Termo cunhado pelos americanos nas primeiras décadas de produção do automóvel, mais de um século atrás, o roadster nasceu nas pistas e logo ganhou adesão de fabricantes da época para versões de rua. Várias marcas trabalhavam esse tipo de produto: desde as de grande volume, como Ford e Austin, até as mais exclusivas, como Cadillac, Bugatti e Duesenberg. Isso no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial,
Aliás, antes de mais nada: o que é precisamente um roadster? De forma simples: um carro aberto, sem teto rígido e de dois lugares, embora os americanos chamassem historicamente os Indycars de motor dianteiro de roadsters, o que de certa forma confunde.
A partir de meados dos anos 1940, dá para afirmar que os grandes responsáveis pela disseminação global dos roadsters foram os britânicos. Mas não os únicos: o conceito é tão presente mundo afora naquele período que, vale lembrar, o surgimento da marca Porsche ocorreu em 1948 com o Tipo 356/1 — que era… adivinhe? Um roadster de motor central-traseiro.
Quanto aos britânicos, tinha-se no mesmo o MG TC como modelo mais acessível e o Jaguar XK120 como o mais sofisticado. Foram dois estrondosos sucessos de vendas. Diz-se até que a criação do Chevrolet Corvette é consequência direta do sucesso fulminante que o XK120 fez no mercado estadunidense. Outra “criatura” mítica surgida naquele período também era roadster: o inglês AC Ace, que mais tarde deu origem ao Shelby Cobra.
Frente ao sucesso da MG e do Jaguar, outras marcas europeias logo se interessaram em produzir seus exemplares. Destaque também para a Alfa Romeo — eu sempre falo delas quando posso –, que arrasava corações com o Duetto, lançado em 1966 e desenhada pelo estúdio Pininfarina. Os britânicos ainda teriam outros fenômenos de vendas, que seriam o MGA/MGB, o Morgan (fabricado até hoje), o Triumph Spitfire e o Lotus Elan nos anos seguintes.
A proliferação dos roadsters nas décadas de 60 e 70 pelo mundo inspirou os executivos das marcas instaladas no Brasil a lançarem seus exemplares: Willys Interlagos e VW Karmann-Ghia, ambos em versão conversível, foram os dois melhores exemplos, além de alguns foras-de-série: MP Lafer, feito à luz e imagem do MG TD de 1952 e, claro, o modelo de maior sucesso comercial entre todos os modelos descritos acima: Puma. A Lobini apareceria nos anos 2000 com o H1.
O período de ouro dos roadsters
Citei logo acima o Lotus Elan, certo? Pois seu maior legado — e que me perdoem os puristas — foi ter servido de inspiração (assumida historicamente) pelos designers do roadster mais importante da era moderna: o Mazda MX-5 (ou Miata), criado em 1989 e produzido até hoje também. Foi quando os japoneses entraram para valer nesse jogo. E, talvez pela primeira vez na história, as marcas ocidentais tiveram que se render a um produto nipônico e correrem atrás do prejuízo, visto que a ideia ali foi tentar popularizar esse tipo de carroceria com um modelo mais acessível.
O compacto modelo japonês foi um enorme sucesso de vendas. Ele teria 400 mil unidades vendidas na primeira geração, que foi até a metade da década de 90. Quando surgiu, ele dispunha de apenas 115 cv de potência, extraídos de um motor 1,6. Mas pesava somente 980 kg, o que lhe rendia um desempenho até satisfatório. O sucesso do Miata inspirou marcas europeias a olharem para o segmento dos roadsters com o inédito princípio da massificação.
Um dos exemplos mais marcantes foi o Fiat Barchetta, de 1995. Dá uma olhada como era bonitinho o tal do Barchetta. E era um Fiat, ora. Herdava a plataforma e a mecânica do Punto, com motor 1.8 de 131 cv. Pena nunca ter vindo para cá.
O conceito de popularização resvalou até no segmento premium, embora de um modo diferente. Estou falando de Audi, BMW e Mercedes-Benz. A ideia era prover modelos charmosos e esportivos dentro das respectivas lineups das marcas alemãs que fossem, de fato, mais em conta. E eram! Quem não podia adquirir um BMW M3 ou M5, ou ainda um Série 8, talvez pudesse comprar um Z3, lançado em 1995 e fabricado nos EUA na Carolina do Sul. No ano seguinte, com o mesmo propósito, estreou o Mercedes-Benz SLK, legítimo sucessor do hoje clássico 300 SL Roadster de 1957.. E ainda viria o Audi TT Roadster em 1999.

