Aqui na coluna “Falando de Fusca & Afins” já tivemos oportunidade de conhecer diferentes interpretações modernas de clássicos da Volkswagen. Passaram por aqui a curiosa réplica do Kombi produzida pela empresa austríaca Palten¹, o polêmico Ora Punk Cat², da fabricante chinesa GWM, claramente inspirado no VW Fusca, e a réplica espanhola do VW Fusca produzida pela Orix³, dentre outras. Cada um desses veículos foi concebido com objetivos bastante diferentes, seja para homenagear um clássico, reinterpretá-lo ou simplesmente explorar seu enorme apelo visual.

Nesta semana, porém, vamos conhecer uma proposta completamente diferente. Em vez de desenvolver um automóvel moderno inspirado no Fusca ou no Kombi, uma empresa chinesa decidiu produzir veículos elétricos extremamente simples, destinados a um mercado bastante específico: eventos, atrações turísticas, hotéis, parques temáticos, ações promocionais e pequenos negócios como food trucks e lojas volantes.

A responsável por esses curiosos veículos é a Wecan (Qingdao Wecan Imp. & Exp. Co., Ltd.), sediada na cidade de Qingdao, na província chinesa de Shandong. Seu catálogo reúne reboques, trailers, food trucks e diversos veículos retrô construídos em compósito de fibra de vidro, inspirados em modelos bastante conhecidos, como o VW Fusca, o VW Kombi T1 e o VW Kombi T2, o Citroën Type H e o utilitário italiano Piaggio Ape.
Entre esses modelos chamam a atenção duas réplicas que interessam particularmente aos leitores desta coluna: um VW Fusca e um Kombi T1 movidos por motores elétricos de baixa potência. Construídos com carrocerias monobloco em resina plástica reforçada com fibra de vidro, chassi tubular de aço, utilizam baterias de chumbo-ácido, atingem cerca de 35 km/h e oferecem alcance aproximada de 80 quilômetros por carga.
Não foram concebidos para o uso rodoviário convencional, mas para percursos curtos e aplicações muito específicas, como transporte de noivos em casamentos, veículos de apoio em resorts, atrações turísticas, vitrines promocionais e pequenas operações comerciais.
Essas curiosas réplicas são oferecidas pela Wecan por preços que variam entre 5.800 e 8.500 dolares americanos, valores FOB (Free on Board) porto chinês, isto é, com o veículo entregue a bordo do navio no porto de embarque na China. Sobre esse preço ainda incidem frete marítimo, seguro, impostos de importação e demais despesas até o destino final.
À primeira vista, pode parecer um valor elevado para um veículo com acabamento tão simples. Por outro lado, basta lembrar quanto custaria reunir, individualmente, uma carroceria completa de VW Fusca de chapa de aço em bom estado. Muito provavelmente, somente as chapas originais usadas — capô, portas, para-lamas, teto, tampa do motor e demais componentes — já ultrapassariam esse valor e, diferentemente da réplica da Wecan, ainda poderiam apresentar corrosão, amassados e necessidade de restauração.
À primeira vista, tanto o VW Fusca quanto o Kombi da Wecan podem causar estranheza. O acabamento é bastante simples e diversos detalhes revelam soluções construtivas incomuns. Ainda assim, esses curiosos veículos cumprem exatamente a função para a qual foram concebidos e demonstram, mais uma vez, como o desenho criado pela Volkswagen continua sendo imediatamente reconhecido em qualquer parte do mundo, mesmo quando reinterpretado de maneira bastante livre.
O VW Fusca e o Kombi nunca foram produzidos nem comercializados oficialmente na China, ao contrário do que aconteceu em dezenas de outros países. Ainda assim, é difícil imaginar que um automóvel tão famoso tenha passado completamente despercebido por uma sociedade cada vez mais conectada ao restante do mundo. Afinal, o Fusca tornou-se um dos maiores ícones da cultura automobilística do século XX.

