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PROPOSTA DE GASOLINA SEM ÁLCOOL… IGNORA EXIGÊNCIAS DOS MOTORES MODERNOS

PARLAMENTARES PROPÕEM GASOLINA SEM (OU COM POUCO) ETANOL SEM IMAGINAR SUA INVIABILIDADE TÉCNICA NO BRASIL

identicon por Boris Feldman
03/10/2026
em BF, Colunas, Opinião de Boris Feldman
Foto apenas ilustrativa (IA meta)

Foto apenas ilustrativa (IA meta)

As discussões começaram quando o governo anunciou o início dos testes para elevar ainda mais o teor de álcool na gasolina, de 32% para 35%. Sob o (falso) argumento de que este percentual foi permitido pela Lei do Combustível do Futuro. Falso, pois a permissão para novos percentuais estaria sempre sujeita à comprovação da “viabilidade técnica”.

O governo se fez de desentendido desde agosto ao subir o teor de 30% (E30) para 32% (E32) sem realizar os testes obrigatórios previstos pela legislação. O Instituto Mauá de Tecnologia, encarregado desta análise, realizou apenas os testes de dirigibilidade, mas não os de durabilidade (compatibilidade). Ou seja, não foi analisada a possibilidade de o etanol prejudicar componentes sujeitos a corrosão. Além disso, o governo federal se fez de surdo diante do protesto dos fabricantes de motos (Abraciclo) de que o novo percentual (E32) estaria prejudicando ainda mais seu funcionamento.

Este aumento (“provisório”, segundo o governo…) gerou uma série de questões a respeito da nossa gasolina, com a atenuante (ou desculpa) de que cerca de 80% da nossa frota de automóveis tem motores flex. Para estes não importa o teor de álcool já que podem funcionar com álcool puro (E100). Exceto para o bolso do motorista: quanto mais etanol, maior o consumo e a conta no fim do mês.

Surgiram então diversas propostas de parlamentares (aplaudidos pela imprensa…), que nada entendem de combustíveis, sugerindo a gasolina sem álcool (E0) ou com apenas 10% dele na mistura (E10), como são as gasolinas na União Europeia, de 95 e 98 RON, já havendo até as de 100 RON. “Assim, o motorista compra o que for mais adequado para seu carro”.

Eles nunca ouviram falar em octanagem, ou seja, a capacidade de um combustível de não detonar depois de iniciada a sua queima pela centelha da vela na câmara de combustão. A detonação, tecnicamente, é uma pós-ignição, também conhecida aqui como “batida de pino” — do inglês ping noise, provocada pelas ondas de choque entre a parte da mistura ar-combustível sendo queimada e a parte delabainda por queimar que eexplode (detona) espontaneamente pelo efeito do aumento súbito da pressão e da temperatura no cilindro capaz de ocasionar danos severos nos pistões e válvulas de escapamento.

Só mesmo motores muito antigos, com baixa taxa de compressão, é que poderiam rodar com esta gasolina de baixa octanagem, 87 RON, a gasolina ‘amarela’, como foi chamada durante décadas.

Como se obtém resistência à detonação?

  • Durante muitos anos, foi através da adição de chumbo tetraetila, extremamente tóxico. Mantido até hoje na gasolina para motores aeronáuticos a combustão, mas proibida para automóveis. Durante algum tempo ele foi substituído em algumas regiões do país pelo MTBE (sigla em inglês de éter metil terciário butílico), outro componente químico (derivado de petróleo) também tóxico e cancerígeno;
  • O etanol passou a ser acrescentado à gasolina no início da década de 80, em percentual de 12%, passando a 20% em 1997, obtendo boa octanagem;
  • Através de um sistema mais sofisticado de refino do petróleo, seria possível também se obter uma gasolina com octanagem superior, sem álcool. Mas em volumes reduzidos e custos elevados segundo fontes da indústria do petróleo.

Em resumo, a proposta da E0 é inviável tecnicamente por enquanto. E também a E10 dificilmente seria possível, pelo baixo de teor do etanol, o que reduziria a resistência à detonação e poderia até quebrar motores que não contassem com sensor de detonação, que via ECU (Unidade Eletrônica de Controle) toma medidas como atraso imediato do avanço de ignição para retornar ao original em incrementos mas sempre sob a guarda do sensor de detonção.

Os teores propostos de zero etanol ou apenas 10%, exigiriam que a refinaria produzisse uma gasolina mais sofisticada e cara para se obter octanagem acima de 90 RON. A nossa gasolina comum/aditivada tem hoje 94 RON (95 RON segundo pessoas inteiradas do assunto) e as Premium mantidas E25, de 98 a 103 RON.

No frigir dos ovos, as propostas de se oferecer gasolina “ao gosto do freguês” são impossíveis, no nomento. Ou só resolveriam o problema de meia-dúzia de modelos mais antigos, que não exigem octanagem elevada e sofrem com o etanol. Festa para os Fordinhos 1929…

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.

 

Mais Boris? autopapo.com.br

 

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