Imagine um Fusca circulando em alta velocidade por uma parede vertical de madeira, com o motorista praticamente deitado de lado em relação ao chão e o público acompanhando tudo do alto da estrutura. Não se trata de uma montagem cinematográfica, mas de uma apresentação circense que realmente aconteceu, inclusive no Brasil.
A foto de abertura mostra o “Fusca de Circo” em plena ação, trata-se de um recriação por IA.
O protagonista dessa história é um Volkswagen fabricado em junho de 1946, na Alemanha, quando a produção em Wolfsburg procurava se recuperar dos efeitos da Segunda Guerra Mundial. Um automóvel que, apenas dois anos depois de sair da fábrica, abandonaria sua função de meio de transporte para se transformar numa atração de circo.
O mais surpreendente é que ele sobreviveu. Depois de trabalhar durante décadas, passar por um longo período de paradeiro desconhecido e acabar abandonado num terreno no interior paulista, foi redescoberto e restaurado. Hoje, conserva a aparência que tinha quando participava daqueles espetáculos, primeiro na Alemanha e depois no Brasil.
Um Fusca dos primeiros tempos do pós-guerra
Para compreender a importância desse automóvel, precisamos voltar a 1945. A Alemanha havia acabado de perder a guerra e a fábrica da Volkswagen, em Wolfsburg, estava parcialmente destruída. Sob administração militar britânica, a produção de automóveis foi retomada ainda naquele ano, inicialmente em condições bastante difíceis.

Faltavam matérias-primas, equipamentos e até condições adequadas de trabalho. A fábrica era praticamente uma ruína de guerra, vítima dos intensos bombardeios dos Aliados1. E havia motivos para isso. Durante o conflito, o complexo industrial de Fallersleben, posteriormente Wolfsburg, havia participado da produção de armamentos, incluindo componentes das bombas voadoras V-1, peças para aviões e minas terrestres.
A fabricação de automóveis de passeio representava apenas uma pequena parte das atividades. Entre os veículos produzidos estavam principalmente os utilitários militares com mecânica Volkswagen, como o Kübelwagen e o anfíbio Schwimmwagen, além de poucos sedãs, quase todos destinados ao uso militar.
Mesmo diante dessas dificuldades, a produção civil foi retomada e começou a crescer.
Foi nesse ambiente que nasceu nosso personagem, em junho de 1946. Ele tinha sido originalmente designado para servir as forças de ocupação britânicas.
Segundo informações divulgadas por seu atual proprietário, André Beldi, o número do chassi permitiu confirmar a data de fabricação junto a uma instituição alemã ligada à história da Volkswagen. O carro estaria entre os primeiros quatro mil exemplares produzidos após o conflito.
É importante lembrar que o Fusca daquela época era bastante diferente dos modelos que os brasileiros conheceriam anos depois. Seu motor boxer de quatro cilindros, arrefecido a ar, tinha 1.131 cm³ e 25 cv. O para-brisa era pequeno e o vidro traseiro era formado por duas janelinhas, características dos modelos conhecidos como Split Window (janela dividida).
A velocidade máxima de um Fusca convencional desse período era 100 km/h. Entretanto, também existiam sedãs que utilizavam a plataforma do jipe militar leve Kübelwagen, conhecidos como Tipo 51. Devido aos redutores nas rodas traseiras, esses veículos alcançavam apenas cerca de 80 km/h, em compensação oferecendo maior capacidade de tração e distância livre do solo.
De qualquer maneira, nosso Fusca não permaneceria muito tempo com sua carroceria original.
De Volkswagen do pós-guerra a atração circense
Em 1948, apenas dois anos depois de sua fabricação, o Fusca foi adquirido por uma equipe circense alemã e submetido a uma transformação radical.
A carroceria foi recortada, as portas e os para-lamas desapareceram e o automóvel teve seu comprimento reduzido. O resultado lembrava um pequeno veículo esportivo aberto, com as rodas expostas e uma estrutura muito mais leve do que a de um Fusca convencional.

O objetivo não era melhorar seu desempenho nas estradas, mas prepará-lo para um espetáculo bastante popular na época: a chamada parede da morte.
Diferentemente do conhecido globo da morte, formado por uma estrutura metálica esférica, a parede da morte utiliza uma pista circular de madeira. Na parte inferior existe uma rampa inclinada que permite ao veículo ganhar velocidade e subir progressivamente até alcançar a parede vertical.
Uma vez lá em cima, o piloto continua circulando horizontalmente, enquanto os espectadores acompanham as manobras do alto da estrutura.
As fotografias históricas mostram que o Fusca realmente participou desse tipo de apresentação. Em algumas imagens, aparece dividindo a pista com uma motocicleta, tornando o espetáculo ainda mais impressionante.