Isso leva naturalmente a uma pergunta interessante: essas curiosas réplicas foram concebidas exclusivamente para exportação ou existe também um mercado consumidor dentro da própria China para pequenos veículos elétricos inspirados no VW Fusca?
Curiosamente, essa conjectura me fez recordar minha primeira viagem à China, em 1990. Hospedado no Hotel Lido, em Pequim, deparei-me com um VW Fusca no estacionamento do hotel, utilizado principalmente por visitantes estrangeiros. Naquela época, encontrar um Fusca na China era algo absolutamente inesperado.
Não resisti: fiz questão de registrar o momento em uma fotografia que, mais de três décadas depois, acabou ganhando um significado especial. O carro provavelmente pertencia a algum diplomata ou estrangeiro residente no país, pois o VW Fusca jamais fez parte da paisagem automobilística chinesa como aconteceu em tantos outros lugares do mundo.
Um raio-x da réplica do VW Fusca
À primeira vista, a réplica da Wecan consegue transmitir imediatamente a imagem de um VW Fusca. Basta um olhar para reconhecer sua silhueta. Entretanto, uma observação um pouco mais cuidadosa revela uma série de detalhes bastante curiosos, muitos deles resultado da forma simplificada como a carroceria foi concebida e construída.
Embora inspirada visualmente no modelo alemão do final da década de 1960, a réplica mistura características de diferentes anos de fabricação e apresenta soluções que dificilmente passariam despercebidas aos olhos de um fã do VW Fusca.
Para-choques. Os para-choques parecem ter sido moldados a partir dos utilizados nos Fuscas mexicanos produzidos entre meados da década de 1970 e o início dos anos 2000. Um detalhe curioso é que permanecem visíveis as marcações correspondentes às aberturas destinadas às lanternas direcionais incorporadas nesses modelos, embora elas nunca tenham sido efetivamente utilizadas na peça da Wecan.

Além disso, os para-choques foram instalados alguns centímetros abaixo da posição correta, alterando sensivelmente a aparência do automóvel.
Lanternas dianteiras. Nem todas as unidades utilizam o mesmo conjunto de iluminação. Algumas recebem lanternas instaladas sobre os para-lamas, lembrando os Fuscas clássicos, enquanto outras utilizam pequenas lanternas laterais fixadas mais abaixo, sugerindo que a Wecan emprega diferentes componentes conforme a disponibilidade. Há ainda exemplares em que essas lanternas simplesmente não existem.

Espelhos retrovisores. Os espelhos retrovisores laterais também chamam bastante a atenção. Além de serem mais altos em relação às proporções do carro, apresentam um formato volumoso, acabamento numa tonalidade escura pouco harmoniosa e uma posição de montagem completamente diferente da adotada nos VW Fuscas originais.

Enquanto nos Fuscas produzidos pela Volkswagen os retrovisores ficam elegantemente fixados junto à base das portas, quase acompanhando a linha da janela, na réplica da Wecan eles parecem ter sido simplesmente adaptados ao projeto, resultando num conjunto visual desproporcional. É um daqueles detalhes que dificilmente passariam despercebidos por qualquer conhecedor do modelo.
Ausência dos estribos. Outro detalhe facilmente percebido é a ausência completa dos tradicionais estribos, elemento característico da carroceria do VW Fusca desde seu lançamento.

Sua eliminação simplifica bastante a construção da carroceria em compósito de fibra de vidro, mas modifica significativamente o perfil lateral do veículo.
Moldura dos faróis. As molduras cromadas dos faróis reproduzem razoavelmente as originais, embora apresentem uma diferença sutil. Nos Fuscas produzidos pela Volkswagen elas possuem espessura variável, tornando-se mais estreitas na parte inferior. Na réplica chinesa, ao contrário, a espessura permanece praticamente constante em toda a circunferência.

É um daqueles detalhes quase imperceptíveis para o público em geral, mas imediatamente reconhecido pelos apreciadores do modelo.
Lanternas traseiras. Na parte traseira aparece uma das curiosidades mais interessantes.
Os moldes dos para-lamas parecem ter sido obtidos a partir de um Fusca fabricado a partir de 1973, originalmente equipado com as grandes lanternas conhecidas entre os brasileiros como “Fafá4” e no estrangeiro como “Pata de Elefante”.

