, a geologia continuará impondo limites, mas a engenharia, a política energética e a capacidade de adaptação poderão definir quais nações prosperarão e quais enfrentarão restrições crescentes ao seu desenvolvimento.
Enquanto a geopolítica causa choques abruptos no preço do petróleo, é a progressão da geologia e da técnica que irá impor uma pressão lenta e gradativa na transição para uma nova realidade energética e o próprio sucesso ou fracasso de muitas nações.
Para a próxima e última parte, uma análise das principais alternativas energéticas emergentes ao petróleo, que ele mesmo vem propiciando.
AAD