Segundo os relatos divulgados em 2019, apesar das alterações na carroceria, o automóvel manteve sua mecânica original.
É uma informação interessante, pois demonstra que não foi necessário instalar um motor de grande potência para realizar aquelas manobras.
Como um Fusca conseguia andar numa parede vertical?
A explicação está nas leis da física.
Quando o automóvel percorre uma trajetória circular, precisa de uma força dirigida para o centro da pista, chamada força centrípeta. Essa força é exercida pela parede sobre os pneus.
Quanto maior a velocidade, maior a pressão dos pneus contra a parede. Essa pressão permite que o atrito entre a borracha e a madeira sustente o peso do automóvel, impedindo que ele escorregue para baixo.
Podemos fazer um cálculo aproximado para compreender o fenômeno.
Considerando uma pista hipotética de 10 metros de diâmetro e um coeficiente de atrito de 0,7 entre os pneus e a madeira, a velocidade mínima teórica para manter o automóvel na parede vertical seria de aproximadamente 30 km/h. Essa velocidade depende do diâmetro da pista: quanto maior ele for, maior será a velocidade necessária para sustentar o automóvel na parede.
Naturalmente, essa velocidade não representa uma condição segura de apresentação. O piloto precisava trabalhar com uma margem adicional, levando em consideração as condições da madeira, dos pneus e da própria pista.
Mas o cálculo demonstra algo curioso: mesmo um Fusca com apenas 25 cv poderia realizar a manobra, desde que conseguisse manter a velocidade necessária.

Outra particularidade é que, nesse cálculo simplificado, a massa do veículo não altera a velocidade mínima. O peso maior aumenta a força necessária para sustentá-lo, mas também aumenta proporcionalmente a força normal exercida pela parede.
Portanto, o espetáculo dependia muito mais da velocidade, da aderência e da habilidade do piloto do que de uma potência extraordinária.
As inscrições que contam uma história
Um detalhe especialmente interessante aparece nas fotografias antigas do Fusca.
Na parte dianteira da carroceria está escrito, em alemão, “Sensationen an der Autosteilwand”, expressão que podemos traduzir como “Emoções na parede vertical automobilística”.

A inscrição descrevia exatamente a atração apresentada ao público. Na parte traseira aparece outro texto: “Heinz Frickenschmidt – Osnabrück”.
O nome identifica uma pessoa ligada ao espetáculo, possivelmente seu responsável ou proprietário, embora ainda não tenhamos documentação suficiente para determinar sua função exata.
Já Osnabrück é uma cidade do norte da Alemanha, na Baixa Saxônia. Curiosamente, é também a cidade onde estava instalada a tradicional encarroçadora Karmann, que posteriormente fabricaria o conhecido VW Karmann-Ghia.
Não há evidências de qualquer ligação entre a Karmann e o Fusca circense. Trata-se apenas de uma interessante coincidência geográfica.
O mais importante, entretanto, é que essas inscrições sobreviveram à passagem do tempo de uma maneira especial.
Durante a restauração, André Beldi decidiu reproduzir os dizeres originais em alemão, respeitando a aparência registrada nas fotografias históricas. Esse cuidado também se refletiu na escolha da pintura cinza, a mesma cor que o automóvel apresentava durante suas atividades circenses na Alemanha.
Assim, o Fusca que podemos observar hoje no Brasil conserva visualmente a identidade do automóvel que percorria as paredes verticais dos circos alemães.
O espetáculo chega ao Brasil
Em 1951, este Fusca atravessou o Atlântico. Segundo o relato de André Beldi, um capitão alemão ligado ao espetáculo trouxe o automóvel para o Brasil, juntamente com a estrutura utilizada nas apresentações.

É interessante observar que isso aconteceu numa época em que o Fusca ainda era uma novidade em nosso país. As primeiras importações comerciais haviam começado pouco antes, em 1950, e a montagem na forma de CKD (Completely Knocked Down, completamente desmontado) começou em 1951, pela Brasmotor, em São Bernardo do Campo. Já a fabricação nacional só teria início em 1959, pela própria Volkswagen.
Enquanto os primeiros Volkswagen começavam a circular pelas ruas brasileiras, aquele exemplar de 1946 já possuía uma história completamente diferente.
Ele não transportava uma família nem servia como veículo de trabalho convencional. Sua função era proporcionar emoções ao público, circulando pelas paredes de madeira de uma arena.
As apresentações continuaram no Brasil até a década de 1970, segundo as informações recuperadas pelo atual proprietário.
Infelizmente, ainda não conhecemos com precisão as cidades percorridas pelo espetáculo, o nome da companhia circense ou as circunstâncias que levaram ao encerramento das apresentações.
Depois disso, o Fusca desapareceu de cena. Durante várias décadas, seu paradeiro permaneceu desconhecido.
Uma descoberta inesperada em Taubaté
A história só voltou a ganhar um novo capítulo em 2016. Naquele ano, o colecionador André Beldi, de Sorocaba, encontrou um estranho Volkswagen abandonado num terreno em Taubaté, no interior de São Paulo.
À primeira vista, o automóvel não parecia ter grande valor histórico. Sua carroceria profundamente modificada lembrava um bugue improvisado, bastante distante das linhas tradicionais de um Fusca.
Mas um pequeno detalhe chamou a atenção do colecionador. O emblema Volkswagen apresentava um desenho antigo, com uma engrenagem envolvendo as letras VW, característica associada aos primeiros tempos da marca.
Era o logotipo2 utilizado pela fábrica naquela época, com as letras VW envolvidas por uma roda dentada. Esse desenho remetia à DAF (Deutsche Arbeitsfront, Frente Alemã do Trabalho), organização criada pelo regime nacional-socialista em substituição aos sindicatos independentes. Esta instituição acabou financiando tanto a conclusão do projeto como a construção da primeira fase da fábrica.