As aberturas dessas lanternas continuam claramente marcadas na plastico da carroceria, embora a Wecan utilize pequenas lanternas de desenho inspirado no Ford Model A, completamente diferentes das previstas pelo molde original.
Tampa do motor. A tampa traseira também denuncia sua origem.
O molde conserva o rebaixo destinado à iluminação da placa existente nos Fuscas originais —porém a luz de placa desapareceu. Desaparecem completamente as tradicionais grelhas de ventilação, obviamente desnecessárias num veículo equipado com motor elétrico.
Também “desapareceu” a grelha de saída de ar principal que fica entre a base da janela traseira e a tampa do motor
Maçanetas. As maçanetas merecem um comentário à parte.

Enquanto as utilizadas pela Volkswagen sempre apresentaram desenho relativamente discreto, as instaladas pela Wecan possuem dimensões exageradas e lembram ferragens utilizadas em portões ou portas industriais.
Outro detalhe que chama a atenção é a manopla de abertura do capô dianteiro. Muito maior do que a utilizada nos Fuscas originais, ela parece ter sido escolhida muito mais pela facilidade de obtenção do que pela fidelidade histórica. É provável que a Wecan tenha recorrido a algum componente já disponível em seu mercado fornecedor.

Chama a atenção a ausência visível da manopla de abertura da tampa traseira. Nas fotografias divulgadas pela Wecan ela simplesmente não aparece. Não é possível saber se o mecanismo ainda não havia sido instalado no veículo fotografado, se foi ocultado deliberadamente ou se a abertura é feita por algum sistema interno. Em qualquer das hipóteses, trata-se de mais uma diferença em relação ao projeto original do VW Fusca.
Carroceria em uma só peça. Outro aspecto curioso é que os para-lamas dianteiros parecem fazer parte de uma única peça moldada juntamente com a dianteira da carroceria.
No Fusca verdadeiro, ao contrário, para-lamas, frente e demais painéis sempre foram componentes independentes, aparafusados entre si.
Essa solução simplifica enormemente a fabricação da réplica, embora elimine uma das características construtivas mais tradicionais do projeto Volkswagen.
Vidros laterais dianteiros. Os quebra-ventos parecem existir apenas visualmente.

Na realidade trata-se apenas de uma linha preta impressa sobre o vidro lateral, simulando a divisão existente nos Fuscas originais. Aparece só como um “efeito cinematográfico”.
Dobradiças. Talvez o detalhe mais surpreendente seja encontrado nas dobradiças das portas.
Em vez das tradicionais dobradiças estampadas utilizadas pela Volkswagen, a Wecan emprega componentes extremamente simples, semelhantes às dobradiças encontradas em portões residenciais.
É uma solução funcional, embora bastante distante do refinamento do projeto original.
Resumindo. Apesar de todas essas simplificações, ou talvez justamente por causa delas, existe um certo charme nessas curiosas réplicas chinesas. Elas jamais pretenderam substituir um VW Fusca verdadeiro nem disputar espaço com automóveis de coleção. Foram concebidas para cumprir uma função muito específica, privilegiando o baixo custo de fabricação e a facilidade de manutenção. E, curiosamente, mesmo reunindo tantas “licenças poéticas” em relação ao projeto original, continuam sendo imediatamente reconhecidas como um Fusca por praticamente qualquer pessoa.

