Depois de quatro tentativas com resultados discretos, a GM finalmente parece ter encontrado o caminho para se firmar no segmento de carros elétricos no Brasil. O Spark EUV, que nasce como ano-modelo 2026, lançado por R$ 159.990, chega para ocupar o espaço que, de fato, faz sentido: o dos compactos acessíveis, com jeito de suve urbano, boa lista de equipamentos e alcance suficiente para o uso diário. Um movimento estratégico que, pela primeira vez, coloca a marca Chevrolet em condições reais de disputar volume em eletrificação.
No meu entendimento, a General Motors reforçou ainda mais esse compromisso: Santiago Chamorro, presidente para GM para a América do Sul, anunciou que até o final do ano o Spark EUV será produzido em formato SKD (semidesmontado) na antiga fábrica da Troller em Horizonte, CE.
Os subconjuntos virão da China, com uma curva de aceleração na localização de componentes, e a fábrica terá capacidade para montar cerca de 1.800 unidades por ano. É um passo importante para dar mais competitividade ao modelo e mostrar que a marca enxerga o Brasil como mercado estratégico para a eletrificação.

As lições dos lançamentos anteriores
Vale lembrar o histórico. O Bolt EV e o Bolt EUV chegaram em volumes limitados, e este último foi lançado aqui quando a matriz já havia anunciado o fim da sua produção, minando qualquer chance de criar confiança no consumidor. Mais recentemente, os Equinox EV e Blazer EV tentaram atacar o topo, com preços acima de R$ 400 mil. A estratégia esbarrou em dois obstáculos óbvios: a rede Chevrolet no Brasil já não tem tradição em vender veículos premium há muito tempo (desde o fim do Omega australiano), e o cliente disposto a gastar esse valor geralmente prefere marcas já consolidadas nesse território. Resultado: vendas muito abaixo de qualquer expectativa.
Com o Spark EUV, acredito que a história possa mudar. Estamos diante de um produto que conversa diretamente com o consumidor típico da marca: aquele que procura um carro versátil, urbano, com bom custo-benefício. Não é à toa que a GM o chama de “primeiro suve elétrico acessível e inteligente do Brasil”.

Projeto pensado para EVs
O Spark EUV foi desenvolvido sobre uma arquitetura própria para elétricos, e isso faz diferença. O carro mede 4.003 mm de comprimento, 1.760 mm de largura e 1.726 mm de altura, com entre-eixos de 2.560 mm. Apesar de compacto, aproveita muito bem o espaço interno: 67% do volume total da carroceria está disponível para passageiros e bagagem, índice acima da média de hatches equivalentes.

Outro ponto forte está na robustez estrutural. Segundo a engenharia da GM, a carroceria utiliza 72% de aços de alta resistência, incluindo peças moldadas a quente, resultando em maior rigidez e proteção dos ocupantes. O peso total de 1.345 kg é bem distribuído entre os eixos (50:50), o que contribui para estabilidade e confiança ao dirigir.
Arquitetura e origem chinesa
É importante destacar que o Spark EUV não é um projeto da GM brasileira ou mesmo americana. O carro tem origem chinesa: trata-se de uma versão renomeada do Baojun Yep Plus, desenvolvido pela joint venture SAIC–GM–Wuling e produzido na China para o mercado asiático. A GM adota o modelo em outros países sob marca Chevrolet como parte de uma estratégia de expansão.

A escolha de trazer o Yep Plus sob o nome Spark EUV faz sentido, pois apesar de não ser um nome conhecido dos brasileiros, é um nome importante em outros mercados da América Latina. É um produto já validado na Ásia, com boa reputação de robustez urbana, e que chega com ajustes de equipamentos e acabamento para dialogar com o consumidor local. Talvez a penalização possa vir da falta de um refino maior da suspensão e direção para nosso gosto. A conferir!

Essa transparência ajuda a entender o posicionamento do Spark: não é um projeto de “primeira linha global” da Chevrolet, mas sim um carro chinês com selo GM, pensado para ganhar escala em mercados emergentes e uso urbano. A diferença é que, ao contrário do que aconteceu com o Bolt, aqui a marca acertou no alvo de preço e segmento.

