Há tempos as decisões sobre o que é certo e errado quando um piloto defende sua posição são alvo de debates intermináveis. Domingo, durante a disputa do GP dos EUA, em Austin neste domingo, o tema ganhou fôlego com a velocidade com que as equipes trocam pneus durante as corridas, mas sem a mesma eficiência. Logo na primeira curva da primeira volta Max Verstappen fez um traçado agressivo que levou o pole position Lando Norris a sair da pista (foto de abertura), manobra que definiu Charles Leclerc como vencedor da prova. No final da corrida, o holandês repetiu a manobra sobre o inglês e ambos saíram da pista, mas apenas Norris recebeu punição: os cinco segundos adicionados ao seu tempo total de prova o tiraram do terceiro lugar na pista, posição herdada por Verstappen.

A atitude do holandês não é inédita, nem em sua carreira, nem na história do esporte, realidade que não garante ao episódio um selo de aprovação indelével. Pelas regras atuais o piloto que vai à frente em uma disputa pode mudar sua trajetória uma única vez para defender sua posição. Quando isso não era possível, Verstappen mudou sua tática. Ele simplesmente aliviou o pé do acelerador antes da hora quando Daniel Ricciardo, então seu companheiro de equipe, tentava ultrapassá-lo na disputa do GP do Azerbaijão de 2018. O choque foi inevitável.

Muitos outros pilotos ficaram conhecidos por seu arrojo ao fazer ultrapassagens e o mais famoso é Michael Schumacher, que não teve escrúpulos em jogar seu Benetton contra o Williams de Damon Hill para garantir seu primeiro título na prova final de 1994, o GP da Austrália, em Adelaide. Ayrton Senna e Alain Prost e Lewis Hamilton e Nico Rosberg protagonizaram outros duelos onde não faltaram momentos críticos. Senna retribuiu, um ano mais tarde e no mesmo circuito, o acidente provocado por Alain Prost em 1989 em Suzuka.
Hamilton e Rosberg se envolveram em uma disputa de gato e rato que culminou com os dois se autoeliminado ainda no início do GP da Espanha de 2016, em Barcelona. A reação do líder de ambos, Toto Wolff, foi pragmática: os dois foram obrigados a pagar pelo reparo dos seus carros.

Uma disputa entre campeões que não teve lances tão agressivos dentro da pista envolveu Nelson Piquet e Nigel Mansell. Nesse caso os golpes foram táticos e políticos, com uso de estratégias surpreendentes de ambas as partes. Como resultado, Piquet saiu campeão em 1987, quando Mansell foi vice pela segunda vez consecutiva.
Pouco a pouco, ano após ano, as freadas e tomadas de curva foram ficando mais agressivas e atualmente pode-se identificar um número maior de pilotos que são conhecidos pela forma como tentam manter ou ganhar posições. Esteban Ocon, Kevin Magnussen e Sergio Pérez são exemplos disso. No último fim de semana Liam Lawson não se intimidou ao anular as tentativas de ultrapassagem de Fernando Alonso (outro personagem comportamento, no mínimo, marcante), durante a corrida sprint, no sábado.

Os pilotos da F-Indy praticam uma ética mais rígida dentro das pistas: ao andarem em circuitos ovais e em velocidades médias muito mais altas que a F-1, as possibilidades de um acidente trágico são bem maiores. A escola europeia é baseada nos karts, onde o contato é mais frequente e tende a formar pilotos mais arrojados. Quando as corridas de F-1 começam a permitir manobras mais discutíveis e as punições não seguem um padrão rígido, nem mesmo claro, a situação pode ficar fora de controle. Afinal, essa categoria tem o poder de estabelecer exemplos e padrões em vários setores do esporte, principalmente na ética de pilotagem.
O resultado completo do GP dos EUA em Austin você encontra aqui.
WG
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