Também dá para incluir a Porsche nessa estratégia: o Boxster, lançado em sua primeira geração em 1996, abriu uma nova carteira de clientes para a marca, que não conseguiam alcançar o 911. Curiosamente, o Boxster foi tão importante que deu origem ao modelo Cayman, cupê criado nove anos depois. Você lembra de outro exemplo de algum roadster de origem que tenha gerado um filhote com teto rígido, em versão cupé? Geralmente é o contrário…
Outro modelo inesquecível desse período é o Honda S2000, que tinha, além da exuberância das linhas, uma receita mecânica espetacular: motor de 2 litros de 250 cv — aspiração atmosférica! —, câmbio manual de 6 marchas e tração traseira. Pouquíssimas unidades vieram ao Brasil. Foi criado em 1999.
O que sobrou?
Hoje esse é um exemplo de carroceria que praticamente desapareceu. Já dei minha opinião por aqui a respeito do porquê que alguns segmentos de veículos sucumbiram nos últimos vinte anos: tudo gira em torno da estagnação das vendas de carros no mundo há alguns anos, o que tira a ousadia das marcas nos lançamentos. Na dúvida… elas só produzem suve, sedã, hatch ou picape. E olhe lá.
São poucas as fabricantes atuais que ainda se arriscam a oferecer esses modelos tão especiais. Os roadsters são extremamente limitados na proposta, visto que a natureza desse tipo de veículo é extremamente egoísta: é só você e, no máximo, um passageiro. Carros de dois lugares, dadas as limitações óbvias, geralmente são destinados a consumidores mais endinheirados, que possuem outros carros tradicionais na garagem e adquirem o roadster como um brinquedo.
Por nunca serem vistos como “meios tradicionais de transporte” e por simbolizarem a questão do prazer ao dirigir como argumento principal, os roadsters sempre tiveram receitas mecânicas com motorizações mais animadinhas. Dificilmente você via algum modelo com pouca potência, ainda que o porte compacto, que pressupunha o entre-eixos curtinho, não permitia — ou não recomendava — cavalarias muito abusadas. Eles ficariam muito ariscos.
A faixa mais utilizada, pelo menos na época áurea desses modelos, costumava residir ali entre 120 e 250 cv. Hoje, com a larga utilização da eletrônica nos sistemas de transmissão e, principalmente, tração, há um remanescente dessa categoria que desenvolve potências até maiores, caso do Porsche 718 Boxster. São três versões à venda no Brasil: 718 Boxster (300 cv), 718 Boxster GTS (400 cv) e 718 Spyder RS (500 cv).
Além do Boxster, o único remanescente é justamente o Mazda MX-5/Miata. Ele mantém a “pegada” da acessibilidade: adota motor 2-litros de 183 cv, câmbio manual de 6 marchas, pesa apenas 1.003 kg e custa em torno de 35 mil euros. Para efeito de comparação, um VW Polo GTI (207 cv) sai por 43 mil euros. Para ser preciso: há um outro modelo, hoje, ainda produzido. E no Brasil: o charmosíssimo Chamonix (réplica de altíssimo nível do Porsche 356).
Dado o charme da exclusividade dos dois lugares e do vento no rosto, você ainda encontra, nos últimos anos, ilustres representantes na categoria do hypercars com versões roadster, como Lamborghini Aventador, LaFerrari, McLaren 720, Bugatti Veyron e Pagani Zonda. Mas isso é lá em cima.
Embora eu nunca tenha tido um roadster para meu uso, lamento vê-los desaparecer. Como o automóvel é uma máquina que representa paixão, no meu caso, o sumiço de novos exemplares é algo que me entristece. Consumidores, como eu, espalhados pelos quatro cantos do mundo têm opções cada vez mais escassas. Note que as três alemãs (Audi, BMW e Mercedes) mataram seus roadsters. Também não há mais os modelos italianos (Fiat ou Alfa). E os britânicos… nem as marcas, salvo Morgan, existem mais.
E você? Lembra de algum roadster importante que eu deixei escapar nesse apanhado?
EP
(Atualizada em 12/3/25 às 11h58, troca da foto de abertura)
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