Espaço e praticidade
Um dos diferenciadores mais relevantes do Spark EUV frente aos rivais está na capacidade de carga. Ele oferece 355 litros no porta-malas traseiro, que pode chegar a 916 litros com os bancos rebatidos, além de um porta-malas dianteiro de 35 litros. Nenhum outro carro do segmento entrega essa combinação de espaço, especialmente considerando que muitos concorrentes elétricos compactos sacrificam bagagem em função da bateria.

O teto alto melhora a ergonomia e a sensação de espaço, enquanto o assoalho plano favorece o conforto dos quatro ocupantes. É um carro claramente voltado ao uso de um ou dois passageiros, mas que consegue atender bem situações de família.
Clique na foto para abrir e ler a legenda
Mecânica e desempenho
O motor dianteiro é um elétrico síncrono de 101 cv e 18,4 m·kgf. Pode parecer modesto no papel, mas o torque imediato deve garantir respostas ágeis no trânsito urbano. Na prática, o desempenho é comparável ao de um 1,0 turbo flex moderno: o Spark acelera de 0 a 100 km/h em 11,2 segundos e chega a 150 km/h de velocidade máxima. Segundo a GM é mais que suficiente para o uso a que se propõe. Precisamos ver se os consumidores aceitarão essa proposta urbana.

A bateria é do tipo LFP (lítio-ferro-fosfato) com 42 kW·h de capacidade e arrefecimento a líquido. O ciclo Inmetro registra 258 km de alcance, o que pela minha experiência pode alcançar 300 km em uso urbano. Novamente um compromisso entre oferecer capacidade de bagagem maior e alcance inferior à concorrência. A garantia da bateria é de 8 anos ou 160 mil km.

Na recarga, o Spark aceita 6,6 kW em corrente alternada (AC) e até 50 kW em corrente contínua (DC), permitindo ir de 30% a 80% em 35 minutos. É um padrão adequado se considerarmos o uso urbano que o fabricante destaca, porém há rivais que já aceitam potências de 60, 80 até 100 kW. Ainda assim, para o perfil de cliente esperado, que carregará em casa ou em pontos públicos urbanos, dificilmente será uma grave limitação.

Eficiência e custo de uso
A GM estima que o Spark EUV pode rodar o equivalente a 50 km/l de gasolina na cidade, com custo de energia elétrica até 25% daquele de um carro a combustão. Somando-se isso a revisões simplificadas (sem óleo, filtros ou escapamento), o custo de propriedade se torna um bom atrativo do modelo.
Outro detalhe interessante é a chamada “caixa-preta da bateria”, que registra o histórico de uso e a saúde do conjunto, permitindo inspeções oficiais e aumentando a confiança na revenda futura. É um recurso ainda raro entre EVs vendidos no Brasil.

Tecnologia e segurança
O pacote de equipamentos é bom para essa faixa de preço. De série, traz:
- Seis bolsas infláveis, controle de estabilidade e câmera 360°.
- Chevrolet Intelligent Driving, sistema de assistência avançado que inclui controle de cruzeiro que diminui automaticamente a velocidade nas curvas, centralização na faixa, alerta e inibição de saída involuntária e frenagem autônoma de emergência.
- Quadro de instrumentos digital de 8,8” e multimídia de 10,1” com Android Auto e Apple CarPlay sem fio.
- Recursos de comodidade como Smart Welcome (que reconhece a aproximação do motorista e prepara o carro), modos de condução (Eco, Normal e Esporte) e até funções curiosas no ar-condicionado, como o modo chuva (para evitar embaçamento) e o modo eliminação de odores.

Outro destaque é o Modo DJ, que permite acessar rádios do mundo todo e streamings de música diretamente na central, com uma interface gráfica que simula um disco de vinil girando. Um detalhe divertido que aproxima o carro de um público mais jovem.
Clique na foto para abrir e ler a legenda
Comparações no mercado
O Spark EUV estreia em uma faixa de preço onde há competição acirrada. Vamos olhar para dois grupos de rivais:
- Elétricos diretos
- BYD Dolphin: na versão de entrada R$149 mil), traz bateria um pouco maior (~44 kW·h) e alcance de cerca de 291 km. A versão Plus (60 kW·h, 330 km de alcance) já passa dos R$ 180 mil. O Dolphin entrega mais alcance, mas perde em versatilidade interna: não tem porta-malas dianteiro e o porta-malas é menor.
- GWM Ora 03: outro hatch elétrico compacto, também com baterias de maior capacidade. Porém, a proposta é mais “hatch premium” do que “suve urbano”.
Aqui o Spark aposta no formato suve, maior espaço interno e lista de equipamentos para se diferenciar. Ele não ganha no alcance, mas pode ganhar na usabilidade.
- SUVs compactos a combustão
Na mesma faixa de preço, encontramos Nissan Kicks, Fiat Pulse e VW Nivus em versões mais equipadas, além de opções semi-híbridas . Frente a eles, o Spark EUV é mais caro de adquirir, mas entrega custo por km menor e pacotes de assistência ao motorista mais completos. A desvantagem é o alcance em viagem: os rivais a combustão ainda oferecem liberdade para longos percursos sem depender de infraestrutura de recarga.