O símbolo aparecia em diferentes componentes dos Volkswagen produzidos durante aquele período e ainda podia ser encontrado em veículos fabricados logo após a guerra, quando nem todos os elementos associados ao regime anterior haviam sido eliminados.
Aquilo despertou a curiosidade de André. Ele anotou o número do chassi e iniciou uma pesquisa para descobrir a origem do veículo. A investigação revelou que se tratava de um exemplar fabricado em junho de 1946.
A descoberta já seria extraordinária por si só. Mas ainda faltava compreender por que um Fusca tão antigo apresentava uma carroceria tão diferente.
Com a ajuda de pesquisadores e contatos na Alemanha, André conseguiu reconstruir parte da trajetória do automóvel e localizar familiares de uma pessoa ligada ao antigo espetáculo.

Esses contatos permitiram recuperar fotografias históricas do Fusca durante suas apresentações, tanto na Alemanha quanto no Brasil.
De repente, aquele estranho veículo abandonado ganhou uma identidade e uma história que poucos automóveis conseguem reunir.
Restaurar ou preservar?
A recuperação do Fusca apresentou um dilema pouco comum.
André possuía uma carroceria Volkswagen do final dos anos 1940 e chegou a considerar a possibilidade de devolver ao automóvel sua aparência original de fábrica.
Seria uma solução compreensível. Afinal, um Fusca de 1946, restaurado em sua configuração convencional, já representaria uma raridade importante no Brasil.
Mas havia outra questão. A transformação circense tinha sido realizada em 1948, quando o automóvel possuía apenas dois anos de uso. Portanto, fazia parte de sua história havia muito mais tempo do que a própria carroceria original.
Eliminar aquelas modificações significaria apagar justamente o período que tornou o carro tão especial.
A decisão foi preservar sua configuração circense, reproduzindo a aparência documentada nas fotografias antigas.
Em agosto de 2019, o Fusca foi apresentado ao público durante o 1º Encontro de Clássicos Volkswagen, realizado em Águas de Lindoia, no interior paulista.
Na ocasião, André afirmou que o automóvel conservava o chassi e a mecânica originais e permanecia em condições de funcionamento. Segundo ele, o carro faria inclusive o percurso até o encontro rodando.
Também o apresentou como o Fusca mais antigo do Brasil, uma afirmação que ganhou destaque nas reportagens da época, embora não tenhamos elementos suficientes para estabelecer definitivamente esse recorde.
Há também histórias sobre Fuscas que teriam sido trazidos ao Brasil por alemães que aqui chegaram nas décadas de 1940 e início de 1950, acompanhando seus proprietários sem deixar registros oficiais conhecidos. Quem sabe algum desses antigos visitantes alemães ainda apareça para contar sua história?
Uma história que merecia sobreviver
A trajetória desse Volkswagen mostra como o valor histórico de um automóvel nem sempre está relacionado à preservação de sua configuração original de fábrica.
Fabricado em 1946, transformado em 1948, trazido ao Brasil em 1951 e redescoberto em 2016, ele passou por diferentes fases que, juntas, construíram sua identidade.
Hoje, sua carroceria recortada, suas rodas expostas e suas inscrições alemãs contam uma história que um Fusca convencional, mesmo perfeitamente restaurado, não poderia contar.
A decisão de André Beldi de preservar essas características permitiu que uma pequena parte da história dos espetáculos circenses continuasse existindo sobre quatro rodas.
E pensar que tudo isso quase terminou perdido num terreno abandonado em Taubaté.
E como falar de circo é também recordar a infância, a coluna “Falando de Fusca & Afins” aproveita este 12 de outubro para desejar um feliz Dia das Crianças a todas as crianças brasileiras!
Nesta data, em que também se celebra o Dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, deixamos nossa saudação a todos os que comemoram essa importante festividade da tradição católica brasileira.
Notas de Rodapé
(1) – Matéria com detalhes: Bombardeios na fábrica Volkswagen na ll Guerra Mundial
(2) – Matéria com detalhes: A história do logotipo VW
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