Fica aqui um convite aos leitores e leitoras. Esta análise procurou destacar as diferenças mais evidentes entre a réplica chinesa e um VW Fusca original. Entretanto, é bem possível que outras peculiaridades tenham passado despercebidas. Se você identificar algum detalhe interessante, compartilhe-o nos comentários. Será muito interessante ver até onde chega o seu olhar clínico.
Por que a Volkswagen permanece em silêncio?
Uma pergunta inevitável diante dessas curiosas réplicas chinesas é por que a Volkswagen aparentemente não tomou nenhuma providência pública contra a Wecan.
A resposta mais provável é que essas réplicas simplesmente não representam uma ameaça comercial relevante para a fabricante alemã. Trata-se de uma produção artesanal, em pequena escala, destinada a um mercado muito específico de eventos, atrações promocionais e turismo. Além disso, a empresa chinesa não utiliza oficialmente a marca Volkswagen nem apresenta seus veículos como produtos originais da fábrica alemã.
O cenário é bastante diferente daquele envolvendo o Ora Punk Cat, apresentado pela Great Wall Motors em 2021. Na ocasião, a Volkswagen declarou oficialmente que estava analisando uma possível violação de seus direitos de desenho industrial e que se reservava o direito de adotar as medidas legais cabíveis. Entretanto, ao que tudo indica, essa análise não resultou em uma ação judicial pública na China.
Diversos fatores ajudam a explicar esse desfecho. Em primeiro lugar, o desenho do Fusca clássico já não conta com a mesma proteção conferida por antigas patentes de desenho industrial, expiradas há décadas. Além disso, o Ora Punk Cat não é uma reprodução literal do Fusca: possui quatro portas, proporções diferentes, diversos elementos de estilo próprios e teve seu desenho registrado pela própria Great Wall Motors em órgãos de propriedade intelectual. Esses aspectos tornam mais complexa a caracterização jurídica de uma cópia direta.
No caso da Wecan, a situação parece ainda menos propensa a uma disputa judicial. Trata-se de uma empresa de pequeno porte, cuja produção é reduzida e voltada para veículos de baixa velocidade destinados a casamentos, resorts, parques temáticos, food trucks e outras aplicações promocionais.
Também não se pode ignorar a dificuldade prática de litígios envolvendo propriedade intelectual em mercados internacionais, especialmente quando os produtos permanecem restritos a um nicho muito específico e não representam concorrência direta aos veículos da própria Volkswagen.
Assim, tudo indica que a Volkswagen tenha considerado que essas curiosas réplicas da Wecan não justificariam o custo, a complexidade e a incerteza de uma disputa judicial internacional.
Conclusão
Enquanto isso, a pequena Wecan continua produzindo artesanalmente suas curiosas interpretações do VW Fusca e do Kombi. Longe de serem réplicas fiéis ou automóveis de coleção, elas demonstram que, quase nove décadas depois de seu nascimento, o desenho criado pela Volkswagen continua despertando interesse até mesmo num país onde esses automóveis jamais fizeram parte do cotidiano de sua população.
Talvez essa seja a maior prova da força universal do projeto concebido por Ferdinand Porsche. Poucos automóveis conseguiram atravessar tantas décadas, inspirar tantas releituras e continuar sendo imediatamente reconhecidos em qualquer parte do mundo.
Mesmo reproduzido de maneira bastante livre — ou até mesmo “tosca”, como vimos nesta matéria —, basta um simples olhar para que qualquer pessoa diga, sem hesitar: “É um Fusca.” E talvez não exista homenagem maior que essa para um projeto automobilístico.
Breve vídeo (01:17) com exemplos de produtos “VW” da Wecan:
Notas de rodapé:
(¹) – Matéria: “ESTE É O “SÓSIA” DIESEL DA VW KOMBI T1”
(²) – Matéria: “PARECE UM VW FUSCA, MAS NÃO É”
(3) – Matéria: “PARECE, MAS NÃO É!”
Aqui eu poderia também falar da matéria “A OFICINA DOS SONHOS” onde são fabricados Kombis Corujinha e réplicas de Porsches antigos.
(4) – Lanternas traseiras “Fafá”
No Brasil, as lanternas traseiras maiores usadas em alguns modelos do Volkswagen Fusca a partir do final dos anos 1970 receberam o apelido popular de “Fafá”. A referência faz alusão bem-humorada à cantora brasileira Fafá de Belém, conhecida por sua voz poderosa e também por seus seios volumosos — uma comparação jocosa com o formato arredondado e proeminente dessas lanternas. O apelido tornou-se parte do folclore automobilístico brasileiro e é amplamente reconhecido entre entusiastas do Fusca.
AG
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