Rede de suporte e confiança
A Chevrolet já conta com mais de 130 concessionárias habilitadas para EVs no Brasil, número que deve crescer. Além disso, a marca oferece o EV Live, canal que conecta clientes a especialistas em tempo real, e o MyChevrolet Charging App, que mapeia pontos de recarga e permite até reservar estações rápidas. Essa infraestrutura de apoio faz diferença para quem ainda tem receio de dar o primeiro passo no mundo elétrico.
Com a produção em formato SKD no Ceará, a GM reforça ainda mais essa rede: peças, treinamento e logística terão base nacional, facilitando assistência e reduzindo a dependência de importações diretas. Mesmo que em escala inicial limitada (1,8 mil carros/ano), o movimento sinaliza que o Spark não será apenas um produto “de vitrine”, mas parte de uma estratégia mais duradoura.

Conclusão: agora vai?
O Spark EUV representa a mudança de rota que a GM precisava. Em vez de tentar impor elétricos caros em segmentos onde a marca deixou de ter tradição, a GM volta ao básico: oferecer um produto de massa, com preço competitivo, espaço inteligente e pacote de tecnologia superior.
Mas ainda faltou um período de garantia mais amplo, três anos para o carro pode não ser o melhor argumento de vendas.
Clique na foto para abrir e ler a legenda
Sim, o alcance de 258 km pode parecer modesto diante de rivais com baterias maiores, e a recarga de até 50 kW não é a mais rápida da categoria. Mas para o uso urbano e extraurbano, que é a realidade da grande maioria dos motoristas brasileiros, o conjunto pode fazer sentido.

O fato de ser um carro de origem chinesa, fruto da parceria GM–SAIC–Wuling, não diminui seu valor. Ao contrário, mostra o pragmatismo da estratégia da GM em adotar plataformas já testadas, adaptando-as a mercados onde o custo é determinante. Com a produção em formato SKD no Ceará, o Spark ganha ainda mais legitimidade local, com suporte técnico e logístico reforçado.
Se o público abraçar o Spark EUV, a GM terá encontrado seu “caminho das pedras” na eletrificação nacional, e este pode ser o primeiro elétrico da marca a realmente ganhar escala por aqui.
GB
| Ficha técnica resumida – Chevrolet Spark EUV 2026 | |
| Motor Elétrico | |
| Potência Máxima | 101 cv |
| Torque Máximo | 18,4 kgfm |
| Tração | Dianteira |
| Bateria | |
| Capacidade | 42 kW·.h |
| Alcance (Inmetro | 258 km |
| Garantia da Bateria | 8 anos ou 160.000 Km |
| Recarga | |
| Carregamento AC | 6,6 kW |
| Carregamento DC | 50 kW |
| Tempo de Carregamento (30% a 80%, DC) | 35 minutos |
| Desempenho | |
| 0 a 100 km/h | 11,2 s |
| Velocidade máxima | 150 km/h |
| Dimensões e Pesos | |
| Comprimento total | 4.003 mm |
| Distância entre eixos | 2.560 mm |
| Porta-malas | 355 litros |
| Peso (em ordem de marcha) | 1.345 Kg |
| Suspensão | |
| Dianteira | Inependente McPherson, |
| Traseira | Eixo de torção |
| Freios | |
| Sistema | ABS, com ESC e freio de estacionamento eletromcânico |
| Dianteiros e traseiros | Disco |
| Rodas e Pneus | |
| Rodas | liga sw alumínio, 8J x 16l |
| Pneus | 205/60 R16 |
| Garantia | |
| Garantia (carro) | 3 anos |





